Natal

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J. M. de Barros Dias

Vem aí o Natal. O que significa isto, num tempo de tendeiros e de gente obcecada em ter coisas, comprar coisas, ser coisas? Provavelmente, para a maioria das pessoas, o Natal é um tempo… meramente litúrgico. Equivale, portanto, àquilo que a Coca-Cola, o McDonald’s e outros conglomerados econômicos ditam, com critérios mercadológicos. Afinal de contas, hoje em dia, o Natal é, para muitos, fruir por uns dias, do muito comer e do bom viver.

Contudo, o espírito do Natal não é nada disso. Esta é, queiramos ou não, uma festa religiosa. Uma festa cristã, quero eu dizer. Não é, contudo, a festa patrimonialista de uma qualquer igreja, ou de um templo determinado. O Natal, seja ele aquilo que nós quisermos que ele seja, começa por ser a recordação viva de um Menino que nasceu, longe de casa, lá, onde hoje é a Cisjordânia. Terra de exílios, de dor e de sofrimento, desde sempre, e para sempre, me parece.

O Natal, se for algo, é a celebração do órfão, da viúva e do estrangeiro. Ele é a vivência do encontro com aqueles que menos são, menos têm e menos podem. Quero eu dizer que, no presépio, no espírito de cada um de nós, não devem reinar imperadores, bispos, doutores, até. Nada disso. Devemos habitar nosso coração com a exclusão dos sem-abrigo, dos miseráveis, daqueles que não têm, sequer, um teto digno para os abrigar.

Eu acho que, civilizacionalmente, num determinado momento de nossas vidas, acabámos por nos enganar no caminho. O Natal é, para quem o quiser entender em sua plenitude, um mapa que nos indica, em primeiro lugar, o regresso a nós próprios e, também, ao sentido humano da vida. É este, igualmente, o sentido do mistério da Cruz. Sair do neutro, do es gibt para, na alegria do testemunho, ser nos outros e com os outros. Devemos dar. Dar não tudo aquilo que temos – que isso é gesto fácil – mas dar, de nós, de cada um de nós, tudo aquilo que somos.

Feliz Natal aos homens de boa vontade!

Tom Catena: A Esperança, nas Montanhas Nuba, em Tempos de Guerra

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J. M. de Barros Dias

Independente do Egito desde 1956, o Sudão foi o maior país africano até 2011, altura em que, após a realização de um referendo, se registrou a separação relativamente ao Sudão do Sul. A História do país tem sido marcada por conflitos étnico-raciais, duas Guerras Civis, entre 1955-1972 e entre 1983-2005, e, também, por dois conflitos internos em curso: aquele que tem lugar no sul e o da região de Darfur. A ONG Transparência Internacional classificou, em 2014, o Sudão como o 3.º país mais corrupto do mundo[1], somente atrás da Coreia do Norte e da Somália.

No sul do país, nas montanhas Nuba, situadas no estado do Kordofan do Sul, naquele que é, provavelmente, um dos conflitos mais esquecidos do planeta, estão se verificando crimes de lesa-humanidade talvez mais graves do que no Darfur. De acordo com denúncias da Agência Fides, “a guerra na região atingiu 1,2 milhões de civis. Destes, 300.000 foram obrigados a fugir e a produção agrícola caiu ao ponto de atender apenas 25% das necessidades da população”[2]. Em Nuba, a situação é de tal modo grave que os “trabalhadores humanitários ocidentais foram obrigados a fugir e há relatos de que tropas governamentais e milícias árabes apoiadas pelo governo estão caçando e matando sistematicamente integrantes do grupo étnico Nuba, de cor negra”[3]. É, precisamente, naquele território pleno de dificuldades e, até, hostil à presença estrangeira, que o médico-cirurgião norte-americano Tom Catena escolheu exercer sua atividade.

Thomas – ou Tom – Catena nasceu em Amsterdam, Nova Iorque, há 51 anos. Ele obteve a graduação em Engenharia Mecânica, pela Brown University. Após a conclusão dos estudos, decidiu que a carreira médica lhe propiciaria a oportunidade de trabalhar como missionário, para “servir a Deus de uma maneira concreta, aplicando os ensinamentos do Evangelho ao trabalho diário”[4]. Tom frequentou a Escola de Medicina da Duke University, instituição onde concluiu a licenciatura em 1992. Seis anos mais tarde, o Dr. Catena trabalhou na Guiana durante um mês e, depois, em Honduras, em outra missão médica com a duração de um mês e meio. Tendo completado a residência médica em 1999, Tom Catena optou por dedicar-se ao voluntariado. Deste modo, ele foi voluntário do Catholic Medical Mission Board no Hospital Mutoma, situado na região rural do Quênia, por dois anos. Em seguida, ele trabalhou no St. Mary’s Hospital, em Nairobi, ao longo de seis anos[5].

