Consistório Aprova a Canonização dos Pastorinhos de Fátima

Três Pastorinhos

J. M. de Barros Dias

O papa Francisco convocou um Consistório Ordinário Público[1], realizado no Palácio Apostólico do Vaticano, em 20 de abril, no qual os cardeais secundaram a canonização de dois dos videntes de Fátima. De entre as cinco causas de canonização pendentes de aprovação pelos cardeais[2], a mais preeminente foi a de Francisco e Jacinta Marto, duas das três crianças que testemunharam, em 1917, as aparições marianas da Cova da Iria, paróquia de Fátima. A aprovação cardinalícia foi o passo final no processo que teve início em 1950 e que conduzirá à canonização dos pastorinhos portugueses. O papa canonizará os videntes no dia 13 de maio, durante a sua visita apostólica ao maior Santuário mariano da Europa, o Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, a realizar por ocasião do 100.º aniversário das aparições que ali tiveram lugar.

Se o milagre que levou à beatificação de Jacinta (1910-1920) e Francisco (1908-1919), atribuído à intercessão dos dois irmãos, foi reconhecido em 22 de junho de 1999[3], aquele que abriu o caminho para a canonização foi reconhecido em 23 de março passado. Ele diz respeito a uma criança brasileira, que, na época, tinha seis anos. Na altura, a criança brincava com a irmã, em casa do avô, “quando caiu por acidente de uma janela de cerca sete metros de altura, sofrendo um grave traumatismo crânio-encefálico, com a perda de material cerebral”. Em coma, a criança foi operada de emergência. Se sobrevivesse, ela “viveria em estado vegetativo ou, no máximo, com graves deficiências cognitivas”. Contudo, inexplicavelmente, “após três dias, a criança recebeu alta, não sendo constatado nenhum dano neurológico ou cognitivo”. Mais tarde, no dia “2 de fevereiro de 2007, uma equipe médica deu parecer positivo unânime sobre o caso, como ‘cura inexplicável do ponto de vista científico’”. De acordo com informações agora divulgadas pela Rádio Vaticano, “no momento do incidente, o pai da criança havia invocado Nossa Senhora de Fátima e os dois pequenos beatos. Na mesma noite, os familiares e uma comunidade de irmãs de clausura haviam rezado com insistência, pedindo a intercessão dos pastorzinhos de Fátima”.

Jacinta e Francisco, beatificados por São João Paulo II em 13 de maio de 2000, são os mais jovens não mártires da história da Igreja Católica a alcançar os altares mundiais. Os dois irmãos, juntamente com a prima, Lúcia dos Santos, pastores nos campos de Fátima, distrito de Leiria, testemunharam as aparições de Maria. Durante a primeira aparição, que ocorreu em 13 de maio de 1917, Nossa Senhora pediu às crianças para rezarem e fazerem sacrifícios, oferecendo-os pela conversão dos pecadores. Em outubro de 1918, Jacinta e Francisco ficaram gravemente doentes com Gripe Espanhola. Nossa Senhora apareceu-lhes, tendo afirmado que os levaria para o Céu brevemente. Francisco faleceu em 4 de abril de 1918 e Jacinta em 20 de fevereiro de 1920. A causa da canonização da terceira vidente de Fátima, Lúcia[4], que viveu até aos 97 anos, está atualmente em curso. O Vaticano encontra-se a examinar informações sobre a sua vida, que foram coletadas ao longo dos últimos oito anos, quando a causa foi oficialmente aberta.

Jacinta e Francisco se inserem num espaço simbólico que é muito superior ao território e à dimensão econômica do país em que nasceram, viveram e morreram. Para a Igreja Católica, eles passarão a integrar o grupo dos Beatos e Santos portugueses[5] que, juntamente com o legado do Papa João XXI e de um conjunto de místicos e teólogos no qual se destacam Santo António de Lisboa, Frei Álvaro Pais, o padre Teodoro de Almeida, Manuel do Cenáculo Vilas-Boas e frei Bernardo Vasconcelos, constituem modelos de valores e fontes de inspiração para cada fiel. A partir de sua canonização, as virtudes de Jacinta e Francisco, iluminantes desde Fátima, poema do mundo[6], serão exemplos para os católicos de todo o mundo.

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Imagem:

Lúcia dos Santos com os seus primos Francisco e Jacinta Marto, os três pastorinhos de Fátima.

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Fontes consultadas:

 [1] Ver:

“Cân. 353.

[…]. § 2. Para o consistório ordinário, são convocados todos os Cardeais, pelo menos os que se encontram em Roma, para consulta sobre algumas questões graves, de ocorrência mais frequente, ou para a celebração de atos muito solenes.”, AAVV (Notas, comentários e índice analítico pelo Pe. Jesús Hortal, SJ), Código de Direito Canônico, 22.ª ed. revista e ampliada, São Paulo, Edições Loyola Jesuítas, 2013, trad. do latim pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, p. 189.

