Consistório Aprova a Canonização dos Pastorinhos de Fátima

Três Pastorinhos

J. M. de Barros Dias

O papa Francisco convocou um Consistório Ordinário Público[1], realizado no Palácio Apostólico do Vaticano, em 20 de abril, no qual os cardeais secundaram a canonização de dois dos videntes de Fátima. De entre as cinco causas de canonização pendentes de aprovação pelos cardeais[2], a mais preeminente foi a de Francisco e Jacinta Marto, duas das três crianças que testemunharam, em 1917, as aparições marianas da Cova da Iria, paróquia de Fátima. A aprovação cardinalícia foi o passo final no processo que teve início em 1950 e que conduzirá à canonização dos pastorinhos portugueses. O papa canonizará os videntes no dia 13 de maio, durante a sua visita apostólica ao maior Santuário mariano da Europa, o Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, a realizar por ocasião do 100.º aniversário das aparições que ali tiveram lugar.

Se o milagre que levou à beatificação de Jacinta (1910-1920) e Francisco (1908-1919), atribuído à intercessão dos dois irmãos, foi reconhecido em 22 de junho de 1999[3], aquele que abriu o caminho para a canonização foi reconhecido em 23 de março passado. Ele diz respeito a uma criança brasileira, que, na época, tinha seis anos. Na altura, a criança brincava com a irmã, em casa do avô, “quando caiu por acidente de uma janela de cerca sete metros de altura, sofrendo um grave traumatismo crânio-encefálico, com a perda de material cerebral”. Em coma, a criança foi operada de emergência. Se sobrevivesse, ela “viveria em estado vegetativo ou, no máximo, com graves deficiências cognitivas”. Contudo, inexplicavelmente, “após três dias, a criança recebeu alta, não sendo constatado nenhum dano neurológico ou cognitivo”. Mais tarde, no dia “2 de fevereiro de 2007, uma equipe médica deu parecer positivo unânime sobre o caso, como ‘cura inexplicável do ponto de vista científico’”. De acordo com informações agora divulgadas pela Rádio Vaticano, “no momento do incidente, o pai da criança havia invocado Nossa Senhora de Fátima e os dois pequenos beatos. Na mesma noite, os familiares e uma comunidade de irmãs de clausura haviam rezado com insistência, pedindo a intercessão dos pastorzinhos de Fátima”.

Jacinta e Francisco, beatificados por São João Paulo II em 13 de maio de 2000, são os mais jovens não mártires da história da Igreja Católica a alcançar os altares mundiais. Os dois irmãos, juntamente com a prima, Lúcia dos Santos, pastores nos campos de Fátima, distrito de Leiria, testemunharam as aparições de Maria. Durante a primeira aparição, que ocorreu em 13 de maio de 1917, Nossa Senhora pediu às crianças para rezarem e fazerem sacrifícios, oferecendo-os pela conversão dos pecadores. Em outubro de 1918, Jacinta e Francisco ficaram gravemente doentes com Gripe Espanhola. Nossa Senhora apareceu-lhes, tendo afirmado que os levaria para o Céu brevemente. Francisco faleceu em 4 de abril de 1918 e Jacinta em 20 de fevereiro de 1920. A causa da canonização da terceira vidente de Fátima, Lúcia[4], que viveu até aos 97 anos, está atualmente em curso. O Vaticano encontra-se a examinar informações sobre a sua vida, que foram coletadas ao longo dos últimos oito anos, quando a causa foi oficialmente aberta.

Jacinta e Francisco se inserem num espaço simbólico que é muito superior ao território e à dimensão econômica do país em que nasceram, viveram e morreram. Para a Igreja Católica, eles passarão a integrar o grupo dos Beatos e Santos portugueses[5] que, juntamente com o legado do Papa João XXI e de um conjunto de místicos e teólogos no qual se destacam Santo António de Lisboa, Frei Álvaro Pais, o padre Teodoro de Almeida, Manuel do Cenáculo Vilas-Boas e frei Bernardo Vasconcelos, constituem modelos de valores e fontes de inspiração para cada fiel. A partir de sua canonização, as virtudes de Jacinta e Francisco, iluminantes desde Fátima, poema do mundo[6], serão exemplos para os católicos de todo o mundo.

