O Descaso e a Omissão dos Poderes Públicos na Rebelião Prisional de Manaus

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Marli Barros Dias

O primeiro dia do ano de 2017 registrou mais um episódio triste na História recente do Brasil. A rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (COMPAJ)[1], em Manaus, que deixou 56 detentos mortos[2], contribuiu para aumentar a estatística da violência no país. O motim, que começou na tarde daquele domingo, tomou proporções imensas, não tendo as Forças de Segurança do Estado do Amazonas conseguido desmantelar a organização dos amotinados que se mantiveram ativos por mais de 17 horas. De acordo com informações, a revolta foi motivada por “uma briga interna” entre duas facções rivais, a Família do Norte (FDN) e o PCC. Neste contexto, de acordo com analistas, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), aliado da FDN, são os responsáveis pelo levante no COMPAJ. Os enfrentamentos entre os dois grupos criminosos brasileiros tiveram início em junho de 2016, pela “disputa da fronteira entre Mato Grosso do Sul e Paraguai”, o principal acesso de entrada de drogas no país. Quando, em 15 de junho do ano passado, o narcotraficante Jorge Rafaat Toumani foi assassinado na cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, na fronteira com o Mato Grosso do Sul, o PCC foi responsabilizado pela ação. Em meados de outubro começou o acerto de contas entre as facções inimigas nos presídios, sobretudo, no norte do Brasil.

A briga entre grupos adversários, que levou à conflagração no COMPAJ, não se trata de um caso isolado ou atual, mas recorrente no Brasil. Recorde-se que, em 1992, a rixa entre grupos de detentos deu origem à rebelião que culminou no massacre do Carandiru, em São Paulo, pelas forças policiais. Os conflitos entre grupos oponentes nas prisões no Brasil, ao longo dos anos, têm provocado a prática da violência com alto grau de crueldade. A ausência de medidas socioeducativas eficientes e a desarticulação das atividades criminosas, por parte do poder público, associadas à superlotação dos presídios, tem beneficiado a criação de um poder paralelo nas penitenciárias brasileiras que, há algum tempo, tomaram uma dimensão transnacional. Documentos da Polícia Federal apontam, por exemplo, a ligação do PCC com o Hezbollah, grupo insurgente libanês que estabeleceu um acordo com a facção criminosa brasileira comprometendo-se a fornecer armas e explosivos em troca de proteção dos libaneses detidos nos presídios brasileiros. O trágico acontecimento deste início de ano, em Manaus, revela a ampliação da rede de conexão entre as facções criminosas nacionais e internacionais. Segundo o Ministério Público Federal, os líderes da rebelião no COMPAJ têm estreita relação com as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Conforme estes documentos, tanto os traficantes brasileiros quanto as FARC têm o mesmo fornecedor de armas.

As organizações criminosas brasileiras assumiram, de fato, o espaço vazio deixado pelo Estado, tanto na dimensão Federal, quanto na Estadual. Inicialmente, isto se deu nas favelas, nas periferias dos grandes centros urbanos e, hoje, elas mantêm vínculos com organizações internacionais ligadas ao crime organizado e ao terrorismo transformando os presídios em espaços de contato, moedas de troca ou ajustes de contas. Na medida em que aumenta o elo entre os criminosos nacionais e internacionais, mais complexa se torna uma possível resolução do problema ao nível interno. Em contrapartida, parte da população, descrente na eficácia do poder público, na Justiça e vítima da violência e do medo cotidianos, foi tomada gradativamente por um sentimento hostil aos direitos fundamentais da vida humana, passando a conceber a barbárie como a que ocorreu no COMPAJ, em Manaus, como algo “bom”, a partir da naturalização da violência e da defesa da ideia de que “bandido bom é bandido morto”. Esta posição foi, de certo modo, ratificada por José Melo de Oliveira, Governador do Amazonas, ao declarar que “não havia nenhum santo” entre os mortos. Este acontecimento, à semelhança de tantos outros significa, para uma parcela da sociedade brasileira, punição e uma espécie de vingança coletiva. A posição assumida por muitos brasileiros, a partir da análise dos comentários referentes às mortes de detentos em Manaus, tal como em casos semelhantes, em jornais e redes sociais, demonstra uma atitude que é consequência do sentimento de ausência do Estado enquanto responsável por assegurar a vida dos cidadãos. Deste modo, o Estado de Direito e a própria democracia estão em risco.

