Logos Profanado

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“Frívolo”, explica o Minidicionário Soares Amora da Língua Portuguesa, é aquilo que “não tem importância; sem valor; fútil, leviano” (19.ª ed., 7.ª tiragem, 2010, pág. 330). Não é no sentido sexual que eu irei, aqui, abordar o sentido do conceito de frívolo em nossos dias.

Há algumas décadas atrás, os arautos da Teoria da Comunicação vaticinaram que, com o advento das novas tecnologias, o mundo iria entrar numa nova era, aquela em que todos e não unicamente os intelectuais, seriam os protagonistas do “logos”. Doravante, os cidadãos iriam ter a palavra fecundante no âmbito do processo civilizatório. No futuro, que se avizinhava ao virar da esquina, a empregada do supermercado e o cobrador do ônibus iriam discutir Immanuel Kant e propor soluções alternativas à Ética Global, de Hans Kung.

Não foi assim. A periferia da cultura, de mãos dadas com os órgãos de comunicação social do “mainstream” tomaram conta do discurso significativamente dominante. Em nossos dias, frases de autoria duvidosa compaginam a atualidade a par de aforismos espúrios deste ou daquele autor. Fernando Pessoa e Wisława Szymborska têm menos adeptos do que a Maria da Esquina e o Sérgio do Chopp. O relativismo ontológico das massas da pós-modernidade impôs, entre nós, a promiscuidade do “logos”. Com efeito, citações abusivas e fora de contexto servem para ilustrar a realidade puramente subjetiva de quem cumpre a existência com valores à deriva. Para a maioria de chumbo que determina a (in)fecundidade cultural do tempo presente tanto valor tem a expressão “uai” como a Propedêutica Filosófica, de Hegel; uma fábrica de sapatos tem, para eles, muito mais relevância do que o The Jerusalem Post, por exemplo.

O que fazer, então? De pouco serve, aos cultores do verbo seleto, tentarem promover a educação das massas globais. Elas vivem na esfera da emoção, autocentradas em existências minúsculas, com pouco ou nulo interesse para outrem. O mestre, de “magister”, é aquele que é mais, “magis”. O mestre revela, a cada um, a sua verdade. É, esta, portanto, uma relação peculiar, estabelecida entre muito poucos que, em tempos de luto e angustiada solidão, mutuamente se escolhem. Ao contrário do ministro, de “minister”, aquele que é menos, “minus”, o mestre não convoca as multidões para manter as ilusões sociais tidas por necessárias. O mestre é, pois, para os discípulos. O “logos” profanado, a palavra frívola, é, portanto, o patrimônio dos tagarelas. O vazio discursivo que a multidão congregada em torno do Nada produz mais não é do que éter, pintado com éter, no éter. Quando muito, da mole do pensamento único brotarão preocupações intestinas. O Espírito é, neles, um produto da perspectiva, jamais da problemática. Deus, o acidente, a vida, a morte têm, para a massa, o valor de um relógio roskoff. Na boca dessa maioria impante, diplomada mas profundamente inculta, tudo são lugares comuns de efeito ribombante. Nada os inquieta, nada os molesta. Vivem, como o mais torpe dos animais, o momento presente e nele se ejaculam com minúcias a que chamam… fé, poesia, ensaio, filosofia, até.

Na boca da maioria embezerrada, as mais belas flores não passam de obscenidades. A pós-modernidade, e seus “likes”, e seus ícones, e seus demiurgos, é, na verdade, o ocaso patético de uma época que se construiu com gente mínima, vulgar, materialista, tacanha. Tudo, neles, foi a conspiração animal para banalizar tudo. Tudo, neles, tem sido promiscuidade abjeta. Tudo, para os arrogantes protagonistas deste final de civilização, tem consistido na destruição, sistemática e planejada, daquilo que os humanistas exigentes e tolerantes tentámos construir.

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