——————–

Imagem:

Lúcia dos Santos com os seus primos Francisco e Jacinta Marto, os três pastorinhos de Fátima.

——————–

Fontes consultadas:

 [1] Ver:

“Cân. 353.

[…]. § 2. Para o consistório ordinário, são convocados todos os Cardeais, pelo menos os que se encontram em Roma, para consulta sobre algumas questões graves, de ocorrência mais frequente, ou para a celebração de atos muito solenes.”, AAVV (Notas, comentários e índice analítico pelo Pe. Jesús Hortal, SJ), Código de Direito Canônico, 22.ª ed. revista e ampliada, São Paulo, Edições Loyola Jesuítas, 2013, trad. do latim pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, p. 189.

[2] Ver:

Além das crianças de Fátima, as outras causas de canonização examinadas pelo Consistório foram as de Cristóbal, Antonio, e Juan, jovens mártires do México, em 1529; Fr. Faustino Míguez, o padre espanhol que fundou o Instituto Calasanziano das Filhas da Divina Pastora; Fr. Angelo da Acri, um padre capuchino italiano, pregador na Itália meridional, que morreu em outubro de 1739; Fr. Andrea de Soveral, Fr. Ambrogio Francesco Ferro, Matteo Moreira, e os seus 27 companheiros, mártires em Natal, Brasil, em 1645.

Cf. REDAÇÃO, “Consistory Announced to Approve Fatima Children’s Canonization”, Catholic News Agency, Denver, CO, 11 de abril de 2017.

Disponível online:

http://www.catholicnewsagency.com/news/consistory-announced-to-approve-fatima-childrens-canonization-56451/?platform=hootsuite

[3] Ver:

Depois de um exame minucioso de Maria Emília Santos, realizado em Roma sob a direção dos professores Machiarelli, Romanini e Santoro, foi reconhecida, por unanimidade, a cura desta mulher como inexplicável pela medicina, na reunião do Conselho médico da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos, presidida pelo professor Rafael Cortesini e realizada em 28 de janeiro de 1999. o caso foi seguidamente submetido a exame pelos consultores teológicos, em 7 de maio de 1999, e depois à opinião dos cardeais e bispos desta mesma Congregação, em sessão ordinária de 22 de junho de 1999, em ambos os casos com re[s]posta afirmativa sobre o fato de saber se se tratava de um milagre divino. Finalmente, o decreto da S. Congregação para a causa dos Santos, reconhecendo a cura de Maria Emília Santos como milagre de Deus obtido pela intercessão dos dois pastorinhos de Fátima, foi promulgado, por ordem do Santo Padre, em 28 de junho de 1999. Este decreto possibilitou a beatificação das duas crianças que, assim, vão tornar-se os bem-aventurados mais jovens da história moderna da Igreja. Este título pertencia anteriormente a São Domingos Sávio, que morreu pouco antes de fazer 15 anos.

[4] Ver:

Freira da Ordem das Carmelitas Descalças, conhecida como Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado e, popularmente, como Irmã Lúcia, Lúcia de Jesus dos Santos (1907-2005) escreveu um segredo de caráter profético, dividido em três partes, fruto das revelações feitas pela Virgem Maria. As duas primeiras partes – a visão do Inferno; a devoção ao Imaculado Coração de Maria e a conversão da Rússia – foram reveladas em 1941. No ano 2000 foi divulgada a terceira parte, que é uma visão profética, comparável às da Sagrada Escritura, que sintetiza e condensa sobre a mesma linha de fundo fatos que se prolongam no tempo, numa sucessão e duração não especificadas.

Vide P.e Luís Kondor (Compilação) & Joaquín M. Alonso (Introdução e notas), Memórias da Irmã Lúcia I, 13.ª ed., Fátima, Secretariado dos Pastorinhos, 2007, 238 pp.

Disponível online:

http://www.pastorinhos.com/_wp/wp-content/uploads/MemoriasI_pt1.pdf

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A Mensagem de Fátima.