[2] Ver:

Além das crianças de Fátima, as outras causas de canonização examinadas pelo Consistório foram as de Cristóbal, Antonio, e Juan, jovens mártires do México, em 1529; Fr. Faustino Míguez, o padre espanhol que fundou o Instituto Calasanziano das Filhas da Divina Pastora; Fr. Angelo da Acri, um padre capuchino italiano, pregador na Itália meridional, que morreu em outubro de 1739; Fr. Andrea de Soveral, Fr. Ambrogio Francesco Ferro, Matteo Moreira, e os seus 27 companheiros, mártires em Natal, Brasil, em 1645.

Cf. REDAÇÃO, “Consistory Announced to Approve Fatima Children’s Canonization”, Catholic News Agency, Denver, CO, 11 de abril de 2017.

Disponível online:

http://www.catholicnewsagency.com/news/consistory-announced-to-approve-fatima-childrens-canonization-56451/?platform=hootsuite

[3] Ver:

Depois de um exame minucioso de Maria Emília Santos, realizado em Roma sob a direção dos professores Machiarelli, Romanini e Santoro, foi reconhecida, por unanimidade, a cura desta mulher como inexplicável pela medicina, na reunião do Conselho médico da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos, presidida pelo professor Rafael Cortesini e realizada em 28 de janeiro de 1999. o caso foi seguidamente submetido a exame pelos consultores teológicos, em 7 de maio de 1999, e depois à opinião dos cardeais e bispos desta mesma Congregação, em sessão ordinária de 22 de junho de 1999, em ambos os casos com re[s]posta afirmativa sobre o fato de saber se se tratava de um milagre divino. Finalmente, o decreto da S. Congregação para a causa dos Santos, reconhecendo a cura de Maria Emília Santos como milagre de Deus obtido pela intercessão dos dois pastorinhos de Fátima, foi promulgado, por ordem do Santo Padre, em 28 de junho de 1999. Este decreto possibilitou a beatificação das duas crianças que, assim, vão tornar-se os bem-aventurados mais jovens da história moderna da Igreja. Este título pertencia anteriormente a São Domingos Sávio, que morreu pouco antes de fazer 15 anos.

[4] Ver:

Freira da Ordem das Carmelitas Descalças, conhecida como Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado e, popularmente, como Irmã Lúcia, Lúcia de Jesus dos Santos (1907-2005) escreveu um segredo de caráter profético, dividido em três partes, fruto das revelações feitas pela Virgem Maria. As duas primeiras partes – a visão do Inferno; a devoção ao Imaculado Coração de Maria e a conversão da Rússia – foram reveladas em 1941. No ano 2000 foi divulgada a terceira parte, que é uma visão profética, comparável às da Sagrada Escritura, que sintetiza e condensa sobre a mesma linha de fundo fatos que se prolongam no tempo, numa sucessão e duração não especificadas.

Vide P.e Luís Kondor (Compilação) & Joaquín M. Alonso (Introdução e notas), Memórias da Irmã Lúcia I, 13.ª ed., Fátima, Secretariado dos Pastorinhos, 2007, 238 pp.

Disponível online:

http://www.pastorinhos.com/_wp/wp-content/uploads/MemoriasI_pt1.pdf

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A Mensagem de Fátima.

Disponível online:

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html

[5] Ver:

a)Beatos:

Beata Sancha de Portugal; Beata Mafalda de Portugal e Beata Teresa de Portugal; Beato Frei Gil; Beato Amadeu da Silva; Beato Gonçalo de Amarante; Beato Gonçalo de Lagos; Beato Fernando, o Infante Santo; Beata Joana Princesa; Beato Vicente de Santo António; Beato João Baptista Machado; Beato Frei Bartolomeu dos Mártires; Beato Inácio de Azevedo e os Quarenta Mártires do Brasil; Beato Miguel de Carvalho; Beatos Domingos Jorge, Isabel Fernandes e Inácio Jorge; Beato Diogo de Carvalho; Beata Maria do Divino Coração Droste zu Vischering; Beata Rita Amada de Jesus; Beata Alexandrina Maria da Costa; Beata Beata Maria Clara do Menino Jesus; Beato Francisco Pacheco.

b)Santos:

São Teotónio; Santo António de Lisboa; os Mártires de Marrocos (Vital, Berardo, Otão, Pedro, Acúrsio e Adjuto); São Gualter; Rainha Santa Isabel; São Nuno de Santa Maria Álvares Pereira; Santa Beatriz da Silva; São João de Deus; São Gonçalo; São Lourenço de Brindisi; São João de Brito.

[6] Ver:

Cf. ANTÓNIO BOTTO, Fátima, nova edição, Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2008, 76 pp.

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