Tom Catena: A Esperança, nas Montanhas Nuba, em Tempos de Guerra

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J. M. de Barros Dias

Independente do Egito desde 1956, o Sudão foi o maior país africano até 2011, altura em que, após a realização de um referendo, se registrou a separação relativamente ao Sudão do Sul. A História do país tem sido marcada por conflitos étnico-raciais, duas Guerras Civis, entre 1955-1972 e entre 1983-2005, e, também, por dois conflitos internos em curso: aquele que tem lugar no sul e o da região de Darfur. A ONG Transparência Internacional classificou, em 2014, o Sudão como o 3.º país mais corrupto do mundo[1], somente atrás da Coreia do Norte e da Somália.

No sul do país, nas montanhas Nuba, situadas no estado do Kordofan do Sul, naquele que é, provavelmente, um dos conflitos mais esquecidos do planeta, estão se verificando crimes de lesa-humanidade talvez mais graves do que no Darfur. De acordo com denúncias da Agência Fides, “a guerra na região atingiu 1,2 milhões de civis. Destes, 300.000 foram obrigados a fugir e a produção agrícola caiu ao ponto de atender apenas 25% das necessidades da população”[2]. Em Nuba, a situação é de tal modo grave que os “trabalhadores humanitários ocidentais foram obrigados a fugir e há relatos de que tropas governamentais e milícias árabes apoiadas pelo governo estão caçando e matando sistematicamente integrantes do grupo étnico Nuba, de cor negra”[3]. É, precisamente, naquele território pleno de dificuldades e, até, hostil à presença estrangeira, que o médico-cirurgião norte-americano Tom Catena escolheu exercer sua atividade.

Thomas – ou Tom – Catena nasceu em Amsterdam, Nova Iorque, há 51 anos. Ele obteve a graduação em Engenharia Mecânica, pela Brown University. Após a conclusão dos estudos, decidiu que a carreira médica lhe propiciaria a oportunidade de trabalhar como missionário, para “servir a Deus de uma maneira concreta, aplicando os ensinamentos do Evangelho ao trabalho diário”[4]. Tom frequentou a Escola de Medicina da Duke University, instituição onde concluiu a licenciatura em 1992. Seis anos mais tarde, o Dr. Catena trabalhou na Guiana durante um mês e, depois, em Honduras, em outra missão médica com a duração de um mês e meio. Tendo completado a residência médica em 1999, Tom Catena optou por dedicar-se ao voluntariado. Deste modo, ele foi voluntário do Catholic Medical Mission Board no Hospital Mutoma, situado na região rural do Quênia, por dois anos. Em seguida, ele trabalhou no St. Mary’s Hospital, em Nairobi, ao longo de seis anos[5].

Desde 2008 ele serve, como missionário católico, no Hospital Mãe da Misericórdia, nas montanhas de Nuba, território onde, desde 2012 até hoje, foram lançadas 3740 bombas contra alvos civis[6]. Naquele Hospital, gerido pelos Missionários Combonianos do Coração de Jesus, e dotado de 435 leitos, o Dr. Catena é o único médico que atende uma população com mais de meio milhão de pessoas, desafiando a ordem do Presidente sudanês, Omar Hassan al-Bashir, que proíbe as organizações internacionais de prestarem ajuda humanitária naquele território. Catena trabalha dia e noite, aliviando as doenças, os ferimentos de guerra e as situações que derivam da fome. Pelos riscos e sacrifícios pessoais, o médico norte-americano aufere um salário mensal de USD $ 350 – cerca de R$ 1.000 – sem direito a qualquer plano de saúde e aposentadoria[7]. Catena é inspirado, segundo suas próprias palavras, por sua fé católica: “Eu tenho tido benefícios desde o dia em que nasci”, afirmou. “Uma família amorosa. Uma grande educação. Então, eu vejo isso como uma obrigação, como cristão e como ser humano, para ajudar”[8]. Por outro lado, considera o Dr. Catena, o labor missionário é aquele que “providencia as fundações espirituais que dão significado ao trabalho”[9].