As falhas constantes do Estado brasileiro, principalmente no que toca à  Segurança, permitiram a gênese de uma divisão no interior da sociedade naquilo que diz respeito à concepção de pessoa e de valores. Deste modo, destacam-se aqueles que falam em nome das “pessoas de bem”, ignorando os Direitos Humanos e a própria Justiça, sem levar em consideração que a origem da violência está arraigada a questões sociais graves, tais como a exclusão social, a discriminação, os preconceitos, a má distribuição de renda e tantos outros que, até o momento, não foram solucionados. Por outro lado, não há uma reflexão em torno destes problemas para esclarecer a população acerca das circunstâncias dos fatos e da problemática dos Direitos Humanos e da Justiça. Ao ignorar isto, numa sociedade em que os Direitos Civis se encontram feridos, a tendência é que, para muitos, os Direitos Humanos não têm, como beneficiários, todos os seres humanos. Deste modo, a aplicação da lei nem sempre é suficiente para aplacar o juízo feito em conformidade com o modo de pensar de cada um, que foi estruturado numa sociedade desajustada, globalmente ignorante do princípio de que o Estado é, também, o guardião e o responsável pela vida dos prisioneiros. Foi com base neste princípio que, em 3 de janeiro, a ONU emitiu um comunicado cobrando das autoridades do Estado do Amazonas, uma investigação “imediata e imparcial”.

Hoje, o Brasil é o país com a quarta maior população carcerária do mundo. Consoante dados do Governo Federal, em 2016, a “população penitenciária brasileira chegou a 622.202” pessoas. Esta realidade, ignorada e pouco debatida pela maioria da população, assim como a existência de condições infra-humanas no sistema penitenciário brasileiro que, em vez de reeducar os presidiários, estimula a agressividade, contribui para o aumento da criminalidade a partir da revolta e da crença de que o crime compensa. Isto também não é nenhuma novidade para o Brasil e aos olhos do mundo, tanto que ao falar sobre o ocorrido recentemente em Manaus, o Papa Francisco apelou para que as “instituições prisionais sejam locais de reabilitação e reintegração social e que as condições de vida dos detidos sejam dignas de seres humanos”. Em 2016, o Brasil teve aproximadamente 400 mortes violentas em seus presídios. Estes dados revelam que, em média, ocorreu mais de uma morte por dia nas penitenciárias brasileiras. Os números demonstram que a inflamação no interior dos presídios do país é uma situação rotineira. A rebelião ocorrida no COMPAJ está inserida nesta conjuntura. Passados quatro dias daquela chacina, o Presidente Michel Temer, classificou o acontecido como “acidente pavoroso”. Porém, há dados que comprovam que o evento trágico de Manaus não se trata de um acidente ou de um caso isolado. De acordo com a imprensa, em janeiro de 2016, “peritos da área de Direitos Humanos do Governo Federal alertaram para o risco de rebeliões em quatro presídios de Manaus, entre os quais o Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj)”, onde ocorreram os assassinatos. Segundo o relatório de especialistas, os detentos nas prisões de Manaus “basicamente se autogovernavam nas unidades prisionais”, e todas as unidades “estavam sob um clima de grande inquietação” devido à “transferência de integrantes da Família do Norte (FDN) – facção criminosa predominante nas penitenciárias locais – para presídios federais”. A chacina no COMPAJ foi, portanto, uma tragédia anunciada. Numa população carcerária imensa, como a brasileira, ignorar informações é subjugar a vida. Ante os últimos acontecimentos, o Brasil terá que rever as posições que assumiu até hoje, começando por empenhar-se em resolver os problemas que minam a estrutura da sociedade, colocando em risco os Direitos Civis e Humanos ao promover a Lei de Talião – “Olho por olho, dente por dente”[3] , seja nos presídios, seja na própria sociedade.

