A Canonização de Jacinta e Francisco Marto

Estátuas de Jacinta e Francisco Marto - Santuário de Fátima

J. M. de Barros Dias

No sábado, 13 de maio, dia em que se cumpriu o centenário das primeiras aparições marianas, em Fátima, o papa Francisco[1] presidiu à missa que canonizou Jacinta e Francisco Marto, os dois pastorinhos, pertencentes a  uma família humilde, que haviam sido beatificados em 13 de maio de 2000, por São João Paulo II. A realização da cerimônia de canonização, que contou com a participação de mais de meio milhão de fiéis, fora confirmada no dia 20 de abril, na sequência do Consistório Ordinário Público que secundou a decisão pontifícia de elevar aos altares católicos dois dos videntes da Cova da Iria, paróquia de Fátima.

No início da eucaristia, o bispo de Leiria-Fátima, António Marto, pediu ao sumo pontífice que inscrevesse Jacinta e Francisco no livro dos santos, tendo feito a apresentação biográfica das crianças. A missa, marcada pela presença das relíquias de Jacinta e Francisco – “uma mecha de cabelo da primeira e um fragmento ósseo do segundo” –, colocadas no altar, aos pés da Virgem Maria – foi marcada pela imponência e emoção da concelebração, que reuniu 3 Chefes de Estado (Portugal, Paraguai e São Tomé e Príncipe), 8 cardeais (3 portugueses), 135 bispos (47 dos quais integram a Conferência Episcopal Portuguesa) e cerca de 2 mil sacerdotes. Após a homilia, durante o cortejo do ofertório, o papa “abraçou e beijou os pequenos Francisco e Jacinta, dois irmãos, filhos de um casal argentino, que foram assim batizados em homenagem aos pastores”.

Segundo testemunhas oculares, Nossa Senhora, que apareceu aos irmãos Jacinta (1910-1920) e Francisco (1908-1919), assim como a sua prima Lúcia (1907-2005)[2], pastores naturais de Aljustrel, Ourém, a cada dia 13, entre maio e outubro de 1917, fez apelos constantes para o incremento da fé, esperança, conversão e orações pela paz. Por outro lado, a Virgem revelou às crianças um segredo, dividido em três partes, que hoje conhecemos como sendo uma visão do Inferno, com cenas da II Guerra Mundial, a ascensão e queda do marxismo-leninismo na União Soviética, e o presságio da tentativa de assassinato de São João Paulo II, em 1981[3]. Atualmente, de acordo com o papa Francisco, “no crer e sentir de muitos peregrinos, se não mesmo de todos, Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha, ‘mostrai-nos Jesus’”.

Se o milagre que levou à beatificação de Jacinta e Francisco, atribuído à intercessão dos irmãos, foi reconhecido em 22 de junho de 1999[4], aquele que abriu o caminho para a canonização foi reconhecido em 23 de março passado. Ele diz respeito a Lucas Batista, uma criança brasileira residente em Juranda, Estado do Paraná, que, na época, tinha cinco anos. Em 5 de março de 2013, a criança brincava com a irmã, em casa do avô, “quando caiu por acidente de uma janela de cerca sete metros de altura, sofrendo um grave traumatismo crânio-encefálico, com a perda de material cerebral”. Em coma, Lucas foi operado de emergência. Se sobrevivesse, ele “viveria em estado vegetativo ou, no máximo, com graves deficiências cognitivas”. Contudo, inexplicavelmente, “após três dias, o menino recebeu alta, não sendo constatado nenhum dano neurológico ou cognitivo”. Mais tarde, no dia “2 de fevereiro de 2007, uma equipe médica deu parecer positivo unânime sobre o caso, como ‘cura inexplicável do ponto de vista científico’”. De acordo com informações agora divulgadas pela Rádio Vaticano, “no momento do incidente, o pai da criança havia invocado Nossa Senhora de Fátima e os dois pequenos beatos. Na mesma noite, os familiares e uma comunidade de irmãs de clausura haviam rezado com insistência, pedindo a intercessão dos pastorzinhos de Fátima”.

De acordo com as declarações do padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de  Nossa Senhora do Rosário de Fátima, à Catholic News Agency, “de certa maneira, a canonização ajuda a dar credibilidade às aparições e à mensagem de Fátima”. Para o padre Cabecinhas, a canonização “tem este valor: não só dois santos na Igreja, mas dois santos que nos desafiam a olhar para a mensagem de Fátima e a compreender que Fátima é também uma escola de santidade para cada um de nós”. Por outro lado, falando sobre a razão que leva os peregrinos a visitar Fátima, Carlos Cabecinhas referiu que é, “sem dúvida”, porque “eles procuram uma forte experiência com Deus, um forte encontro com Deus”. Por outro, sublinhou o reitor, “isto é específico de Fátima”, pois as pessoas que se deslocam até ao Santuário “vêm para ter uma forte experiência com Deus, elas vêm para ter uma mudança em suas vidas e, muitas vezes, esta é uma experiência que transmitem”.

Santa Jacinta e São Francisco Marto são as primeiras crianças, na história da Igreja Católica, a alcançarem os altares mundiais graças a um milagre e não devido ao martírio pessoal. Com eles acaba de ser reconhecida a simplicidade da vida que lhes foi dada viver e a firmeza das convicções que nutriram o seu cotidiano infantil. Nelas, à cabeça, a Igreja acabou de coadjuvar a rejeição, pelos irmãos da Cova da Iria, do Portugal da I República, dominado pelo racionalismo, o positivismo e o messianismo pátrio[5] –, a par do papel da Rússia soviética, na Europa e no mundo.

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 Imagem:

Estátuas de Jacinta e Francisco Marto no Santuário de Fátima.

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 Fontes consultadas:

[1] Ver:

Fátima registrou, até hoje, a presença de 4 papas: Beato Paulo VI (13 de maio de 1967), São João Paulo II (12 a 15 de maio de 1982; 10 a 13 de maio de 1991; 12 a 13 de maio de 2000), Bento XVI (11 a 14 de maio de 2010) e, agora, Francisco (12 a 13 de maio de 2017).