Tom Catena leva a cabo, anualmente, cerca de 1.000 cirurgias. As pessoas que trabalham com ele dizem que, durante meses e, talvez anos, ele não se ausentou de suas funções por um único dia[10]. Entre aqueles a quem disponibiliza sua ciência e sua arte, Catena é muitíssimo respeitado. O Tenente-Coronel Aburass Albino Kuku, integrante da força militar rebelde, em Nuba, afirmou: “O povo das montanhas Nuba jamais esquecerá o seu nome. […]. O povo reza para que ele nunca morra”[11]. Por seu lado, Hussein Nalukuri Cuppi, um preeminente líder da comunidade muçulmana, foi mais longe, ao declarar: “Ele é Jesus Cristo […]. Jesus curava os doentes, fazia com que os cegos enxergassem e ajudava os coxos a andar – e é isto que o Dr. Tom faz cada dia”[12]. De acordo com Ryan Boyette, um cidadão norte-americano que vive no Sudão desde 2003, Tom “é inestimável. Toda a gente olha para ele como a única pessoa que pode salvar suas vidas”[13].

A missão de Tom Catena, no extremo sul do Sudão, constitui, simultaneamente, o alívio possível para aquelas populações esquecidas pela comunidade internacional e, também, um sinal de esperança para quantos, neste planeta, sentem o desespero por viverem em um mundo com valores à deriva. Por outro lado, ele dignifica, em seu cotidiano, aqueles que sentem, na pele, o descaso de políticos, levado às mais tristes consequências. Na verdade, o Dr. Catena vivifica, em pleno século XXI, os versos do poeta timorense Fernando Sylvan que, a propósito de seu povo, também martirizado, disse: “Pedem-me um minuto de silêncio […]. / Respondo que nem por um minuto me calarei”[14].

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Imagem

O Dr. Tom Catena, segundo a revista Time, é uma das cem personalidades mais influentes do ano 2015.

(Fonte):

https://timedotcom.files.wordpress.com/2000/04/dr-tom-catena-time-100-2015-pioneers.jpg?quality=65&strip=color&w=1100

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.transparency.org/cpi2014/results#myAnchor1

[2] Ver:

http://www.fides.org/pt/news/32466-AFRICA_SUDAO_Cometidos_nas_Montanhas_Nuba_crimes_contra_a_humanidade_como_em_Darfur#.VanWVMNRHIU

[3] Ver:

http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/tag/nuba/

[4] Ver:

http://working.org.s68107.gridserver.com/volunteer-dr-tom-catena-named-catholic-digest-hero

[5] Ver:

http://working.org.s68107.gridserver.com/volunteer-dr-tom-catena-named-catholic-digest-hero

[6] Ver:

http://nubareports.org/

[7] Ver:

http://www.nytimes.com/2015/06/28/opinion/sunday/nicholas-kristof-hes-jesus-christ.html?_r=0

[8] Ver:

http://www.nytimes.com/2015/06/28/opinion/sunday/nicholas-kristof-hes-jesus-christ.html?_r=0

[9] Ver:

http://working.org.s68107.gridserver.com/volunteer-dr-tom-catena-named-catholic-digest-hero

[10] Ver:

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2982858/Tom-Catena-surgeon-Nuba-Mountains-Sudan-genocide-hightlighted-George-Clooney.html

[11] Ver:

http://www.nytimes.com/2015/06/28/opinion/sunday/nicholas-kristof-hes-jesus-christ.html?_r=0

[12] Ver:

http://www.nytimes.com/2015/06/28/opinion/sunday/nicholas-kristof-hes-jesus-christ.html?_r=0

[13] Ver:

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2982858/Tom-Catena-surgeon-Nuba-Mountains-Sudan-genocide-hightlighted-George-Clooney.html

[14] Ver:

http://fernandosylvan.blogspot.com.br/

Fonte:

CEIRI Newspaper

O Tijucas não Existe

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J. M. de Barros Dias

Arlindo Pitocênico é meu vizinho no Edifício Tijucas. Vive, uns andares abaixo, num apartamento lotado por 4 gatos, uns quantos livros estrangeiros – tudo aquilo boas obras!, garante ele – e pilhas e pilhas de jornais já fedorentos.

Outro dia eu encontrei Pitocênico no Café da Boca Maldita. Abeirando-se, ele garantiu:

– O Tijucas não existe!

– Como assim, vizinho Arlindo?

– De acordo com minhas próprias pesquisas, alinhavadas de acordo com a Ciência Nova, tudo, exceto o mercado livre, é ilusão social, tida por necessária. Você acredita que vive no Tijucas porque suas ânsias de proteção assim o pedem. Na verdade, o prédio é uma roupa que você assumiu como sua e que veste, para se sentir confortável.