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Imagem:

Secretaria Especial de Direitos Humanos, Manaus. Logotipo da campanha “Agenda de Convergência”.

(Fonte):

http://www.sdh.gov.br/assuntos/criancas-e-adolescentes/agenda-de-convergencia/imagens/manaus-vermelho

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Fontes:

[1] Ver:

O COMPAJ é administrado pela empresa Ummanizare – Gestão Prisional Privada, sediada em São Paulo.

A Ummanizare assumiu a gestão do presídio em 1.º de junho de 2014, “com o intuito de empregar diversas práticas e ações já desenvolvidas em outras unidades prisionais geridas por ela e que amenizam a condição de cárcere do detento”.

[2] Ver:

Além do CONPAJ, verificou-se uma revolta na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP), em Manaus, no mesmo dia, da qual resultaram 4 mortos.

Cf. REDAÇÃO, “Mais 4 Presos Mortos em Massacre no AM são Identificados, Diz Governo”, Globo – Amazonas, s. l. [Manaus], 5 de janeiro de 2017.

Disponível online:

http://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2017/01/mais-4-presos-mortos-em-massacre-no-am-sao-identificados-diz-governo.html

[3]Ver:

Gn. 4: 10-11; Ex. 21: 23-25.

 

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Não Precisamos do WhatsApp

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J. M. de Barros Dias

Vivemos, atualmente, sob o signo da pressa, não sob a pressão da qualidade da comunicação interpessoal. Há algumas décadas atrás, para distinguir a modernidade da tradição introduziu-se o conceito, hoje em desuso, de “snail mail”, o “correio caracol”. Naquela época – coisa de há vinte anos, mais ano, menos ano – os “antigos” escreviam cartas e enviavam cartões postais para dizer onde estavam e como se encontravam; os “modernos”, em contrapartida, enviavam e-mails àqueles que já estavam conectados, em rede, portanto.

A crescente aceleração dos estilos de vida e o contributo das tecnologias da informação, ao dispor de cada um de nós, introduziu um implícito social coletivo: temos que ser rápidos. Deste modo, esse recurso de outras eras, o correio eletrônico, é, atualmente, coisa de gente velha, pobre, sem dinheiro. Aqueles que vivem na crista da onda pós-moderna disseminaram o WhatsApp. O que é isto? Ele é um aplicativo, destinado a enviar e a receber mensagens curtas, curtíssimas, até. Ao receber uma mensagem, o destinatário é notificado por intermédio de um chilreio que, povoando o mundo, mantém em comunicação ultra-rápida milhões e mais milhões de criaturas.

O que tanto tem que falar essa gente? Nada. Em rigor, nós estamos ante o maior fenômeno mundial de “bavarderie”, de conversa jogada fora. Se, por um lado, as novas tecnologias permitem, ao indivíduo, a aparente anulação do tempo e do espaço – nós temos namoradas em Hong Kong, Nova Iorque e Kuala Lumpur sem nunca termos saído de Pindamonhangaba… –, elas nos situam ante o abandono existencial. Com efeito, em face do fracasso de uma mole de relações afetivas, de projetos pessoais falidos e da ausência coletiva do sentido da vida, muitos de nós optámos por “viver o momento”. Na angústia do abandono, os “WhatsApper” chilreiam anunciando que estão alegres, tristes, enfadados, que estão almoçando, defecando, rindo de morrer. Tudo isso, contudo, não expressa senão um enorme vazio. Essas mensagens, que se sucedem a um ritmo incessante, nascidas no âmago do “carpe diem” enfadado, morrem praticamente no tempo em que nasceram ou, talvez, até antes. Elas são, na verdade, a ilustração patética da “communicatio interruptus”.

