A Tragédia do Lago Kopais

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Na Beócia, o Lago Kopais, era ladeado por terras férteis, mas foi invadido pelos terrenos circundantes devido à drenagem inadequada. O lago secou no século XIX. As terras foram alugadas à British Lake Kopais Company, entre 1867 e 1887. Em 1952, aquelas terras retornaram à posse da Grécia. A Agência do Lago Kopais foi criada em 1957. Ela tinha, como objetivo, orientar os agricultores da região a reorganizarem a exploração das terras na sequência daquela tragédia ecológica, construir uma estrada e drenar o lago. A tarefa foi concluída em menos de um ano, mas a Agência do Lago Kopais se manteve em funções até 2010. Tinha 30 funcionários, incluindo 1 motorista para o diretor da instituição. Ao longo dos seus cinquenta e três anos de existência, cinquenta e dois foram de absoluta inutilidade. A Agência do Lago Kopais assemelhou-se, portanto, a um relógio no qual a finalidade não tem função.

O Hospital Evangelismos, em Atenas, tem, na entrada das Urgências, separando o acesso à instituição da via pública, quatro arbustos mal cuidados. Nele, segundo a folha de salários do Hospital, trabalham quarenta e cinco jardineiros. Aqui, são muitos aqueles que dizem ali trabalhar, mas não marcam. Ao contrário da Agência do Lago Kopais, no Hospital Evangelismos o relógio funciona, mas não marca.

A Agência e o Hospital são, na verdade, exemplos aleatórios daquilo que, atualmente, a Grécia é. Um misto de desperdício e uma inadequação à realidade. Tudo isto associado ao delírio econômico-financeiro dos últimos anos. Eu poderia falar, aqui, nas filhas solteiras dos funcionários públicos falecidos, que recebem uma mensalidade de 1.000 Euros, ou, também, nas cabeleireiras que auferem, do Estado, um subsídio de risco, pago mensalmente. Eu poderia dizer, de tudo isto, que se trata de um país com direitos sociais muitíssimo ampliados, a par da ineficiência da gestão corrente. Tudo isso é válido e, no entanto, tudo isso pressupõe uma petição de princípio.

A Grécia, tal como Portugal, a Espanha e a Itália, são países que adotaram como seu o projeto do Euro, uma moeda fundada na Política e não na Economia. A moeda dos dezenove membros da Moeda Única Europeia serve a países com diferentes níveis de desenvoltura econômica, com diferente matriz produtiva e com díspares entendimentos do que é, e deve ser, sua inserção naquele que foi um projeto de weltanschauung  comum, a União Europeia. Com efeito, os países do Sul do continente – precisamente aqueles que, desde 2008, se encontram em apuros orçamentais – acreditaram ser seu destino o incremento substantivo do setor dos serviços, em detrimento do aparelho produtivo.

Acontece que a Europa foi, ao longo das civilizações, um construto cultural. Sob o ponto de vista político, até à União Europeia, todos os projetos da unidade no Velho Mundo tiveram um viés totalitário. Personalidades como Alexandre, o Grande, Carlos Magno, Carlos V, Napoleão Bonaparte e Adolf Hitler tiveram, em seus sonhos mais delirantes, a ideia de unir pela força um continente que se constituiu, ao longo do tempo, a partir da diversidade e de projetos de afirmação civilizacional muito diferenciados.

Santo João Paulo II enfatizou o fato de o Euro ser um projeto de paz. A História do pós II Guerra Mundial deu, até recentemente, razão àquele pensamento: a Europa vive o mais longo período de paz dos últimos quinhentos anos. Infelizmente, hoje em dia, o mundo, e não somente a Europa, deixaram de lado os devaneios poéticos da pós-modernidade. Todos nós, de maneira mais ou menos abrupta, voltámos à História e aos dramas inerentes à condição humana.

O que esperar, então, para os funcionários que fizeram a carreira profissional na Agência do Lago Kopais e para os jardineiros do Hospital Evangelismos?

A Grécia é, atualmente, uma herança pálida daquilo que foi a Magna Grécia. Platão e Aristóteles são ícones de um tempo que não é o de hoje e de uma cultura da qual nós temos uma percepção imperfeita. O grego clássico é, em relação ao grego atual, aquilo que, por exemplo, o latim é para o italiano. Por outro lado, o primeiro filósofo, Tales de Mileto, era filho da Anatôlia. Da atual Turquia, portanto, e não da Grécia que nós conhecemos.

Será legítimo, então, descartar a Grécia da Europa, tal como se descarta gente pobre e, sobretudo, sem dinheiro?

Esclareçamos um aspecto. O projeto da Moeda Única Europeia diz respeito a uma ideia de Europa que corresponde aos anseios de uma Mitteleuropa burocrática, velha, inoperante. Bruxelas, a sede da Comissão Europeia, e Estrasburgo, a sede do Parlamento Europeu, são torres de Babel onde, ante a crise da Economia mundial, quase todos brigam e quase nenhuns têm razão. A Grécia é Europa. Ela sê-lo-á enquanto, no mundo, houver homens e mulheres. Pelo contributo que esse país deu aos vindouros ela será, per omnia seculae saecolorum, a casa comum de nossos maiores. Neste sentido, tentar aniquilar a Grécia seria esbofetear Sócrates, seria profanar a memória imorredoira de Aristófanes.

E os jardineiros do Hospital Evangelismos? Eles estão perdidos. Aqueles que, na Europa, apostaram no Euro, essa ficção dos tempos recentes, também não têm futuro. Estão tão secos como o Lago Kopais. Estão acabados. A cada um deles nenhum barqueiro quererá transportar para as terras da morte, o Reino do Hades. De todos eles não ficará, para o porvir, memória.

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