Disponível online:

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html

[5] Ver:

a)Beatos:

Beata Sancha de Portugal; Beata Mafalda de Portugal e Beata Teresa de Portugal; Beato Frei Gil; Beato Amadeu da Silva; Beato Gonçalo de Amarante; Beato Gonçalo de Lagos; Beato Fernando, o Infante Santo; Beata Joana Princesa; Beato Vicente de Santo António; Beato João Baptista Machado; Beato Frei Bartolomeu dos Mártires; Beato Inácio de Azevedo e os Quarenta Mártires do Brasil; Beato Miguel de Carvalho; Beatos Domingos Jorge, Isabel Fernandes e Inácio Jorge; Beato Diogo de Carvalho; Beata Maria do Divino Coração Droste zu Vischering; Beata Rita Amada de Jesus; Beata Alexandrina Maria da Costa; Beata Beata Maria Clara do Menino Jesus; Beato Francisco Pacheco.

b)Santos:

São Teotónio; Santo António de Lisboa; os Mártires de Marrocos (Vital, Berardo, Otão, Pedro, Acúrsio e Adjuto); São Gualter; Rainha Santa Isabel; São Nuno de Santa Maria Álvares Pereira; Santa Beatriz da Silva; São João de Deus; São Gonçalo; São Lourenço de Brindisi; São João de Brito.

[6] Ver:

Cf. ANTÓNIO BOTTO, Fátima, nova edição, Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2008, 76 pp.

O Papa Francisco Ante a III Guerra Mundial em Fragmentos

Pope Francis

J. M. de Barros Dias

Se, no mundo em que vivemos, a dimensão dos direitos se sobrepôs à esfera dos deveres, outro tanto aconteceu com a tecnologia, que passou a dominar campos significativos da atuação humana. Por outro lado, o crescimento desenfreado da globalização substituiu, em boa medida, a noção de “fronteiras geográficas” por outra, nova em termos vivenciais. Nos referimos às  “fronteiras da segurança” que são, também, a expressão de um sistema mundial violento, inseguro e instável.

O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito papa em 2013, em circunstâncias inusitadas relativamente ao padrão dos últimos séculos. Já doente, em janeiro de 2000, às vésperas de cumprir 80 anos, São João Paulo II declarou indiretamente que não há papas aposentados[1], situação que seu sucessor, o papa Bento XVI, desmentiu, ao renunciar ao pontificado em 28 de fevereiro de 2013.

Em 18 de agosto de 2014, durante a viagem de regresso da Coreia do Sul, a caminho de Roma, Francisco referiu que estamos vivendo “a Terceira Guerra Mundial, mas em fragmentos”. Atualmente, disse ele, os conflitos armados atingem “um nível de crueldade espantoso”. Mostrando-se contrário aos bombardeamentos levados a cabo pelos Estados Unidos, para destruir rebeldes do Estado Islâmico, o sumo pontífice referiu: “Quando há uma agressão injusta, posso dizer que é lícito parar o agressor. Mas ressalto o verbo parar, porque isso não significa bombardear ou fazer uma guerra”. Tendo como pano de fundo para sua análise os conflitos em África, na Faixa de Gaza, na Península da Coreia, e as crises na Síria e no Iraque, o papa considerou que, hoje em dia, “a tortura se tornou quase um meio ordinário. Esses são os frutos da guerra. Estamos em guerra, há a Terceira Guerra Mundial, mas em fragmentos”.

Um mês mais tarde, em 13 de setembro, no Cemitério Austro-Húngaro de Fogliano di Redipuglia, na Itália, Francisco, para quem “a guerra é uma loucura”, evocou naquela oportunidade o início da I Guerra Mundial, em 1914, dizendo: “Hoje, depois do segundo fracasso de outra guerra mundial, talvez se possa falar de uma terceira guerra combatida ‘por partes’, com crimes, massacres, destruições…”. Durante a homilia celebrada no Monumento Militar de Redipuglia, o Papa referiu: “Aqui e no outro cemitério há muitas vítimas. E desde aqui recordamos as vítimas de todas as guerras. Também hoje há muitas vítimas. Como é que isto é possível. É possível porque também hoje, na sombra, há interesses, estratégias, geopolíticas, cobiça de dinheiro e de poder, e exista a indústria armamentista, que parece ser tão importante”.