[2] Ver:

Freira da Ordem das Carmelitas Descalças, conhecida como Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado e, popularmente, como Irmã Lúcia, Lúcia de Jesus dos Santos foi a autora do segredo de caráter profético, dividido em três partes, fruto das revelações feitas pela Virgem Maria. As duas primeiras partes – a visão do Inferno; a devoção ao Imaculado Coração de Maria e a conversão da Rússia – foram reveladas em 1941. No ano 2000 foi divulgada a terceira parte, que é uma visão profética, comparável às da Sagrada Escritura, que sintetiza e condensa, sobre a mesma linha de fundo, fatos que se prolongam no tempo, numa sucessão e duração não especificadas.

Cf. P.e LUÍS KONDOR (Compilação) & JOAQUÍN M. ALONSO (Introdução e notas), Memórias da Irmã Lúcia I, 13.ª ed., Fátima, Secretariado dos Pastorinhos, 2007, 238 pp.

Disponível online:

http://www.pastorinhos.com/_wp/wp-content/uploads/MemoriasI_pt1.pdf

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A Mensagem de Fátima.

Disponível online:

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html

 [3] Ver:

A terceira parte do segredo de Fátima foi divulgada publicamente, no Santuário de Fátima, pelo cardeal Angelo Sodano, secretário de Estado do Vaticano, em 13 de maio de 2000.

As teorias da conspiração, entretanto vindas a lume, defenderam a existência de censura do Vaticano à mensagem original, afirmando que o texto vindo a público se encontra truncado.

Em 21 de maio de 2016, a Sala de Imprensa da Santa Sé divulgou um comunicado em que se desmente que o cardeal Joseph Ratzinger tenha falado, alguma vez, com o Prof. Ingo Dollinger – a quem se atribuiu a autoria das declarações acerca da incompletude do “terceiro segredo de Fátima” entretanto publicado.

Cf. REDAÇÃO, “Comunicato: A Proposito Di Alcuni Articoli Relativi al ‘Terzo Segreto di Fatima’”, Vaticano, Bollettino – Sala Stampa della Santa Sede, 21.05.2016.

Disponível online:

http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2016/05/21/0366/00855.html#S

[4] Ver:

Depois de um exame minucioso de Maria Emília Santos, realizado em Roma sob a direção dos professores Machiarelli, Romanini e Santoro, foi reconhecida, por unanimidade, a cura desta mulher como inexplicável pela medicina, na reunião do Conselho médico da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos, presidida pelo professor Rafael Cortesini e realizada em 28 de janeiro de 1999. o caso foi seguidamente submetido a exame pelos consultores teológicos, em 7 de maio de 1999, e depois à opinião dos cardeais e bispos desta mesma Congregação, em sessão ordinária de 22 de junho de 1999, em ambos os casos com re[s]posta afirmativa sobre o fato de saber se se tratava de um milagre divino. Finalmente, o decreto da S. Congregação para a causa dos Santos, reconhecendo a cura de Maria Emília Santos como milagre de Deus obtido pela intercessão dos dois pastorinhos de Fátima, foi promulgado, por ordem do Santo Padre, em 28 de junho de 1999. Este decreto possibilitou a beatificação das duas crianças que, assim, vão tornar-se os bem-aventurados mais jovens da história moderna da Igreja. Este título pertencia anteriormente a São Domingos Sávio, que morreu pouco antes de fazer 15 anos.

[5] Ver:

JOAQUIM DOMINGUES, “Visão Messiânica do Advento da República”, Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, Faculdade de Filosofia, Tomo XLVI, Fasc. 4, X-XI.1990, pp. 479-512.

 

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Consistório Aprova a Canonização dos Pastorinhos de Fátima

Três Pastorinhos

J. M. de Barros Dias

O papa Francisco convocou um Consistório Ordinário Público[1], realizado no Palácio Apostólico do Vaticano, em 20 de abril, no qual os cardeais secundaram a canonização de dois dos videntes de Fátima. De entre as cinco causas de canonização pendentes de aprovação pelos cardeais[2], a mais preeminente foi a de Francisco e Jacinta Marto, duas das três crianças que testemunharam, em 1917, as aparições marianas da Cova da Iria, paróquia de Fátima. A aprovação cardinalícia foi o passo final no processo que teve início em 1950 e que conduzirá à canonização dos pastorinhos portugueses. O papa canonizará os videntes no dia 13 de maio, durante a sua visita apostólica ao maior Santuário mariano da Europa, o Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, a realizar por ocasião do 100.º aniversário das aparições que ali tiveram lugar.

Se o milagre que levou à beatificação de Jacinta (1910-1920) e Francisco (1908-1919), atribuído à intercessão dos dois irmãos, foi reconhecido em 22 de junho de 1999[3], aquele que abriu o caminho para a canonização foi reconhecido em 23 de março passado. Ele diz respeito a uma criança brasileira, que, na época, tinha seis anos. Na altura, a criança brincava com a irmã, em casa do avô, “quando caiu por acidente de uma janela de cerca sete metros de altura, sofrendo um grave traumatismo crânio-encefálico, com a perda de material cerebral”. Em coma, a criança foi operada de emergência. Se sobrevivesse, ela “viveria em estado vegetativo ou, no máximo, com graves deficiências cognitivas”. Contudo, inexplicavelmente, “após três dias, a criança recebeu alta, não sendo constatado nenhum dano neurológico ou cognitivo”. Mais tarde, no dia “2 de fevereiro de 2007, uma equipe médica deu parecer positivo unânime sobre o caso, como ‘cura inexplicável do ponto de vista científico’”. De acordo com informações agora divulgadas pela Rádio Vaticano, “no momento do incidente, o pai da criança havia invocado Nossa Senhora de Fátima e os dois pequenos beatos. Na mesma noite, os familiares e uma comunidade de irmãs de clausura haviam rezado com insistência, pedindo a intercessão dos pastorzinhos de Fátima”.