Nós não necessitamos de comunicação veloz, cada vez mais desaustinada. Neste sentido, o WhatsApp não passa de um devaneio, tido por algo coletivamente necessário. Na verdade, nós não precisamos do WhatsApp. Martin Buber, um filósofo outrora muito apreciado, falava da relação intersubjetiva como sendo algo eminentemente humano, que se estabelece, sempre, entre um “eu” e um “tu”. Neste tipo de relação, que é a relação humana por excelência, há várias dimensões: o comprimento, a largura, a altura, a sensibilidade, o espírito, também. Se dispensarmos a telinha e seus inenarráveis chilreios, talvez reencontremos o humano que há em cada um de nós. Concederemos, então, àqueles que vivem conosco, a dignidade que eles têm. E eliminaremos, de nossas vidas, as fantasias tecnológicas que têm promovido, de maneira ridícula e patética, a alienação coletiva. 

Paris

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J. M. de Barros Dias

Paris, minha amada metrópole, tu és uma festa. Serás, sempre, a celebração da vida e de quanto nós, os humanos, fomos capazes de criar.

Vieram, hoje, com suas rogantes mãos góticas, os radicais, os ultras, os ladrões do mais puro amor. Eles chegaram sem se anunciar, com seus amargos corações excludentes. Não hoje, mas há já muito tempo, Bela, eles profanaram teu seio.

Têm as mãos sujas de ódio, os deficientes espirituais. Amputados do coração, neles só há intolerância e ódio. Vivem da conspiração e hão-de morrer como viveram: na dor e no sofrimento.

Eu voltarei a ti, cidade do Sena que se passeia em ti. Eu, e muitos outros, milhares, milhões, até, faremos tudo para que a Civilização prospere. Nós somos, Amada, bem mais e muito melhores do que eles, os empedernidos.

Ao contrário deles, nós somos pela paz. Eles, os bárbaros, com seus fuzis de sexta-feira, já estão perdoados. Que Deus tenha pena, pena absoluta, deles, Paris, meu Amor.

Volverine

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J. M. de Barros Dias

Volverine nasceu numa ninhada de muitos. Iria para a adoção, decidiu a pragmática dona. A mãe de Volverine, amante desalmada em telhados e vielas da vizinhança, era uma parideira que, várias vezes por ano, despejava no planeta lotes generosos de bichanos.

Volverine viu sua foto aqui e ali. Até o padre, na missa de domingo, anunciou o pobre Volverine. Ele estava condenado à adoção. Madames e criancinhas sem porvir avaliaram Volverine: ele não era de raça pura, os bigodes não eram fartos, mais isto, mais aquilo, tudo eram argumentos para não levar Volverine para o novo lar. Em desespero de causa, Volverine rezou a Deus para que o Criador intercedesse por ele. Mas nada. O deus dos gatos não escutou Volverine. Santo Antônio escutou.

Certo dia, ainda o Sol era um menino, a dona de Volverine meteu o infante numa caixa de sapatos, com pequenos orifícios.

– Ai, ai, tadinho de mim!, ciciou Volverine, temeroso que a humana criatura o levasse para o penhasco, onde ele iria ter o destino dos filhos indesejados de Esparta.

Não foi assim. A viagem de Volverine durou muito, foi imensa, naquele breu medonho da caixa de cartão. Foi tão grande aquela jornada que teria dado tempo para Volverine beber umas trinta porções de leite, com muito rom-rom à mistura…

Um sítio! Como aquilo era grande, maior até do que o próprio mundo! E tinha árvores, e criaturas, e mistérios sem fim! Lá, acolhido por um casal de humanos em acordo entardecente com a vida, Volverine foi cuidado com o carinho com que uma mãe faz a trança à filha.