No dia 6 de junho de 2015, durante a viagem apostólica à cidade mártir de Sarajevo, capital da Federação da Bósnia e Herzegovina, o papa Francisco, tendo presente a Guerra Civil que, entre 1992 e 1995, fez cem mil mortos, lançou um alerta: “No nosso tempo, a aspiração pela paz e o compromisso de a construir colidem com o facto dos numerosos conflitos armados existentes no mundo. É uma espécie de terceira guerra mundial travada ‘aos pedaços’; e, no contexto da comunicação global, sente-se um clima de guerra”. Em nossos dias, lembrou, “há quem queira deliberadamente criar e fomentar este clima, de modo particular aqueles que procuram o conflito entre culturas e civilizações diferentes e também quantos, para vender armas, especulam sobre as guerras. Mas a guerra significa crianças, mulheres e idosos nos campos de refugiados; significa deslocamentos forçados; significa casas, estradas, fábricas destruídas; significa sobretudo tantas vidas destroçadas”.

Na chegada a Cuba, em 20 de setembro de 2015, no Aeroporto José Martí, em Havana, o Papa, sublinhando que, “geograficamente, Cuba é um arquipélago que abre para todas as rotas, possuindo um valor extraordinário de ‘chave’ entre norte e sul, entre leste e oeste. A sua vocação natural é ser ponto de encontro para que todos os povos se reúnam na amizade”, enfatizou que “o mundo precisa de reconciliação, nesta atmosfera de III Guerra Mundial por etapas que estamos a viver”. Um ano mais tarde, em 27 de julho de 2016, o padre Jacques Hamel foi degolado, em Saint-Étienne-du-Rouvray, Normandia, norte de França, por dois insurgentes ligados ao Estado Islâmico, quando celebrava missa matinal. Comentando o ocorrido a bordo do avião que o conduzia a Kraków, Polônia, o líder da Igreja Católica afirmou: “A palavra que está sendo repetida frequentemente é insegurança, mas a palavra real é guerra.

 Vamos reconhecê-lo. O mundo está em estado de guerra em pedaços.

Agora há esta (guerra). Talvez não seja orgânica mas é organizada e é guerra.

Não devemos ter receio de falar esta verdade. O mundo está em guerra porque perdeu a paz”. Para o papa Francisco, “[esta] não é uma guerra da religião. Esta é uma guerra de interesses. Esta é uma guerra pelo dinheiro. Esta é uma Guerra pelos recursos naturais. Esta é uma guerra pela dominação dos povos. Isto é a guerra”. Em contrapartida, para o Vigário de Cristo, “todas as religiões querem paz. Outros querem guerra”.

Na entrevista a Francisco, publicada pelo semanário belga Tertio em 7 de dezembro de 2016, se referindo à proposta “nunca mais a guerra”, lemos as declarações do papa sobre o assunto: “Eu penso que ‘Nunca mais a guerra’ não foi levado a sério, porque depois da primeira Guerra a segunda veio e depois da segunda esta terceira guerra que agora estamos vivendo em pedaços, em pedacinhos. O mundo está empenhado na III Guerra Mundial: Ucrânia, Oriente Médio, Iémen…”. Deste modo, referiu o papa, isto “é muito sério. Então, ‘guerra nunca mais’ sai da boca mas, entretanto, nós manufaturamos armas, e vendêmo-las, e vendêmo-las a nossos adversários, porque o mesmo fabricante de armas as vende a este, e àquele, que está em guerra com o outro. Isto é verdade. Há uma teoria econômica, que eu nunca tentei verificar, mas sobre a qual eu li em diversos livros: na história da Humanidade, quando o Estado verificava que seus Balanços não estavam certos, criava a guerra e equilibrava seus balanços. Quer dizer, esta é uma das maneiras mais fáceis de criar riqueza. Claro que o preço é muito caro: sangue”.

Este ano, ao falar em 24 de fevereiro de 2017, no Seminário “O Direito Humano à Água: Um Estudo Interdisciplinar sobre o Papel Central das Políticas Públicas na Gestão da Água e dos Serviços Ambientais”, promovido pela Pontifícia Academia para as Ciências, o Papa centrou a problemática do acesso à água potável segura como a causa provável de um conflito bélico generalizado. Ele começou seu discurso afirmando que a água “é ‘criatura útil, pura e humilde’, fonte de vida e de fecundidade (cf. São Francisco de Assis, Cântico das Criaturas). Por este motivo, a questão que tratais não é marginal, mas fundamental e muito urgente. Fundamental porque onde há água há vida, e então a sociedade pode formar-se e progredir. E urgente porque a nossa casa comum tem necessidade de tutela e, além disso, que se compreenda que nem toda a água é vida: somente a água segura e de qualidade – prosseguindo com a figura de São Francisco: a água ‘que serve com humildade’, a água ‘pura’, não poluída”. Na Casina Pio IV, no Vaticano, onde teve lugar o evento, Francisco, que referiu o direito à água como determinante para a sobrevivência das pessoas[2], questionou “se, no meio desta ‘terceira guerra mundial em pedaços’, que hoje estamos a viver, não caminhamos porventura rumo à grande guerra mundial pela água”.