Jacinta e Francisco, beatificados por São João Paulo II em 13 de maio de 2000, são os mais jovens não mártires da história da Igreja Católica a alcançar os altares mundiais. Os dois irmãos, juntamente com a prima, Lúcia dos Santos, pastores nos campos de Fátima, distrito de Leiria, testemunharam as aparições de Maria. Durante a primeira aparição, que ocorreu em 13 de maio de 1917, Nossa Senhora pediu às crianças para rezarem e fazerem sacrifícios, oferecendo-os pela conversão dos pecadores. Em outubro de 1918, Jacinta e Francisco ficaram gravemente doentes com Gripe Espanhola. Nossa Senhora apareceu-lhes, tendo afirmado que os levaria para o Céu brevemente. Francisco faleceu em 4 de abril de 1918 e Jacinta em 20 de fevereiro de 1920. A causa da canonização da terceira vidente de Fátima, Lúcia[4], que viveu até aos 97 anos, está atualmente em curso. O Vaticano encontra-se a examinar informações sobre a sua vida, que foram coletadas ao longo dos últimos oito anos, quando a causa foi oficialmente aberta.

Jacinta e Francisco se inserem num espaço simbólico que é muito superior ao território e à dimensão econômica do país em que nasceram, viveram e morreram. Para a Igreja Católica, eles passarão a integrar o grupo dos Beatos e Santos portugueses[5] que, juntamente com o legado do Papa João XXI e de um conjunto de místicos e teólogos no qual se destacam Santo António de Lisboa, Frei Álvaro Pais, o padre Teodoro de Almeida, Manuel do Cenáculo Vilas-Boas e frei Bernardo Vasconcelos, constituem modelos de valores e fontes de inspiração para cada fiel. A partir de sua canonização, as virtudes de Jacinta e Francisco, iluminantes desde Fátima, poema do mundo[6], serão exemplos para os católicos de todo o mundo.

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Imagem:

Lúcia dos Santos com os seus primos Francisco e Jacinta Marto, os três pastorinhos de Fátima.

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Fontes consultadas:

 [1] Ver:

“Cân. 353.

[…]. § 2. Para o consistório ordinário, são convocados todos os Cardeais, pelo menos os que se encontram em Roma, para consulta sobre algumas questões graves, de ocorrência mais frequente, ou para a celebração de atos muito solenes.”, AAVV (Notas, comentários e índice analítico pelo Pe. Jesús Hortal, SJ), Código de Direito Canônico, 22.ª ed. revista e ampliada, São Paulo, Edições Loyola Jesuítas, 2013, trad. do latim pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, p. 189.

[2] Ver:

Além das crianças de Fátima, as outras causas de canonização examinadas pelo Consistório foram as de Cristóbal, Antonio, e Juan, jovens mártires do México, em 1529; Fr. Faustino Míguez, o padre espanhol que fundou o Instituto Calasanziano das Filhas da Divina Pastora; Fr. Angelo da Acri, um padre capuchino italiano, pregador na Itália meridional, que morreu em outubro de 1739; Fr. Andrea de Soveral, Fr. Ambrogio Francesco Ferro, Matteo Moreira, e os seus 27 companheiros, mártires em Natal, Brasil, em 1645.

Cf. REDAÇÃO, “Consistory Announced to Approve Fatima Children’s Canonization”, Catholic News Agency, Denver, CO, 11 de abril de 2017.

Disponível online:

http://www.catholicnewsagency.com/news/consistory-announced-to-approve-fatima-childrens-canonization-56451/?platform=hootsuite

[3] Ver:

Depois de um exame minucioso de Maria Emília Santos, realizado em Roma sob a direção dos professores Machiarelli, Romanini e Santoro, foi reconhecida, por unanimidade, a cura desta mulher como inexplicável pela medicina, na reunião do Conselho médico da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos, presidida pelo professor Rafael Cortesini e realizada em 28 de janeiro de 1999. o caso foi seguidamente submetido a exame pelos consultores teológicos, em 7 de maio de 1999, e depois à opinião dos cardeais e bispos desta mesma Congregação, em sessão ordinária de 22 de junho de 1999, em ambos os casos com re[s]posta afirmativa sobre o fato de saber se se tratava de um milagre divino. Finalmente, o decreto da S. Congregação para a causa dos Santos, reconhecendo a cura de Maria Emília Santos como milagre de Deus obtido pela intercessão dos dois pastorinhos de Fátima, foi promulgado, por ordem do Santo Padre, em 28 de junho de 1999. Este decreto possibilitou a beatificação das duas crianças que, assim, vão tornar-se os bem-aventurados mais jovens da história moderna da Igreja. Este título pertencia anteriormente a São Domingos Sávio, que morreu pouco antes de fazer 15 anos.

[4] Ver:

Freira da Ordem das Carmelitas Descalças, conhecida como Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado e, popularmente, como Irmã Lúcia, Lúcia de Jesus dos Santos (1907-2005) escreveu um segredo de caráter profético, dividido em três partes, fruto das revelações feitas pela Virgem Maria. As duas primeiras partes – a visão do Inferno; a devoção ao Imaculado Coração de Maria e a conversão da Rússia – foram reveladas em 1941. No ano 2000 foi divulgada a terceira parte, que é uma visão profética, comparável às da Sagrada Escritura, que sintetiza e condensa sobre a mesma linha de fundo fatos que se prolongam no tempo, numa sucessão e duração não especificadas.

Vide P.e Luís Kondor (Compilação) & Joaquín M. Alonso (Introdução e notas), Memórias da Irmã Lúcia I, 13.ª ed., Fátima, Secretariado dos Pastorinhos, 2007, 238 pp.

Disponível online:

http://www.pastorinhos.com/_wp/wp-content/uploads/MemoriasI_pt1.pdf

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A Mensagem de Fátima.