Volverine viveu uma vida feliz e teve uma descendência farta, toda ela abençoada. Teve, até, tempo para aprender a distinguir as galinhas dos coelhos. Explorou os mistérios mais recônditos de algumas casas do João de Barro e dominou a arte de dormir a sesta à sombra das vacas que por ali existiam.

Logos Profanado

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“Frívolo”, explica o Minidicionário Soares Amora da Língua Portuguesa, é aquilo que “não tem importância; sem valor; fútil, leviano” (19.ª ed., 7.ª tiragem, 2010, pág. 330). Não é no sentido sexual que eu irei, aqui, abordar o sentido do conceito de frívolo em nossos dias.

Há algumas décadas atrás, os arautos da Teoria da Comunicação vaticinaram que, com o advento das novas tecnologias, o mundo iria entrar numa nova era, aquela em que todos e não unicamente os intelectuais, seriam os protagonistas do “logos”. Doravante, os cidadãos iriam ter a palavra fecundante no âmbito do processo civilizatório. No futuro, que se avizinhava ao virar da esquina, a empregada do supermercado e o cobrador do ônibus iriam discutir Immanuel Kant e propor soluções alternativas à Ética Global, de Hans Kung.

Não foi assim. A periferia da cultura, de mãos dadas com os órgãos de comunicação social do “mainstream” tomaram conta do discurso significativamente dominante. Em nossos dias, frases de autoria duvidosa compaginam a atualidade a par de aforismos espúrios deste ou daquele autor. Fernando Pessoa e Wisława Szymborska têm menos adeptos do que a Maria da Esquina e o Sérgio do Chopp. O relativismo ontológico das massas da pós-modernidade impôs, entre nós, a promiscuidade do “logos”. Com efeito, citações abusivas e fora de contexto servem para ilustrar a realidade puramente subjetiva de quem cumpre a existência com valores à deriva. Para a maioria de chumbo que determina a (in)fecundidade cultural do tempo presente tanto valor tem a expressão “uai” como a Propedêutica Filosófica, de Hegel; uma fábrica de sapatos tem, para eles, muito mais relevância do que o The Jerusalem Post, por exemplo.

O que fazer, então? De pouco serve, aos cultores do verbo seleto, tentarem promover a educação das massas globais. Elas vivem na esfera da emoção, autocentradas em existências minúsculas, com pouco ou nulo interesse para outrem. O mestre, de “magister”, é aquele que é mais, “magis”. O mestre revela, a cada um, a sua verdade. É, esta, portanto, uma relação peculiar, estabelecida entre muito poucos que, em tempos de luto e angustiada solidão, mutuamente se escolhem. Ao contrário do ministro, de “minister”, aquele que é menos, “minus”, o mestre não convoca as multidões para manter as ilusões sociais tidas por necessárias. O mestre é, pois, para os discípulos. O “logos” profanado, a palavra frívola, é, portanto, o patrimônio dos tagarelas. O vazio discursivo que a multidão congregada em torno do Nada produz mais não é do que éter, pintado com éter, no éter. Quando muito, da mole do pensamento único brotarão preocupações intestinas. O Espírito é, neles, um produto da perspectiva, jamais da problemática. Deus, o acidente, a vida, a morte têm, para a massa, o valor de um relógio roskoff. Na boca dessa maioria impante, diplomada mas profundamente inculta, tudo são lugares comuns de efeito ribombante. Nada os inquieta, nada os molesta. Vivem, como o mais torpe dos animais, o momento presente e nele se ejaculam com minúcias a que chamam… fé, poesia, ensaio, filosofia, até.

Na boca da maioria embezerrada, as mais belas flores não passam de obscenidades. A pós-modernidade, e seus “likes”, e seus ícones, e seus demiurgos, é, na verdade, o ocaso patético de uma época que se construiu com gente mínima, vulgar, materialista, tacanha. Tudo, neles, foi a conspiração animal para banalizar tudo. Tudo, neles, tem sido promiscuidade abjeta. Tudo, para os arrogantes protagonistas deste final de civilização, tem consistido na destruição, sistemática e planejada, daquilo que os humanistas exigentes e tolerantes tentámos construir.