Se vivemos, atualmente, uma época repleta de possibilidades de comunicação interpessoal e de realização global, também é certo que as ameaças a todos nós são, cada vez, mais ameaçadoras. Regiões como a Coreia do Norte, o Mar do Sul da China, o subcontinente indiano, o Oriente Médio e a Ucrânia constituem a demonstração de que, hoje em dia, não há vontade significativa para o estabelecimento da distensão entre adversários que consolidaram suas posições antagônicas. O papa Francisco, que defende a promoção de uma cultura do encontro, tem se referido à III Guerra Mundial em fragmentos para denunciar a naturalização da guerra, defendida pelos pensadores e estrategistas de orientação realista, herdeiros teóricos de Carl Von Clausewitz: “A guerra é a continuação da política por outros meios”[3].

——————–

 Imagem:

Papa Francisco.

 –——————-

 Fontes consultadas:

 [1] Ver:

Em início do ano 2000, o então presidente da Conferência Episcopal da Alemanha, bispo Karl Lehmann, sugeriu que o papa, afetado pela doença de Parkinson, deixasse o cargo por motivos de saúde. Naquela ocasião, Vittorio Messori, um intelectual católico, numa entrevista concedida ao jornal La Stampa, declarou que “o papa ‘vive um drama há algum tempo’, pois se questiona se deve continuar guiando a Igreja ou se deve renunciar ao Pontificado”.

Respondendo implicitamente a Karl Lehmann e a Vittorio Messori, João Paulo II afirmou, no discurso proferido em 10 de janeiro de 2000, ante os membros do Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé: Deus “nunca pede algo acima das nossas forças. Ele mesmo nos dá a força para realizarmos o que espera de nós”.

[2] Ver:

Ao denunciar a exclusão de setores amplos da Humanidade no tocante ao acesso à água, o papa afirmou: “Os números que a Organização das Nações Unidas revelam são impressionantes e não nos podem deixar indiferentes: mil crianças morrem cada dia por causa de doenças ligadas à água; milhões de pessoas bebem água poluída. Trata-se de dados muito graves; é preciso impedir e inverter esta situação. Ainda não é tarde, mas é urgente que nos tornemos conscientes da necessidade da água e do seu valor essencial para o bem da humanidade.

[3] Ver:

CARL VON CLAUSEWITZ (Ensaios introdutórios de Peter Paret, Michael Howard e Bernard Brodie, com um comentário de Bernard Brodie), Da Guerra, trad. para o inglês por Michael Howard e Peter Paret – trad. do inglês para o português por Luiz Carlos Nascimento e Silva do Vale, pp. 70, 91 e 764.

Disponível online:

https://www.egn.mar.mil.br/arquivos/cepe/DAGUERRA.pdf

 

A Ligação de Tareck El Aissami, Vice-Presidente da Venezuela, ao Hezbollah

Tareck El Aissami

Marli Barros Dias

O vice-presidente da Venezuela, Tareck El Aissami, é um membro do regime chavista que ascendeu rapidamente ao poder e que, hoje, é suspeito de ligação com o Hezbollah – grupo insurgente libanês. Aos 42 anos, o político venezuelano de origem síria já assumiu vários cargos. Aos 29 anos ele foi chefe da Missão Identidade, o organismo responsável por emitir o cartão de identidade dos venezuelanos, depois elegeu-se Deputado, tornou-se vice-ministro da Segurança Cidadã e, logo em seguida, ministro do Interior e da Justiça, cargo que exerceu entre os anos de 2008 e 2012. Em janeiro deste ano foi nomeado vice-presidente da Venezuela, por Nicolás Maduro. Apesar de El Aissami ser considerado o chavista mais repudiado pela oposição, ele é um caso de sucesso na vida pública, mas atualmente está sendo confrontado com acusações que o associam ao terrorismo internacional, sendo considerado o principal elo de ligação ao Hezbollah na América Latina. Segundo estudos, há uma rede financeira entre o chavismo e o extremismo islâmico e o vice-presidente venezuelano encontra-se relacionado com este episódio.