Disponível online:

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html

[5] Ver:

a)Beatos:

Beata Sancha de Portugal; Beata Mafalda de Portugal e Beata Teresa de Portugal; Beato Frei Gil; Beato Amadeu da Silva; Beato Gonçalo de Amarante; Beato Gonçalo de Lagos; Beato Fernando, o Infante Santo; Beata Joana Princesa; Beato Vicente de Santo António; Beato João Baptista Machado; Beato Frei Bartolomeu dos Mártires; Beato Inácio de Azevedo e os Quarenta Mártires do Brasil; Beato Miguel de Carvalho; Beatos Domingos Jorge, Isabel Fernandes e Inácio Jorge; Beato Diogo de Carvalho; Beata Maria do Divino Coração Droste zu Vischering; Beata Rita Amada de Jesus; Beata Alexandrina Maria da Costa; Beata Beata Maria Clara do Menino Jesus; Beato Francisco Pacheco.

b)Santos:

São Teotónio; Santo António de Lisboa; os Mártires de Marrocos (Vital, Berardo, Otão, Pedro, Acúrsio e Adjuto); São Gualter; Rainha Santa Isabel; São Nuno de Santa Maria Álvares Pereira; Santa Beatriz da Silva; São João de Deus; São Gonçalo; São Lourenço de Brindisi; São João de Brito.

[6] Ver:

Cf. ANTÓNIO BOTTO, Fátima, nova edição, Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2008, 76 pp.

O Papa Francisco Ante a III Guerra Mundial em Fragmentos

Pope Francis

J. M. de Barros Dias

Se, no mundo em que vivemos, a dimensão dos direitos se sobrepôs à esfera dos deveres, outro tanto aconteceu com a tecnologia, que passou a dominar campos significativos da atuação humana. Por outro lado, o crescimento desenfreado da globalização substituiu, em boa medida, a noção de “fronteiras geográficas” por outra, nova em termos vivenciais. Nos referimos às  “fronteiras da segurança” que são, também, a expressão de um sistema mundial violento, inseguro e instável.

O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito papa em 2013, em circunstâncias inusitadas relativamente ao padrão dos últimos séculos. Já doente, em janeiro de 2000, às vésperas de cumprir 80 anos, São João Paulo II declarou indiretamente que não há papas aposentados[1], situação que seu sucessor, o papa Bento XVI, desmentiu, ao renunciar ao pontificado em 28 de fevereiro de 2013.

Em 18 de agosto de 2014, durante a viagem de regresso da Coreia do Sul, a caminho de Roma, Francisco referiu que estamos vivendo “a Terceira Guerra Mundial, mas em fragmentos”. Atualmente, disse ele, os conflitos armados atingem “um nível de crueldade espantoso”. Mostrando-se contrário aos bombardeamentos levados a cabo pelos Estados Unidos, para destruir rebeldes do Estado Islâmico, o sumo pontífice referiu: “Quando há uma agressão injusta, posso dizer que é lícito parar o agressor. Mas ressalto o verbo parar, porque isso não significa bombardear ou fazer uma guerra”. Tendo como pano de fundo para sua análise os conflitos em África, na Faixa de Gaza, na Península da Coreia, e as crises na Síria e no Iraque, o papa considerou que, hoje em dia, “a tortura se tornou quase um meio ordinário. Esses são os frutos da guerra. Estamos em guerra, há a Terceira Guerra Mundial, mas em fragmentos”.

Um mês mais tarde, em 13 de setembro, no Cemitério Austro-Húngaro de Fogliano di Redipuglia, na Itália, Francisco, para quem “a guerra é uma loucura”, evocou naquela oportunidade o início da I Guerra Mundial, em 1914, dizendo: “Hoje, depois do segundo fracasso de outra guerra mundial, talvez se possa falar de uma terceira guerra combatida ‘por partes’, com crimes, massacres, destruições…”. Durante a homilia celebrada no Monumento Militar de Redipuglia, o Papa referiu: “Aqui e no outro cemitério há muitas vítimas. E desde aqui recordamos as vítimas de todas as guerras. Também hoje há muitas vítimas. Como é que isto é possível. É possível porque também hoje, na sombra, há interesses, estratégias, geopolíticas, cobiça de dinheiro e de poder, e exista a indústria armamentista, que parece ser tão importante”.

No dia 6 de junho de 2015, durante a viagem apostólica à cidade mártir de Sarajevo, capital da Federação da Bósnia e Herzegovina, o papa Francisco, tendo presente a Guerra Civil que, entre 1992 e 1995, fez cem mil mortos, lançou um alerta: “No nosso tempo, a aspiração pela paz e o compromisso de a construir colidem com o facto dos numerosos conflitos armados existentes no mundo. É uma espécie de terceira guerra mundial travada ‘aos pedaços’; e, no contexto da comunicação global, sente-se um clima de guerra”. Em nossos dias, lembrou, “há quem queira deliberadamente criar e fomentar este clima, de modo particular aqueles que procuram o conflito entre culturas e civilizações diferentes e também quantos, para vender armas, especulam sobre as guerras. Mas a guerra significa crianças, mulheres e idosos nos campos de refugiados; significa deslocamentos forçados; significa casas, estradas, fábricas destruídas; significa sobretudo tantas vidas destroçadas”.

Na chegada a Cuba, em 20 de setembro de 2015, no Aeroporto José Martí, em Havana, o Papa, sublinhando que, “geograficamente, Cuba é um arquipélago que abre para todas as rotas, possuindo um valor extraordinário de ‘chave’ entre norte e sul, entre leste e oeste. A sua vocação natural é ser ponto de encontro para que todos os povos se reúnam na amizade”, enfatizou que “o mundo precisa de reconciliação, nesta atmosfera de III Guerra Mundial por etapas que estamos a viver”. Um ano mais tarde, em 27 de julho de 2016, o padre Jacques Hamel foi degolado, em Saint-Étienne-du-Rouvray, Normandia, norte de França, por dois insurgentes ligados ao Estado Islâmico, quando celebrava missa matinal. Comentando o ocorrido a bordo do avião que o conduzia a Kraków, Polônia, o líder da Igreja Católica afirmou: “A palavra que está sendo repetida frequentemente é insegurança, mas a palavra real é guerra.

 Vamos reconhecê-lo. O mundo está em estado de guerra em pedaços.

Agora há esta (guerra). Talvez não seja orgânica mas é organizada e é guerra.