A Tragédia do Lago Kopais

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Na Beócia, o Lago Kopais, era ladeado por terras férteis, mas foi invadido pelos terrenos circundantes devido à drenagem inadequada. O lago secou no século XIX. As terras foram alugadas à British Lake Kopais Company, entre 1867 e 1887. Em 1952, aquelas terras retornaram à posse da Grécia. A Agência do Lago Kopais foi criada em 1957. Ela tinha, como objetivo, orientar os agricultores da região a reorganizarem a exploração das terras na sequência daquela tragédia ecológica, construir uma estrada e drenar o lago. A tarefa foi concluída em menos de um ano, mas a Agência do Lago Kopais se manteve em funções até 2010. Tinha 30 funcionários, incluindo 1 motorista para o diretor da instituição. Ao longo dos seus cinquenta e três anos de existência, cinquenta e dois foram de absoluta inutilidade. A Agência do Lago Kopais assemelhou-se, portanto, a um relógio no qual a finalidade não tem função.

O Hospital Evangelismos, em Atenas, tem, na entrada das Urgências, separando o acesso à instituição da via pública, quatro arbustos mal cuidados. Nele, segundo a folha de salários do Hospital, trabalham quarenta e cinco jardineiros. Aqui, são muitos aqueles que dizem ali trabalhar, mas não marcam. Ao contrário da Agência do Lago Kopais, no Hospital Evangelismos o relógio funciona, mas não marca.

A Agência e o Hospital são, na verdade, exemplos aleatórios daquilo que, atualmente, a Grécia é. Um misto de desperdício e uma inadequação à realidade. Tudo isto associado ao delírio econômico-financeiro dos últimos anos. Eu poderia falar, aqui, nas filhas solteiras dos funcionários públicos falecidos, que recebem uma mensalidade de 1.000 Euros, ou, também, nas cabeleireiras que auferem, do Estado, um subsídio de risco, pago mensalmente. Eu poderia dizer, de tudo isto, que se trata de um país com direitos sociais muitíssimo ampliados, a par da ineficiência da gestão corrente. Tudo isso é válido e, no entanto, tudo isso pressupõe uma petição de princípio.

A Grécia, tal como Portugal, a Espanha e a Itália, são países que adotaram como seu o projeto do Euro, uma moeda fundada na Política e não na Economia. A moeda dos dezenove membros da Moeda Única Europeia serve a países com diferentes níveis de desenvoltura econômica, com diferente matriz produtiva e com díspares entendimentos do que é, e deve ser, sua inserção naquele que foi um projeto de weltanschauung  comum, a União Europeia. Com efeito, os países do Sul do continente – precisamente aqueles que, desde 2008, se encontram em apuros orçamentais – acreditaram ser seu destino o incremento substantivo do setor dos serviços, em detrimento do aparelho produtivo.

Acontece que a Europa foi, ao longo das civilizações, um construto cultural. Sob o ponto de vista político, até à União Europeia, todos os projetos da unidade no Velho Mundo tiveram um viés totalitário. Personalidades como Alexandre, o Grande, Carlos Magno, Carlos V, Napoleão Bonaparte e Adolf Hitler tiveram, em seus sonhos mais delirantes, a ideia de unir pela força um continente que se constituiu, ao longo do tempo, a partir da diversidade e de projetos de afirmação civilizacional muito diferenciados.

Santo João Paulo II enfatizou o fato de o Euro ser um projeto de paz. A História do pós II Guerra Mundial deu, até recentemente, razão àquele pensamento: a Europa vive o mais longo período de paz dos últimos quinhentos anos. Infelizmente, hoje em dia, o mundo, e não somente a Europa, deixaram de lado os devaneios poéticos da pós-modernidade. Todos nós, de maneira mais ou menos abrupta, voltámos à História e aos dramas inerentes à condição humana.

