A Rejeição, Pelo Papa Francisco, de Um Mundo Povoado por Muros

Muro na Fronteira de Tijuana

J. M. de Barros Dias

O mundo que emergiu da crise financeira que despoletou em 2008 é, em suas traves-mestras, mais protecionista do que aquele em que vivemos ao longo das décadas anteriores. Se, recentemente, o jornal El Periódico inventariava em 80 a quantidade de muros construídos entre diferentes países do mundo, ao nível das mentalidades o panorama não é diferente. Neste sentido, a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, tem servido como catalizador de uma onda xenófoba que, ao longo das últimas décadas, não tem paralelo.

O papa Francisco, na audiência levada a cabo no dia 25 de fevereiro, na Sala dos Papas, do Vaticano, ao receber a Delegação Católica para a Cooperação, da Conferência Episcopal Francesa, por ocasião da peregrinação realizada com ensejo do cinquentenário de sua fundação, lançou um novo apelo para a construção de pontes “num mundo em que ainda se levantam numerosos muros por causa do medo do próximo”. Tendo presente a Igreja em saída[1], por si publicitada em diversas oportunidades, Francisco sublinhou a necessidade de uma Igreja Católica “que se torna próxima das pessoas em condições de sofrimento, de precariedade, de marginalização e de exclusão”. Centrado na Carta Encíclica Populorum Progressio, do beato Paulo VI, que preconiza que “o desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento econômico”, Francisco salientou que são os voluntários que tornam “visível uma Igreja pobre com e para os pobres, uma Igreja em saída, que se torna próxima das pessoas em condições de sofrimento, de precariedade, de marginalização e de exclusão”.

Encorajando os membros da Delegação Católica para a Cooperação a desenvolverem uma cultura da misericórdia, o Sumo Pontífice defendeu, a partir do exposto na Carta Apostólica Misericordia et Misera, o aprofundamento do encontro de cada um com os outros: “Uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos”, fazendo de cada um com quem depara, ao longo da vida, alguém intrinsecamente valioso e, portanto, digno da máxima consideração. Se, em estritos termos econômicos, para Francisco, a partir do Evangelho de São Marcos, “o sábado foi feito para o homem[2], e não o contrário, em termos amplos todos temos, ante nós, o seguinte desafio: “Proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projecto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado[3].

Cumpridos quatro anos de seu ministério petrino, o papa Francisco tem sido inequívoco em suas linhas de atuação. É a pessoa, não os mercados, o centro de suas preocupações; é o entendimento entre os diferentes povos e não o nacionalismo exacerbado – do qual decorre a III Guerra Mundial em fragmentos[4] – que serve de orientação ao sumo pontífice argentino. Apesar da oposição, no seio do próprio Vaticano, Francisco tem sido fiel à linha de rumo que traçou, logo em 2013, aquando da sua eleição. Ela diz respeito ao Encontro que os seres humanos devem estabelecer, entre si, e não aos muros criados, sobretudo, a partir da economia e da política, assumidos como ilusões sociais, tidas por necessárias.

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Imagem:

O muro na fronteira de Tijuana, México e San Diego. As cruzes representam os migrantes que morreram quando tentavam cruzar a fronteira. A torre de vigilância está em segundo plano.

(Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mexico%E2%80%93United_States_barrier#/media/File:Border_Wall_at_Tijuana_and_San_Diego_Border.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

Sendo uma das primeiras propostas do atual sumo pontífice, ela tem como ponto de partida o Livro do Gênesis: “Deixa o teu país, tua parentela e a casa de teu pai e vai para o país que te mostrarei” (Gn 12,1). Por outro lado, no Livro do Êxodo, Moisés escuta a chamada: “Vai! Eu te envio” (Ex 3,10), tendo dito aos profetas, como a Ezequiel, “Filho do homem, Eu te envio aos filhos de Israel” (Ez 2,3) e a Jeremias: “Irás onde eu te enviar” (Jr 1,7).

No âmbito do pontificado de Francisco, a Igreja em saída está presente, pela primeira vez, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.

Cf. FRANCISCO, Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho, 5.ª ed., São Paulo, Paulus Editora – Edições Loyola Jesuítas, 2915, trad. do italiano, § 20-23.

A versão online do documento, em português europeu, está disponível em:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html

[2] Ver:

Mc 2,27.

[3] Ver:

PAPA FRANCISCO, Carta Encíclica Laudato Si’ do Santo Padre Francisco sobre o Cuidado da Casa Comum, Vaticano, Libreria Editrice Tipografia Vaticana, 2015, 192 pp.

No Brasil, duas editoras deram a conhecer a Encíclica: PAPA FRANCISCO, Laudato Si’. Sobre o Cuidado da Casa Comum, São Paulo, Paulinas, 2015, trad. do italiano, 197 (3) págs.; FRANCISCO, Laudato Si’. Louvado Sejas. Sobre o Cuidado da Casa Comum, São Paulo, Paulus Editora – Edições Loyola Jesuítas, 2015, trad. do italiano, 142 pp.

A versão online do documento, em português europeu, está disponível em:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

[4] Ver:

O papa Francisco se referiu, até hoje, à III Guerra Mundial “fragmentada” nas seguintes ocasiões:

a) 18 de agosto de 2014, durante a viagem de regresso da Coreia do Sul.

Ver:

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2014/08/18/vivemos-a-3-guerra-mundial-diz-papa-francisco.htm

b) 13 de setembro de 2014, no Cemitério Militar de  Redipuglia, na Itália.

Ver:

http://www.bbc.com/news/world-europe-29190890

c) 6 de junho de 2015, durante a viagem apostólica a Sarajevo, capital da Federação da Bósnia e Herzegovina

Ver:

http://pt.euronews.com/2015/06/06/papa-francisco-evoca-especie-de-3-guerra-mundial/

d) 20 de setembro de 2015, no início da viagem apostólica a Cuba. 

Ver:

http://www.dn.pt/globo/interior/papa-pede-reconciliacao-nesta-atmosfera-de-terceira-guerra-mundial-que-vivemos-4787708.html

e) 27 de julho de 2016, declarações proferidas após o assassinato do padre Jacques Hamel, em Saint-Étienne-du-Rouvray, Normandia, norte de França, por dois insurgentes ligados ao Estado Islâmico.

Ver:

http://www.express.co.uk/news/world/693980/pope-world-war-France-church-terror-attack-priest

f) 7 de dezembro de 2017, entrevista ao jornal semanário belga Tertio.

Ver:

https://zenit.org/articles/popes-interview-with-belgian-weekly-newspaper-tertio/

g) 24 de fevereiro de 2017, no Seminário “O Direito Humano à Água: Um Estudo Interdisciplinar sobre o Papel Central das Políticas Públicas na Gestão da Água e dos Serviços Ambientais”.

Ver:

http://www.huffpostbrasil.com/2017/02/25/aqui-esta-o-motivo-que-pode-gerar-uma-terceira-guerra-mundial-s_a_21721574/

 

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