Não devemos ter receio de falar esta verdade. O mundo está em guerra porque perdeu a paz”. Para o papa Francisco, “[esta] não é uma guerra da religião. Esta é uma guerra de interesses. Esta é uma guerra pelo dinheiro. Esta é uma Guerra pelos recursos naturais. Esta é uma guerra pela dominação dos povos. Isto é a guerra”. Em contrapartida, para o Vigário de Cristo, “todas as religiões querem paz. Outros querem guerra”.

Na entrevista a Francisco, publicada pelo semanário belga Tertio em 7 de dezembro de 2016, se referindo à proposta “nunca mais a guerra”, lemos as declarações do papa sobre o assunto: “Eu penso que ‘Nunca mais a guerra’ não foi levado a sério, porque depois da primeira Guerra a segunda veio e depois da segunda esta terceira guerra que agora estamos vivendo em pedaços, em pedacinhos. O mundo está empenhado na III Guerra Mundial: Ucrânia, Oriente Médio, Iémen…”. Deste modo, referiu o papa, isto “é muito sério. Então, ‘guerra nunca mais’ sai da boca mas, entretanto, nós manufaturamos armas, e vendêmo-las, e vendêmo-las a nossos adversários, porque o mesmo fabricante de armas as vende a este, e àquele, que está em guerra com o outro. Isto é verdade. Há uma teoria econômica, que eu nunca tentei verificar, mas sobre a qual eu li em diversos livros: na história da Humanidade, quando o Estado verificava que seus Balanços não estavam certos, criava a guerra e equilibrava seus balanços. Quer dizer, esta é uma das maneiras mais fáceis de criar riqueza. Claro que o preço é muito caro: sangue”.

Este ano, ao falar em 24 de fevereiro de 2017, no Seminário “O Direito Humano à Água: Um Estudo Interdisciplinar sobre o Papel Central das Políticas Públicas na Gestão da Água e dos Serviços Ambientais”, promovido pela Pontifícia Academia para as Ciências, o Papa centrou a problemática do acesso à água potável segura como a causa provável de um conflito bélico generalizado. Ele começou seu discurso afirmando que a água “é ‘criatura útil, pura e humilde’, fonte de vida e de fecundidade (cf. São Francisco de Assis, Cântico das Criaturas). Por este motivo, a questão que tratais não é marginal, mas fundamental e muito urgente. Fundamental porque onde há água há vida, e então a sociedade pode formar-se e progredir. E urgente porque a nossa casa comum tem necessidade de tutela e, além disso, que se compreenda que nem toda a água é vida: somente a água segura e de qualidade – prosseguindo com a figura de São Francisco: a água ‘que serve com humildade’, a água ‘pura’, não poluída”. Na Casina Pio IV, no Vaticano, onde teve lugar o evento, Francisco, que referiu o direito à água como determinante para a sobrevivência das pessoas[2], questionou “se, no meio desta ‘terceira guerra mundial em pedaços’, que hoje estamos a viver, não caminhamos porventura rumo à grande guerra mundial pela água”.

Se vivemos, atualmente, uma época repleta de possibilidades de comunicação interpessoal e de realização global, também é certo que as ameaças a todos nós são, cada vez, mais ameaçadoras. Regiões como a Coreia do Norte, o Mar do Sul da China, o subcontinente indiano, o Oriente Médio e a Ucrânia constituem a demonstração de que, hoje em dia, não há vontade significativa para o estabelecimento da distensão entre adversários que consolidaram suas posições antagônicas. O papa Francisco, que defende a promoção de uma cultura do encontro, tem se referido à III Guerra Mundial em fragmentos para denunciar a naturalização da guerra, defendida pelos pensadores e estrategistas de orientação realista, herdeiros teóricos de Carl Von Clausewitz: “A guerra é a continuação da política por outros meios”[3].

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 Imagem:

Papa Francisco.

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 Fontes consultadas:

 [1] Ver:

Em início do ano 2000, o então presidente da Conferência Episcopal da Alemanha, bispo Karl Lehmann, sugeriu que o papa, afetado pela doença de Parkinson, deixasse o cargo por motivos de saúde. Naquela ocasião, Vittorio Messori, um intelectual católico, numa entrevista concedida ao jornal La Stampa, declarou que “o papa ‘vive um drama há algum tempo’, pois se questiona se deve continuar guiando a Igreja ou se deve renunciar ao Pontificado”.

Respondendo implicitamente a Karl Lehmann e a Vittorio Messori, João Paulo II afirmou, no discurso proferido em 10 de janeiro de 2000, ante os membros do Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé: Deus “nunca pede algo acima das nossas forças. Ele mesmo nos dá a força para realizarmos o que espera de nós”.

[2] Ver:

Ao denunciar a exclusão de setores amplos da Humanidade no tocante ao acesso à água, o papa afirmou: “Os números que a Organização das Nações Unidas revelam são impressionantes e não nos podem deixar indiferentes: mil crianças morrem cada dia por causa de doenças ligadas à água; milhões de pessoas bebem água poluída. Trata-se de dados muito graves; é preciso impedir e inverter esta situação. Ainda não é tarde, mas é urgente que nos tornemos conscientes da necessidade da água e do seu valor essencial para o bem da humanidade.

[3] Ver:

CARL VON CLAUSEWITZ (Ensaios introdutórios de Peter Paret, Michael Howard e Bernard Brodie, com um comentário de Bernard Brodie), Da Guerra, trad. para o inglês por Michael Howard e Peter Paret – trad. do inglês para o português por Luiz Carlos Nascimento e Silva do Vale, pp. 70, 91 e 764.