Há informações que asseguram que o vínculo com o Hezbollah é facilitado pela origem da família de El Aissami. O fato de ser filho de imigrantes da Síria, tendo o pai e o tio de El Aissami trabalhado para o Partido Ba’ath sírio, tem favorecido as relações entre a Venezuela, o Irã e o país de seus antepassados. Os críticos do vice-presidente venezuelano atribuem-lhe a responsabilidade por uma vasta rede política que transformou o país num “centro internacional de drogas e a base do terrorismo islamita na América Latina”. Um estudo realizado pelo Centro para uma Sociedade Livre e Segura (SFS) confirma que aproximadamente 173 pessoas, originárias do Oriente Médio, foram identificadas portando passaportes e documentos de identidade venezuelana. Os dados recolhidos pela SFS apontam que a Venezuela se transformou em trampolim para os indivíduos ligados aos insurgentes do Hezbollah entrarem nos EUA. O diretor executivo da SFS, Joseph Humire, afirmou que “os indivíduos eram do Irã, do Iraque, da Síria, da Jordânia e do Líbano. Mas, a maioria era do Irã, do Líbano e da Síria. Setenta por cento vieram desses países e tinham algum tipo de vínculo com o Hezbollah”. Neste contexto, vale ressaltar que o passaporte venezuelano é aceite sem visto em mais de 130 países, compreendendo 26 países da União Europeia, o que facilita a circulação por diferentes partes do mundo por estas pessoas.

Outro ator que aparece como elemento fundamental para a manutenção da rede entre o narcotráfico e o terrorismo islâmico é Cuba. O ex-assessor de Segurança da Venezuela, que fez parte do processo de modernização do sistema de identidade daquele país, Anthony Daquin, declarou que o Governo de Raul Castro é o responsável por “gerenciar os sistemas de documentação da Venezuela”. Conforme explicou Daquin, tudo é feito sem nenhum problema uma vez que os cubanos possuem equipamentos eficazes, “incluindo folhas de policarbonato, assinatura eletrônica que entra em passaportes e certificados, criptografia, que são aqueles que permitem o chip poder ser lido nos aeroportos”. A trama com o Hezbollah, envolvendo El Aissami, não está restrita aos territórios venezuelano e cubano mas, também, à Argentina. Neste sentido, cabe ressaltar o assassinato do promotor argentino, Natalio Alberto Nisman, em 2015, no decurso das investigações sobre o atentado terrorista contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), ocorrido em 1994. Durante o processo investigatório, Nisman apurou as conexões entre os radicais islâmicos estabelecidos na Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai) com a Argentina e o Irã, o que levantou a suspeita de a sua morte estar associada ao caso em que ele vinha trabalhando. A morte de Nisman ainda não foi totalmente esclarecida. No entanto, há informações de que um acordo foi estabelecido entre a Venezuela e o Irã estando El Aissami como um dos principais operadores que fez o “elo entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o Hezbollah”.

Os acontecimentos demonstram a abrangência da aliança entre os membros do Governo chavista com integrantes do Hezbollah e com o Irã. A revista Veja denunciou, em março de 2015, o fato de o adido comercial da Embaixada da Venezuela em Damasco, o libanês Ghazi Nasr al-Din, que posteriormente entrou para a lista do FBI, como sendo o “preposto de El Aissami” e o responsável pela emissão de passaportes venezuelanos para “encobrir a identidade de terroristas que viajavam pelo mundo” de entre os quais se inclui o clérigo iraniano Moshen Rabbani, apontado por Nisman como sendo o responsável por levar a cabo o atentado contra a AMIA. Rabbani, em posse desse passaporte, viajou “pelo menos três vezes” ao Brasil. Todos os fatos convergem para uma teia do narcotráfico e do terrorismo islamita radical consolidada a partir da Venezuela, durante o mandato de Hugo Chávez e que chega à atualidade com vigor, na medida em que todos os indícios confluem para o endosso do vice-presidente da Venezuela, que é o sucessor mais próximo à Presidência da República daquele país.

——————–

Imagem:

Tareck El Aissami.