O Papa Francisco Ante a III Guerra Mundial em Fragmentos

Pope Francis

J. M. de Barros Dias

Se, no mundo em que vivemos, a dimensão dos direitos se sobrepôs à esfera dos deveres, outro tanto aconteceu com a tecnologia, que passou a dominar campos significativos da atuação humana. Por outro lado, o crescimento desenfreado da globalização substituiu, em boa medida, a noção de “fronteiras geográficas” por outra, nova em termos vivenciais. Nos referimos às  “fronteiras da segurança” que são, também, a expressão de um sistema mundial violento, inseguro e instável.

O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito papa em 2013, em circunstâncias inusitadas relativamente ao padrão dos últimos séculos. Já doente, em janeiro de 2000, às vésperas de cumprir 80 anos, São João Paulo II declarou indiretamente que não há papas aposentados[1], situação que seu sucessor, o papa Bento XVI, desmentiu, ao renunciar ao pontificado em 28 de fevereiro de 2013.

Em 18 de agosto de 2014, durante a viagem de regresso da Coreia do Sul, a caminho de Roma, Francisco referiu que estamos vivendo “a Terceira Guerra Mundial, mas em fragmentos”. Atualmente, disse ele, os conflitos armados atingem “um nível de crueldade espantoso”. Mostrando-se contrário aos bombardeamentos levados a cabo pelos Estados Unidos, para destruir rebeldes do Estado Islâmico, o sumo pontífice referiu: “Quando há uma agressão injusta, posso dizer que é lícito parar o agressor. Mas ressalto o verbo parar, porque isso não significa bombardear ou fazer uma guerra”. Tendo como pano de fundo para sua análise os conflitos em África, na Faixa de Gaza, na Península da Coreia, e as crises na Síria e no Iraque, o papa considerou que, hoje em dia, “a tortura se tornou quase um meio ordinário. Esses são os frutos da guerra. Estamos em guerra, há a Terceira Guerra Mundial, mas em fragmentos”.

Um mês mais tarde, em 13 de setembro, no Cemitério Austro-Húngaro de Fogliano di Redipuglia, na Itália, Francisco, para quem “a guerra é uma loucura”, evocou naquela oportunidade o início da I Guerra Mundial, em 1914, dizendo: “Hoje, depois do segundo fracasso de outra guerra mundial, talvez se possa falar de uma terceira guerra combatida ‘por partes’, com crimes, massacres, destruições…”. Durante a homilia celebrada no Monumento Militar de Redipuglia, o Papa referiu: “Aqui e no outro cemitério há muitas vítimas. E desde aqui recordamos as vítimas de todas as guerras. Também hoje há muitas vítimas. Como é que isto é possível. É possível porque também hoje, na sombra, há interesses, estratégias, geopolíticas, cobiça de dinheiro e de poder, e exista a indústria armamentista, que parece ser tão importante”.

No dia 6 de junho de 2015, durante a viagem apostólica à cidade mártir de Sarajevo, capital da Federação da Bósnia e Herzegovina, o papa Francisco, tendo presente a Guerra Civil que, entre 1992 e 1995, fez cem mil mortos, lançou um alerta: “No nosso tempo, a aspiração pela paz e o compromisso de a construir colidem com o facto dos numerosos conflitos armados existentes no mundo. É uma espécie de terceira guerra mundial travada ‘aos pedaços’; e, no contexto da comunicação global, sente-se um clima de guerra”. Em nossos dias, lembrou, “há quem queira deliberadamente criar e fomentar este clima, de modo particular aqueles que procuram o conflito entre culturas e civilizações diferentes e também quantos, para vender armas, especulam sobre as guerras. Mas a guerra significa crianças, mulheres e idosos nos campos de refugiados; significa deslocamentos forçados; significa casas, estradas, fábricas destruídas; significa sobretudo tantas vidas destroçadas”.

Na chegada a Cuba, em 20 de setembro de 2015, no Aeroporto José Martí, em Havana, o Papa, sublinhando que, “geograficamente, Cuba é um arquipélago que abre para todas as rotas, possuindo um valor extraordinário de ‘chave’ entre norte e sul, entre leste e oeste. A sua vocação natural é ser ponto de encontro para que todos os povos se reúnam na amizade”, enfatizou que “o mundo precisa de reconciliação, nesta atmosfera de III Guerra Mundial por etapas que estamos a viver”. Um ano mais tarde, em 27 de julho de 2016, o padre Jacques Hamel foi degolado, em Saint-Étienne-du-Rouvray, Normandia, norte de França, por dois insurgentes ligados ao Estado Islâmico, quando celebrava missa matinal. Comentando o ocorrido a bordo do avião que o conduzia a Kraków, Polônia, o líder da Igreja Católica afirmou: “A palavra que está sendo repetida frequentemente é insegurança, mas a palavra real é guerra.

 Vamos reconhecê-lo. O mundo está em estado de guerra em pedaços.

Agora há esta (guerra). Talvez não seja orgânica mas é organizada e é guerra.

Não devemos ter receio de falar esta verdade. O mundo está em guerra porque perdeu a paz”. Para o papa Francisco, “[esta] não é uma guerra da religião. Esta é uma guerra de interesses. Esta é uma guerra pelo dinheiro. Esta é uma Guerra pelos recursos naturais. Esta é uma guerra pela dominação dos povos. Isto é a guerra”. Em contrapartida, para o Vigário de Cristo, “todas as religiões querem paz. Outros querem guerra”.