Disponível online:

https://www.egn.mar.mil.br/arquivos/cepe/DAGUERRA.pdf

 

A Ligação de Tareck El Aissami, Vice-Presidente da Venezuela, ao Hezbollah

Tareck El Aissami

Marli Barros Dias

O vice-presidente da Venezuela, Tareck El Aissami, é um membro do regime chavista que ascendeu rapidamente ao poder e que, hoje, é suspeito de ligação com o Hezbollah – grupo insurgente libanês. Aos 42 anos, o político venezuelano de origem síria já assumiu vários cargos. Aos 29 anos ele foi chefe da Missão Identidade, o organismo responsável por emitir o cartão de identidade dos venezuelanos, depois elegeu-se Deputado, tornou-se vice-ministro da Segurança Cidadã e, logo em seguida, ministro do Interior e da Justiça, cargo que exerceu entre os anos de 2008 e 2012. Em janeiro deste ano foi nomeado vice-presidente da Venezuela, por Nicolás Maduro. Apesar de El Aissami ser considerado o chavista mais repudiado pela oposição, ele é um caso de sucesso na vida pública, mas atualmente está sendo confrontado com acusações que o associam ao terrorismo internacional, sendo considerado o principal elo de ligação ao Hezbollah na América Latina. Segundo estudos, há uma rede financeira entre o chavismo e o extremismo islâmico e o vice-presidente venezuelano encontra-se relacionado com este episódio.

Há informações que asseguram que o vínculo com o Hezbollah é facilitado pela origem da família de El Aissami. O fato de ser filho de imigrantes da Síria, tendo o pai e o tio de El Aissami trabalhado para o Partido Ba’ath sírio, tem favorecido as relações entre a Venezuela, o Irã e o país de seus antepassados. Os críticos do vice-presidente venezuelano atribuem-lhe a responsabilidade por uma vasta rede política que transformou o país num “centro internacional de drogas e a base do terrorismo islamita na América Latina”. Um estudo realizado pelo Centro para uma Sociedade Livre e Segura (SFS) confirma que aproximadamente 173 pessoas, originárias do Oriente Médio, foram identificadas portando passaportes e documentos de identidade venezuelana. Os dados recolhidos pela SFS apontam que a Venezuela se transformou em trampolim para os indivíduos ligados aos insurgentes do Hezbollah entrarem nos EUA. O diretor executivo da SFS, Joseph Humire, afirmou que “os indivíduos eram do Irã, do Iraque, da Síria, da Jordânia e do Líbano. Mas, a maioria era do Irã, do Líbano e da Síria. Setenta por cento vieram desses países e tinham algum tipo de vínculo com o Hezbollah”. Neste contexto, vale ressaltar que o passaporte venezuelano é aceite sem visto em mais de 130 países, compreendendo 26 países da União Europeia, o que facilita a circulação por diferentes partes do mundo por estas pessoas.

Outro ator que aparece como elemento fundamental para a manutenção da rede entre o narcotráfico e o terrorismo islâmico é Cuba. O ex-assessor de Segurança da Venezuela, que fez parte do processo de modernização do sistema de identidade daquele país, Anthony Daquin, declarou que o Governo de Raul Castro é o responsável por “gerenciar os sistemas de documentação da Venezuela”. Conforme explicou Daquin, tudo é feito sem nenhum problema uma vez que os cubanos possuem equipamentos eficazes, “incluindo folhas de policarbonato, assinatura eletrônica que entra em passaportes e certificados, criptografia, que são aqueles que permitem o chip poder ser lido nos aeroportos”. A trama com o Hezbollah, envolvendo El Aissami, não está restrita aos territórios venezuelano e cubano mas, também, à Argentina. Neste sentido, cabe ressaltar o assassinato do promotor argentino, Natalio Alberto Nisman, em 2015, no decurso das investigações sobre o atentado terrorista contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), ocorrido em 1994. Durante o processo investigatório, Nisman apurou as conexões entre os radicais islâmicos estabelecidos na Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai) com a Argentina e o Irã, o que levantou a suspeita de a sua morte estar associada ao caso em que ele vinha trabalhando. A morte de Nisman ainda não foi totalmente esclarecida. No entanto, há informações de que um acordo foi estabelecido entre a Venezuela e o Irã estando El Aissami como um dos principais operadores que fez o “elo entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o Hezbollah”.

Os acontecimentos demonstram a abrangência da aliança entre os membros do Governo chavista com integrantes do Hezbollah e com o Irã. A revista Veja denunciou, em março de 2015, o fato de o adido comercial da Embaixada da Venezuela em Damasco, o libanês Ghazi Nasr al-Din, que posteriormente entrou para a lista do FBI, como sendo o “preposto de El Aissami” e o responsável pela emissão de passaportes venezuelanos para “encobrir a identidade de terroristas que viajavam pelo mundo” de entre os quais se inclui o clérigo iraniano Moshen Rabbani, apontado por Nisman como sendo o responsável por levar a cabo o atentado contra a AMIA. Rabbani, em posse desse passaporte, viajou “pelo menos três vezes” ao Brasil. Todos os fatos convergem para uma teia do narcotráfico e do terrorismo islamita radical consolidada a partir da Venezuela, durante o mandato de Hugo Chávez e que chega à atualidade com vigor, na medida em que todos os indícios confluem para o endosso do vice-presidente da Venezuela, que é o sucessor mais próximo à Presidência da República daquele país.

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Imagem:

Tareck El Aissami.

 

O Novo Oriente Médio

Oriente Médio - mapa

Marli Barros Dias

O Oriente Médio, palco de muitas batalhas e cenário geoestratégico para muitos atores internacionais, na sequência da Primavera Árabe foi sacudido por mudanças que, ao contrário de muitas análises da época, não significaram a democratização da região nem, sequer, melhores condições de vida. As mazelas sociais, fruto da alienação de regimes políticos autoritários e corruptos resultou, em dezembro de 2010, na morte de Mohamed Bouazizi, um jovem tunisino desempregado que, impedido pelas autoridades de seu país de vender legumes para garantir a sobrevivência, ateou fogo ao próprio corpo. O ato desencadeou uma onda de protestos em vários países do Oriente Médio e culminou na queda de Zine El Abidine Ben Ali, na Tunísia, Hosni Mubarak, no Egito, e Muammar al-Gaddafi, na Líbia. Na Síria, as contestações ao regime de Bashar al-Assad levaram à guerra. As consequências que, desde então, têm atingido a região contrariam as perspectivas ocidentais feitas naquele momento, de um mundo mais alinhado ao modelo de democracia ocidental. No auge dos acontecimentos, muitos analistas ignoraram o fato de que essas sociedades, após anos de submissão e desemprego, poderiam tomar uma direção diferente daquela esperada por quantos se encontravam no comando dos centros de decisões globais. As revoltas que, para o Irã, foram denominadas de despertar islâmico, tomando como base a própria revolução iraniana de 1979, talvez, nos dias de hoje, tenham mais sentido se, partindo do pressuposto de que, paralelamente a um Oriente Médio desestabilizado, pode-se dizer que há sinais de um poder iraniano ascendente na região bem como a ascensão do extremismo religioso.

