O Tijucas não Existe

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J. M. de Barros Dias

Arlindo Pitocênico é meu vizinho no Edifício Tijucas. Vive, uns andares abaixo, num apartamento lotado por 4 gatos, uns quantos livros estrangeiros – tudo aquilo boas obras!, garante ele – e pilhas e pilhas de jornais já fedorentos.

Outro dia eu encontrei Pitocênico no Café da Boca Maldita. Abeirando-se, ele garantiu:

– O Tijucas não existe!

– Como assim, vizinho Arlindo?

– De acordo com minhas próprias pesquisas, alinhavadas de acordo com a Ciência Nova, tudo, exceto o mercado livre, é ilusão social, tida por necessária. Você acredita que vive no Tijucas porque suas ânsias de proteção assim o pedem. Na verdade, o prédio é uma roupa que você assumiu como sua e que veste, para se sentir confortável.

– Por Deus, amigo Pitocênico, aonde é que essa sua teoria o vai levar?, perguntei eu.

– Por Deus, coisa nenhuma. Deus, de acordo com os autores Beltrano e Cicrano, que eu li atentamente, não existe. Ele é como o Tijucas. Tudo isso não passa de enganação herdada dos colonizadores que para aqui vieram. Eles criaram em nossos avós a ideia de que nós temos a necessidade de um deus bom e protetor. Xavier Nepomuceno, outro clássico que eu venho consultando faz tempo, afirma isso com clareza.

– Ah!, sim…, exclamei eu, contrito em minha ignorância anti-metafísica.

Enquanto debicava seu café arábico, Pitocênico concluiu de modo severo:

– No ensaio que eu ando redigindo por estes dias, eu provo que a grande teoria de nossa era é o princípio de realidade, tal como a Teoria de TINA – There Is No Alternative – o expõe. É assim que os americanos, esse povo de gente culta, sagaz e livre, pensam. É nisto que eu acredito: o mercado, antes de tudo. A propriedade privada, antes do bem comum. Nós, vizinho Dias, estamos vivendo infinitas possibilidades nunca antes de nós concretizadas no mundo: estamos fruindo o mais esplendoroso período de paz dos últimos séculos; a pobreza está diminuindo a olhos vistos e a poluição, essa, está praticamente erradicada do planeta.

Colossal, este Pitocênico, concluí, enquanto esperava o elevador que me levaria até o apartamento, lá no 25.º andar do, segundo Arlindo, inexistente Edifício Tijucas. Tão colossal ele é que eu duvido mesmo se ele não será Kolossal. Assim, com um “K” gótico, com as quatro pontas germânicas impondo Ordem e Disciplina ao mundo das pessoas provisórias e caóticas como eu.

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