– Por Deus, amigo Pitocênico, aonde é que essa sua teoria o vai levar?, perguntei eu.

– Por Deus, coisa nenhuma. Deus, de acordo com os autores Beltrano e Cicrano, que eu li atentamente, não existe. Ele é como o Tijucas. Tudo isso não passa de enganação herdada dos colonizadores que para aqui vieram. Eles criaram em nossos avós a ideia de que nós temos a necessidade de um deus bom e protetor. Xavier Nepomuceno, outro clássico que eu venho consultando faz tempo, afirma isso com clareza.

– Ah!, sim…, exclamei eu, contrito em minha ignorância anti-metafísica.

Enquanto debicava seu café arábico, Pitocênico concluiu de modo severo:

– No ensaio que eu ando redigindo por estes dias, eu provo que a grande teoria de nossa era é o princípio de realidade, tal como a Teoria de TINA – There Is No Alternative – o expõe. É assim que os americanos, esse povo de gente culta, sagaz e livre, pensam. É nisto que eu acredito: o mercado, antes de tudo. A propriedade privada, antes do bem comum. Nós, vizinho Dias, estamos vivendo infinitas possibilidades nunca antes de nós concretizadas no mundo: estamos fruindo o mais esplendoroso período de paz dos últimos séculos; a pobreza está diminuindo a olhos vistos e a poluição, essa, está praticamente erradicada do planeta.

Colossal, este Pitocênico, concluí, enquanto esperava o elevador que me levaria até o apartamento, lá no 25.º andar do, segundo Arlindo, inexistente Edifício Tijucas. Tão colossal ele é que eu duvido mesmo se ele não será Kolossal. Assim, com um “K” gótico, com as quatro pontas germânicas impondo Ordem e Disciplina ao mundo das pessoas provisórias e caóticas como eu.

Logos Profanado

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“Frívolo”, explica o Minidicionário Soares Amora da Língua Portuguesa, é aquilo que “não tem importância; sem valor; fútil, leviano” (19.ª ed., 7.ª tiragem, 2010, pág. 330). Não é no sentido sexual que eu irei, aqui, abordar o sentido do conceito de frívolo em nossos dias.

Há algumas décadas atrás, os arautos da Teoria da Comunicação vaticinaram que, com o advento das novas tecnologias, o mundo iria entrar numa nova era, aquela em que todos e não unicamente os intelectuais, seriam os protagonistas do “logos”. Doravante, os cidadãos iriam ter a palavra fecundante no âmbito do processo civilizatório. No futuro, que se avizinhava ao virar da esquina, a empregada do supermercado e o cobrador do ônibus iriam discutir Immanuel Kant e propor soluções alternativas à Ética Global, de Hans Kung.

Não foi assim. A periferia da cultura, de mãos dadas com os órgãos de comunicação social do “mainstream” tomaram conta do discurso significativamente dominante. Em nossos dias, frases de autoria duvidosa compaginam a atualidade a par de aforismos espúrios deste ou daquele autor. Fernando Pessoa e Wisława Szymborska têm menos adeptos do que a Maria da Esquina e o Sérgio do Chopp. O relativismo ontológico das massas da pós-modernidade impôs, entre nós, a promiscuidade do “logos”. Com efeito, citações abusivas e fora de contexto servem para ilustrar a realidade puramente subjetiva de quem cumpre a existência com valores à deriva. Para a maioria de chumbo que determina a (in)fecundidade cultural do tempo presente tanto valor tem a expressão “uai” como a Propedêutica Filosófica, de Hegel; uma fábrica de sapatos tem, para eles, muito mais relevância do que o The Jerusalem Post, por exemplo.

O que fazer, então? De pouco serve, aos cultores do verbo seleto, tentarem promover a educação das massas globais. Elas vivem na esfera da emoção, autocentradas em existências minúsculas, com pouco ou nulo interesse para outrem. O mestre, de “magister”, é aquele que é mais, “magis”. O mestre revela, a cada um, a sua verdade. É, esta, portanto, uma relação peculiar, estabelecida entre muito poucos que, em tempos de luto e angustiada solidão, mutuamente se escolhem. Ao contrário do ministro, de “minister”, aquele que é menos, “minus”, o mestre não convoca as multidões para manter as ilusões sociais tidas por necessárias. O mestre é, pois, para os discípulos. O “logos” profanado, a palavra frívola, é, portanto, o patrimônio dos tagarelas. O vazio discursivo que a multidão congregada em torno do Nada produz mais não é do que éter, pintado com éter, no éter. Quando muito, da mole do pensamento único brotarão preocupações intestinas. O Espírito é, neles, um produto da perspectiva, jamais da problemática. Deus, o acidente, a vida, a morte têm, para a massa, o valor de um relógio roskoff. Na boca dessa maioria impante, diplomada mas profundamente inculta, tudo são lugares comuns de efeito ribombante. Nada os inquieta, nada os molesta. Vivem, como o mais torpe dos animais, o momento presente e nele se ejaculam com minúcias a que chamam… fé, poesia, ensaio, filosofia, até.