A expressão Novo Oriente Médio foi usada pela primeira vez em 2006, por Condoleezza Rice, Secretária de Estado dos EUA, em “substituição ao termo mais antigo e mais imponente, Grande Oriente Médio”, que coincidiu com a inauguração do Terminal Petrolífero Baku-Tbilissi-Ceyhan (BTC) no Mediterrâneo Ocidental e, também, com a guerra entre Israel e o Líbano. Os elementos que justificaram o propósito daquela designação para a região, não assumiram os contornos esperados pelos EUA e a Grã-Bretanha, cuja intenção era redesenhar as fronteiras regionais sob a alegação de resolver os problemas do Oriente Médio atual. Porém, os acontecimentos que se sucederam ao longo dos últimos anos não permitiram a concretização dos objetivos anglo-americanos e se opondo aos interesses dessas duas potências ocidentais hoje, as antigas e as novas forças políticas tentam definir áreas de influência que poderão resultar numa nova ordem regional. A presença do Irã, da Rússia e da Turquia na guerra na Síria, por exemplo, somada aos episódios dos últimos seis anos, provocados por aquele conflito, no rescaldo da Primavera Árabe, aponta um novo direcionamento das lideranças mundiais para questões mais recentes. Demandas tradicionais, como a criação do Estado palestino, não saíram da agenda, mas estão em segundo plano. De acordo com as informações recentemente veiculadas, o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou o rompimento de uma relação histórica dos EUA relativamente ao conflito israelo-palestino.

A Palestina que, por muitas décadas, foi o epicentro de várias contendas envolvendo Israel, o mundo árabe e o Ocidente, parece que deixou de o ser. Esta é uma das evidências que dividem o antigo Oriente Médio e o novo. Ao longo dos anos, a região tem sido remodelada e, para o bem ou para o mal, os EUA estiveram sempre presentes. Quando o Presidente Trump afirmou: “Olho para a solução com dois estados e com um estado e gosto do que israelenses e palestinos gostarem. Aceito as duas opções”, de fato a sua administração não tem interesse no problema. No entanto, ele não cogitou, até hoje, a saída das tropas norte-americanas da Síria. Segundo informações, o Oriente Médio continua a ser relevante para os norte-americanos. Os Oficiais aposentados dos Serviços Estrangeiros afirmam que áreas da “Turquia ao Irã, através da Península Arábica – que definem o novo panorama da política externa americana no Oriente Médio”. Neste contexto, os EUA não estão deixando a região mas, se o fizerem, quem será o líder do novo Oriente Médio? Muitas coisas serão definidas no futuro, mas as alterações já são perceptíveis no presente. Foi noticiada, pela BBC, no início deste mês, a possibilidade de uma guerra que envolva Israel no novo Oriente Médio, a partir da Síria, que alterou o mapa estratégico da região. Em conformidade com uma notícia recente, o que mais assusta Israel são as vitórias no Norte da Síria pelas forças de Bashar al-Assad e de seus aliados, o Irã e o Hezbollah. Para o Professor Asher Susser, do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Tel Aviv, “as mudanças na Síria, trouxeram o Irã para mais perto das fronteiras de Israel do que nunca”, situação que origina “a possibilidade da cooperação entre o Irã e o Hezbollah não apenas ao longo da fronteira entre Israel e Líbano, mas também ao longo da fronteira entre Israel e a Síria”. Para o Professor, isto corresponde a “um potencial perigoso para uma longa fronteira do Mediterrâneo, através do Líbano e da Síria, com o Hezbollah e o Irã muito perto de Israel que, nunca enfrentou esse tipo de situação em sua fronteira norte”.

Vários aspectos vêm sendo alterados na parte mais conturbada do planeta. Uma nova configuração geoestratégica começa a tomar forma. O antigo Oriente Médio está a ser substituído gradativamente pelo novo, no qual a Palestina passou a ocupar o segundo plano na agenda internacional, enquanto que a Síria é a pauta do momento. Isto porque este país árabe concentra as mais variadas forças regionais e estrangeiras jamais vistas num conflito de mesma natureza, o que modifica as estruturas do passado. Este status quo já está sendo alterado nos Montes Golã, cuja fronteira foi, em tempos, considerada a mais pacífica de Israel. Praticamente todos os acontecimentos e notícias sobre o cotidiano da Síria convergem para a construção de um novo Oriente Médio e de novas políticas para a região, que ainda estão por definir, mas já estão em curso.

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Imagem:

Mapa do Oriente Médio.

(Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/13/Middle_east.jpg

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Publicado em CEIRI Newspaper:
http://www.jornal.ceiri.com.br/

A Rejeição, Pelo Papa Francisco, de Um Mundo Povoado por Muros

Muro na Fronteira de Tijuana

J. M. de Barros Dias

O mundo que emergiu da crise financeira que despoletou em 2008 é, em suas traves-mestras, mais protecionista do que aquele em que vivemos ao longo das décadas anteriores. Se, recentemente, o jornal El Periódico inventariava em 80 a quantidade de muros construídos entre diferentes países do mundo, ao nível das mentalidades o panorama não é diferente. Neste sentido, a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, tem servido como catalizador de uma onda xenófoba que, ao longo das últimas décadas, não tem paralelo.