Na entrevista a Francisco, publicada pelo semanário belga Tertio em 7 de dezembro de 2016, se referindo à proposta “nunca mais a guerra”, lemos as declarações do papa sobre o assunto: “Eu penso que ‘Nunca mais a guerra’ não foi levado a sério, porque depois da primeira Guerra a segunda veio e depois da segunda esta terceira guerra que agora estamos vivendo em pedaços, em pedacinhos. O mundo está empenhado na III Guerra Mundial: Ucrânia, Oriente Médio, Iémen…”. Deste modo, referiu o papa, isto “é muito sério. Então, ‘guerra nunca mais’ sai da boca mas, entretanto, nós manufaturamos armas, e vendêmo-las, e vendêmo-las a nossos adversários, porque o mesmo fabricante de armas as vende a este, e àquele, que está em guerra com o outro. Isto é verdade. Há uma teoria econômica, que eu nunca tentei verificar, mas sobre a qual eu li em diversos livros: na história da Humanidade, quando o Estado verificava que seus Balanços não estavam certos, criava a guerra e equilibrava seus balanços. Quer dizer, esta é uma das maneiras mais fáceis de criar riqueza. Claro que o preço é muito caro: sangue”.

Este ano, ao falar em 24 de fevereiro de 2017, no Seminário “O Direito Humano à Água: Um Estudo Interdisciplinar sobre o Papel Central das Políticas Públicas na Gestão da Água e dos Serviços Ambientais”, promovido pela Pontifícia Academia para as Ciências, o Papa centrou a problemática do acesso à água potável segura como a causa provável de um conflito bélico generalizado. Ele começou seu discurso afirmando que a água “é ‘criatura útil, pura e humilde’, fonte de vida e de fecundidade (cf. São Francisco de Assis, Cântico das Criaturas). Por este motivo, a questão que tratais não é marginal, mas fundamental e muito urgente. Fundamental porque onde há água há vida, e então a sociedade pode formar-se e progredir. E urgente porque a nossa casa comum tem necessidade de tutela e, além disso, que se compreenda que nem toda a água é vida: somente a água segura e de qualidade – prosseguindo com a figura de São Francisco: a água ‘que serve com humildade’, a água ‘pura’, não poluída”. Na Casina Pio IV, no Vaticano, onde teve lugar o evento, Francisco, que referiu o direito à água como determinante para a sobrevivência das pessoas[2], questionou “se, no meio desta ‘terceira guerra mundial em pedaços’, que hoje estamos a viver, não caminhamos porventura rumo à grande guerra mundial pela água”.

Se vivemos, atualmente, uma época repleta de possibilidades de comunicação interpessoal e de realização global, também é certo que as ameaças a todos nós são, cada vez, mais ameaçadoras. Regiões como a Coreia do Norte, o Mar do Sul da China, o subcontinente indiano, o Oriente Médio e a Ucrânia constituem a demonstração de que, hoje em dia, não há vontade significativa para o estabelecimento da distensão entre adversários que consolidaram suas posições antagônicas. O papa Francisco, que defende a promoção de uma cultura do encontro, tem se referido à III Guerra Mundial em fragmentos para denunciar a naturalização da guerra, defendida pelos pensadores e estrategistas de orientação realista, herdeiros teóricos de Carl Von Clausewitz: “A guerra é a continuação da política por outros meios”[3].

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 Imagem:

Papa Francisco.

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 Fontes consultadas:

 [1] Ver:

Em início do ano 2000, o então presidente da Conferência Episcopal da Alemanha, bispo Karl Lehmann, sugeriu que o papa, afetado pela doença de Parkinson, deixasse o cargo por motivos de saúde. Naquela ocasião, Vittorio Messori, um intelectual católico, numa entrevista concedida ao jornal La Stampa, declarou que “o papa ‘vive um drama há algum tempo’, pois se questiona se deve continuar guiando a Igreja ou se deve renunciar ao Pontificado”.

Respondendo implicitamente a Karl Lehmann e a Vittorio Messori, João Paulo II afirmou, no discurso proferido em 10 de janeiro de 2000, ante os membros do Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé: Deus “nunca pede algo acima das nossas forças. Ele mesmo nos dá a força para realizarmos o que espera de nós”.

[2] Ver:

Ao denunciar a exclusão de setores amplos da Humanidade no tocante ao acesso à água, o papa afirmou: “Os números que a Organização das Nações Unidas revelam são impressionantes e não nos podem deixar indiferentes: mil crianças morrem cada dia por causa de doenças ligadas à água; milhões de pessoas bebem água poluída. Trata-se de dados muito graves; é preciso impedir e inverter esta situação. Ainda não é tarde, mas é urgente que nos tornemos conscientes da necessidade da água e do seu valor essencial para o bem da humanidade.

[3] Ver:

CARL VON CLAUSEWITZ (Ensaios introdutórios de Peter Paret, Michael Howard e Bernard Brodie, com um comentário de Bernard Brodie), Da Guerra, trad. para o inglês por Michael Howard e Peter Paret – trad. do inglês para o português por Luiz Carlos Nascimento e Silva do Vale, pp. 70, 91 e 764.

Disponível online:

https://www.egn.mar.mil.br/arquivos/cepe/DAGUERRA.pdf

 

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