O que esperar, então, para os funcionários que fizeram a carreira profissional na Agência do Lago Kopais e para os jardineiros do Hospital Evangelismos?

A Grécia é, atualmente, uma herança pálida daquilo que foi a Magna Grécia. Platão e Aristóteles são ícones de um tempo que não é o de hoje e de uma cultura da qual nós temos uma percepção imperfeita. O grego clássico é, em relação ao grego atual, aquilo que, por exemplo, o latim é para o italiano. Por outro lado, o primeiro filósofo, Tales de Mileto, era filho da Anatôlia. Da atual Turquia, portanto, e não da Grécia que nós conhecemos.

Será legítimo, então, descartar a Grécia da Europa, tal como se descarta gente pobre e, sobretudo, sem dinheiro?

Esclareçamos um aspecto. O projeto da Moeda Única Europeia diz respeito a uma ideia de Europa que corresponde aos anseios de uma Mitteleuropa burocrática, velha, inoperante. Bruxelas, a sede da Comissão Europeia, e Estrasburgo, a sede do Parlamento Europeu, são torres de Babel onde, ante a crise da Economia mundial, quase todos brigam e quase nenhuns têm razão. A Grécia é Europa. Ela sê-lo-á enquanto, no mundo, houver homens e mulheres. Pelo contributo que esse país deu aos vindouros ela será, per omnia seculae saecolorum, a casa comum de nossos maiores. Neste sentido, tentar aniquilar a Grécia seria esbofetear Sócrates, seria profanar a memória imorredoira de Aristófanes.

E os jardineiros do Hospital Evangelismos? Eles estão perdidos. Aqueles que, na Europa, apostaram no Euro, essa ficção dos tempos recentes, também não têm futuro. Estão tão secos como o Lago Kopais. Estão acabados. A cada um deles nenhum barqueiro quererá transportar para as terras da morte, o Reino do Hades. De todos eles não ficará, para o porvir, memória.

Absolutamente Descartável

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J. M. de Barros Dias

O herói morreu. Morreu lento, o herói. Lá, na cama da enfermaria do hospital público, ele foi morrendo durante anos. Ele não morreu de um tiro ou na ponta de uma navalha. Não! Ele acabou entubado, depois de lhe cortarem bocados, já cego e inexistente para o mundo.

E, no entanto, nas batalhas, em mil perigos esforçados, o primeiro-sargento foi, até, mais do que humano. Para todos ele era, então, o exemplo a seguir. Os camaradas esperavam, coração tic-tac-tic-tac-tac que, numa daquelas madrugadas de ataques feéricos, ele se finasse dando o exemplo gentil no meio daquele abrasamento mundial.

Mas não foi assim. Todos foram partindo. Todos, um a um. Os amigos. As medalhas, para o penhor. Os jornais amarelados, para o lixo. As lembranças. A família muito amada também se foi. E, no leito em que o moribundo, finalmente, se apagou, nem honras, nem glórias.

Ali, somente as últimas contas por pagar. Os episódios bélicos que o velho tanto narrou com o melhor dos esmeros iam, finalmente, com ele para a cova funda, buraco de perdição. Talvez, um dia, os esqueletos estropiados dos companheiros de sangue o encontrassem, perdido, nas entranhas do reino do Hades.

A frase que tanto enchera o peito do herói,

– Viva a morte e trema a terra!

não mais seria escutada nos botecos de subúrbio onde o aposentado do chão de fábrica se arrastava. Tudo aquilo, gesto, retórica e patriotismo, eram coisas de outras eras. Agora, no tempo do Progresso e das Novidades, o passado era coisa descartável. Amanhã, outro mendigo, ou toxicodependente, ou mulher agredida, iram finar-se ali. Como animais que, durante décadas, se cuidaram para acabar no Açouge Municipal.