Na boca da maioria embezerrada, as mais belas flores não passam de obscenidades. A pós-modernidade, e seus “likes”, e seus ícones, e seus demiurgos, é, na verdade, o ocaso patético de uma época que se construiu com gente mínima, vulgar, materialista, tacanha. Tudo, neles, foi a conspiração animal para banalizar tudo. Tudo, neles, tem sido promiscuidade abjeta. Tudo, para os arrogantes protagonistas deste final de civilização, tem consistido na destruição, sistemática e planejada, daquilo que os humanistas exigentes e tolerantes tentámos construir.

A Tragédia do Lago Kopais

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Na Beócia, o Lago Kopais, era ladeado por terras férteis, mas foi invadido pelos terrenos circundantes devido à drenagem inadequada. O lago secou no século XIX. As terras foram alugadas à British Lake Kopais Company, entre 1867 e 1887. Em 1952, aquelas terras retornaram à posse da Grécia. A Agência do Lago Kopais foi criada em 1957. Ela tinha, como objetivo, orientar os agricultores da região a reorganizarem a exploração das terras na sequência daquela tragédia ecológica, construir uma estrada e drenar o lago. A tarefa foi concluída em menos de um ano, mas a Agência do Lago Kopais se manteve em funções até 2010. Tinha 30 funcionários, incluindo 1 motorista para o diretor da instituição. Ao longo dos seus cinquenta e três anos de existência, cinquenta e dois foram de absoluta inutilidade. A Agência do Lago Kopais assemelhou-se, portanto, a um relógio no qual a finalidade não tem função.

O Hospital Evangelismos, em Atenas, tem, na entrada das Urgências, separando o acesso à instituição da via pública, quatro arbustos mal cuidados. Nele, segundo a folha de salários do Hospital, trabalham quarenta e cinco jardineiros. Aqui, são muitos aqueles que dizem ali trabalhar, mas não marcam. Ao contrário da Agência do Lago Kopais, no Hospital Evangelismos o relógio funciona, mas não marca.

A Agência e o Hospital são, na verdade, exemplos aleatórios daquilo que, atualmente, a Grécia é. Um misto de desperdício e uma inadequação à realidade. Tudo isto associado ao delírio econômico-financeiro dos últimos anos. Eu poderia falar, aqui, nas filhas solteiras dos funcionários públicos falecidos, que recebem uma mensalidade de 1.000 Euros, ou, também, nas cabeleireiras que auferem, do Estado, um subsídio de risco, pago mensalmente. Eu poderia dizer, de tudo isto, que se trata de um país com direitos sociais muitíssimo ampliados, a par da ineficiência da gestão corrente. Tudo isso é válido e, no entanto, tudo isso pressupõe uma petição de princípio.

A Grécia, tal como Portugal, a Espanha e a Itália, são países que adotaram como seu o projeto do Euro, uma moeda fundada na Política e não na Economia. A moeda dos dezenove membros da Moeda Única Europeia serve a países com diferentes níveis de desenvoltura econômica, com diferente matriz produtiva e com díspares entendimentos do que é, e deve ser, sua inserção naquele que foi um projeto de weltanschauung  comum, a União Europeia. Com efeito, os países do Sul do continente – precisamente aqueles que, desde 2008, se encontram em apuros orçamentais – acreditaram ser seu destino o incremento substantivo do setor dos serviços, em detrimento do aparelho produtivo.

Acontece que a Europa foi, ao longo das civilizações, um construto cultural. Sob o ponto de vista político, até à União Europeia, todos os projetos da unidade no Velho Mundo tiveram um viés totalitário. Personalidades como Alexandre, o Grande, Carlos Magno, Carlos V, Napoleão Bonaparte e Adolf Hitler tiveram, em seus sonhos mais delirantes, a ideia de unir pela força um continente que se constituiu, ao longo do tempo, a partir da diversidade e de projetos de afirmação civilizacional muito diferenciados.