O papa Francisco, na audiência levada a cabo no dia 25 de fevereiro, na Sala dos Papas, do Vaticano, ao receber a Delegação Católica para a Cooperação, da Conferência Episcopal Francesa, por ocasião da peregrinação realizada com ensejo do cinquentenário de sua fundação, lançou um novo apelo para a construção de pontes “num mundo em que ainda se levantam numerosos muros por causa do medo do próximo”. Tendo presente a Igreja em saída[1], por si publicitada em diversas oportunidades, Francisco sublinhou a necessidade de uma Igreja Católica “que se torna próxima das pessoas em condições de sofrimento, de precariedade, de marginalização e de exclusão”. Centrado na Carta Encíclica Populorum Progressio, do beato Paulo VI, que preconiza que “o desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento econômico”, Francisco salientou que são os voluntários que tornam “visível uma Igreja pobre com e para os pobres, uma Igreja em saída, que se torna próxima das pessoas em condições de sofrimento, de precariedade, de marginalização e de exclusão”.

Encorajando os membros da Delegação Católica para a Cooperação a desenvolverem uma cultura da misericórdia, o Sumo Pontífice defendeu, a partir do exposto na Carta Apostólica Misericordia et Misera, o aprofundamento do encontro de cada um com os outros: “Uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos”, fazendo de cada um com quem depara, ao longo da vida, alguém intrinsecamente valioso e, portanto, digno da máxima consideração. Se, em estritos termos econômicos, para Francisco, a partir do Evangelho de São Marcos, “o sábado foi feito para o homem[2], e não o contrário, em termos amplos todos temos, ante nós, o seguinte desafio: “Proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projecto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado[3].

Cumpridos quatro anos de seu ministério petrino, o papa Francisco tem sido inequívoco em suas linhas de atuação. É a pessoa, não os mercados, o centro de suas preocupações; é o entendimento entre os diferentes povos e não o nacionalismo exacerbado – do qual decorre a III Guerra Mundial em fragmentos[4] – que serve de orientação ao sumo pontífice argentino. Apesar da oposição, no seio do próprio Vaticano, Francisco tem sido fiel à linha de rumo que traçou, logo em 2013, aquando da sua eleição. Ela diz respeito ao Encontro que os seres humanos devem estabelecer, entre si, e não aos muros criados, sobretudo, a partir da economia e da política, assumidos como ilusões sociais, tidas por necessárias.

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Imagem:

O muro na fronteira de Tijuana, México e San Diego. As cruzes representam os migrantes que morreram quando tentavam cruzar a fronteira. A torre de vigilância está em segundo plano.

(Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mexico%E2%80%93United_States_barrier#/media/File:Border_Wall_at_Tijuana_and_San_Diego_Border.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

Sendo uma das primeiras propostas do atual sumo pontífice, ela tem como ponto de partida o Livro do Gênesis: “Deixa o teu país, tua parentela e a casa de teu pai e vai para o país que te mostrarei” (Gn 12,1). Por outro lado, no Livro do Êxodo, Moisés escuta a chamada: “Vai! Eu te envio” (Ex 3,10), tendo dito aos profetas, como a Ezequiel, “Filho do homem, Eu te envio aos filhos de Israel” (Ez 2,3) e a Jeremias: “Irás onde eu te enviar” (Jr 1,7).

No âmbito do pontificado de Francisco, a Igreja em saída está presente, pela primeira vez, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.

Cf. FRANCISCO, Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho, 5.ª ed., São Paulo, Paulus Editora – Edições Loyola Jesuítas, 2915, trad. do italiano, § 20-23.

A versão online do documento, em português europeu, está disponível em:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html

[2] Ver:

Mc 2,27.

[3] Ver:

PAPA FRANCISCO, Carta Encíclica Laudato Si’ do Santo Padre Francisco sobre o Cuidado da Casa Comum, Vaticano, Libreria Editrice Tipografia Vaticana, 2015, 192 pp.

No Brasil, duas editoras deram a conhecer a Encíclica: PAPA FRANCISCO, Laudato Si’. Sobre o Cuidado da Casa Comum, São Paulo, Paulinas, 2015, trad. do italiano, 197 (3) págs.; FRANCISCO, Laudato Si’. Louvado Sejas. Sobre o Cuidado da Casa Comum, São Paulo, Paulus Editora – Edições Loyola Jesuítas, 2015, trad. do italiano, 142 pp.

A versão online do documento, em português europeu, está disponível em:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

[4] Ver:

O papa Francisco se referiu, até hoje, à III Guerra Mundial “fragmentada” nas seguintes ocasiões:

a) 18 de agosto de 2014, durante a viagem de regresso da Coreia do Sul.

Ver:

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2014/08/18/vivemos-a-3-guerra-mundial-diz-papa-francisco.htm

b) 13 de setembro de 2014, no Cemitério Militar de  Redipuglia, na Itália.

Ver:

http://www.bbc.com/news/world-europe-29190890

c) 6 de junho de 2015, durante a viagem apostólica a Sarajevo, capital da Federação da Bósnia e Herzegovina

Ver:

http://pt.euronews.com/2015/06/06/papa-francisco-evoca-especie-de-3-guerra-mundial/

d) 20 de setembro de 2015, no início da viagem apostólica a Cuba. 

Ver:

http://www.dn.pt/globo/interior/papa-pede-reconciliacao-nesta-atmosfera-de-terceira-guerra-mundial-que-vivemos-4787708.html

e) 27 de julho de 2016, declarações proferidas após o assassinato do padre Jacques Hamel, em Saint-Étienne-du-Rouvray, Normandia, norte de França, por dois insurgentes ligados ao Estado Islâmico.

Ver:

http://www.express.co.uk/news/world/693980/pope-world-war-France-church-terror-attack-priest

f) 7 de dezembro de 2017, entrevista ao jornal semanário belga Tertio.

Ver:

https://zenit.org/articles/popes-interview-with-belgian-weekly-newspaper-tertio/

g) 24 de fevereiro de 2017, no Seminário “O Direito Humano à Água: Um Estudo Interdisciplinar sobre o Papel Central das Políticas Públicas na Gestão da Água e dos Serviços Ambientais”.

Ver:

http://www.huffpostbrasil.com/2017/02/25/aqui-esta-o-motivo-que-pode-gerar-uma-terceira-guerra-mundial-s_a_21721574/