Santo João Paulo II enfatizou o fato de o Euro ser um projeto de paz. A História do pós II Guerra Mundial deu, até recentemente, razão àquele pensamento: a Europa vive o mais longo período de paz dos últimos quinhentos anos. Infelizmente, hoje em dia, o mundo, e não somente a Europa, deixaram de lado os devaneios poéticos da pós-modernidade. Todos nós, de maneira mais ou menos abrupta, voltámos à História e aos dramas inerentes à condição humana.

O que esperar, então, para os funcionários que fizeram a carreira profissional na Agência do Lago Kopais e para os jardineiros do Hospital Evangelismos?

A Grécia é, atualmente, uma herança pálida daquilo que foi a Magna Grécia. Platão e Aristóteles são ícones de um tempo que não é o de hoje e de uma cultura da qual nós temos uma percepção imperfeita. O grego clássico é, em relação ao grego atual, aquilo que, por exemplo, o latim é para o italiano. Por outro lado, o primeiro filósofo, Tales de Mileto, era filho da Anatôlia. Da atual Turquia, portanto, e não da Grécia que nós conhecemos.

Será legítimo, então, descartar a Grécia da Europa, tal como se descarta gente pobre e, sobretudo, sem dinheiro?

Esclareçamos um aspecto. O projeto da Moeda Única Europeia diz respeito a uma ideia de Europa que corresponde aos anseios de uma Mitteleuropa burocrática, velha, inoperante. Bruxelas, a sede da Comissão Europeia, e Estrasburgo, a sede do Parlamento Europeu, são torres de Babel onde, ante a crise da Economia mundial, quase todos brigam e quase nenhuns têm razão. A Grécia é Europa. Ela sê-lo-á enquanto, no mundo, houver homens e mulheres. Pelo contributo que esse país deu aos vindouros ela será, per omnia seculae saecolorum, a casa comum de nossos maiores. Neste sentido, tentar aniquilar a Grécia seria esbofetear Sócrates, seria profanar a memória imorredoira de Aristófanes.

E os jardineiros do Hospital Evangelismos? Eles estão perdidos. Aqueles que, na Europa, apostaram no Euro, essa ficção dos tempos recentes, também não têm futuro. Estão tão secos como o Lago Kopais. Estão acabados. A cada um deles nenhum barqueiro quererá transportar para as terras da morte, o Reino do Hades. De todos eles não ficará, para o porvir, memória.

Absolutamente Descartável

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J. M. de Barros Dias

O herói morreu. Morreu lento, o herói. Lá, na cama da enfermaria do hospital público, ele foi morrendo durante anos. Ele não morreu de um tiro ou na ponta de uma navalha. Não! Ele acabou entubado, depois de lhe cortarem bocados, já cego e inexistente para o mundo.

E, no entanto, nas batalhas, em mil perigos esforçados, o primeiro-sargento foi, até, mais do que humano. Para todos ele era, então, o exemplo a seguir. Os camaradas esperavam, coração tic-tac-tic-tac-tac que, numa daquelas madrugadas de ataques feéricos, ele se finasse dando o exemplo gentil no meio daquele abrasamento mundial.

Mas não foi assim. Todos foram partindo. Todos, um a um. Os amigos. As medalhas, para o penhor. Os jornais amarelados, para o lixo. As lembranças. A família muito amada também se foi. E, no leito em que o moribundo, finalmente, se apagou, nem honras, nem glórias.

Ali, somente as últimas contas por pagar. Os episódios bélicos que o velho tanto narrou com o melhor dos esmeros iam, finalmente, com ele para a cova funda, buraco de perdição. Talvez, um dia, os esqueletos estropiados dos companheiros de sangue o encontrassem, perdido, nas entranhas do reino do Hades.

A frase que tanto enchera o peito do herói,

– Viva a morte e trema a terra!

não mais seria escutada nos botecos de subúrbio onde o aposentado do chão de fábrica se arrastava. Tudo aquilo, gesto, retórica e patriotismo, eram coisas de outras eras. Agora, no tempo do Progresso e das Novidades, o passado era coisa descartável. Amanhã, outro mendigo, ou toxicodependente, ou mulher agredida, iram finar-se ali. Como animais que, durante décadas, se cuidaram para acabar no Açouge Municipal.