Desde 2008 ele serve, como missionário católico, no Hospital Mãe da Misericórdia, nas montanhas de Nuba, território onde, desde 2012 até hoje, foram lançadas 3740 bombas contra alvos civis[6]. Naquele Hospital, gerido pelos Missionários Combonianos do Coração de Jesus, e dotado de 435 leitos, o Dr. Catena é o único médico que atende uma população com mais de meio milhão de pessoas, desafiando a ordem do Presidente sudanês, Omar Hassan al-Bashir, que proíbe as organizações internacionais de prestarem ajuda humanitária naquele território. Catena trabalha dia e noite, aliviando as doenças, os ferimentos de guerra e as situações que derivam da fome. Pelos riscos e sacrifícios pessoais, o médico norte-americano aufere um salário mensal de USD $ 350 – cerca de R$ 1.000 – sem direito a qualquer plano de saúde e aposentadoria[7]. Catena é inspirado, segundo suas próprias palavras, por sua fé católica: “Eu tenho tido benefícios desde o dia em que nasci”, afirmou. “Uma família amorosa. Uma grande educação. Então, eu vejo isso como uma obrigação, como cristão e como ser humano, para ajudar”[8]. Por outro lado, considera o Dr. Catena, o labor missionário é aquele que “providencia as fundações espirituais que dão significado ao trabalho”[9].

Tom Catena leva a cabo, anualmente, cerca de 1.000 cirurgias. As pessoas que trabalham com ele dizem que, durante meses e, talvez anos, ele não se ausentou de suas funções por um único dia[10]. Entre aqueles a quem disponibiliza sua ciência e sua arte, Catena é muitíssimo respeitado. O Tenente-Coronel Aburass Albino Kuku, integrante da força militar rebelde, em Nuba, afirmou: “O povo das montanhas Nuba jamais esquecerá o seu nome. […]. O povo reza para que ele nunca morra”[11]. Por seu lado, Hussein Nalukuri Cuppi, um preeminente líder da comunidade muçulmana, foi mais longe, ao declarar: “Ele é Jesus Cristo […]. Jesus curava os doentes, fazia com que os cegos enxergassem e ajudava os coxos a andar – e é isto que o Dr. Tom faz cada dia”[12]. De acordo com Ryan Boyette, um cidadão norte-americano que vive no Sudão desde 2003, Tom “é inestimável. Toda a gente olha para ele como a única pessoa que pode salvar suas vidas”[13].

A missão de Tom Catena, no extremo sul do Sudão, constitui, simultaneamente, o alívio possível para aquelas populações esquecidas pela comunidade internacional e, também, um sinal de esperança para quantos, neste planeta, sentem o desespero por viverem em um mundo com valores à deriva. Por outro lado, ele dignifica, em seu cotidiano, aqueles que sentem, na pele, o descaso de políticos, levado às mais tristes consequências. Na verdade, o Dr. Catena vivifica, em pleno século XXI, os versos do poeta timorense Fernando Sylvan que, a propósito de seu povo, também martirizado, disse: “Pedem-me um minuto de silêncio […]. / Respondo que nem por um minuto me calarei”[14].

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Imagem

O Dr. Tom Catena, segundo a revista Time, é uma das cem personalidades mais influentes do ano 2015.

(Fonte):

https://timedotcom.files.wordpress.com/2000/04/dr-tom-catena-time-100-2015-pioneers.jpg?quality=65&strip=color&w=1100

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.transparency.org/cpi2014/results#myAnchor1

[2] Ver:

http://www.fides.org/pt/news/32466-AFRICA_SUDAO_Cometidos_nas_Montanhas_Nuba_crimes_contra_a_humanidade_como_em_Darfur#.VanWVMNRHIU

[3] Ver:

http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/tag/nuba/

[4] Ver:

http://working.org.s68107.gridserver.com/volunteer-dr-tom-catena-named-catholic-digest-hero

[5] Ver:

http://working.org.s68107.gridserver.com/volunteer-dr-tom-catena-named-catholic-digest-hero

[6] Ver:

http://nubareports.org/

[7] Ver:

http://www.nytimes.com/2015/06/28/opinion/sunday/nicholas-kristof-hes-jesus-christ.html?_r=0

[8] Ver:

http://www.nytimes.com/2015/06/28/opinion/sunday/nicholas-kristof-hes-jesus-christ.html?_r=0

[9] Ver:

http://working.org.s68107.gridserver.com/volunteer-dr-tom-catena-named-catholic-digest-hero

[10] Ver:

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2982858/Tom-Catena-surgeon-Nuba-Mountains-Sudan-genocide-hightlighted-George-Clooney.html

[11] Ver:

http://www.nytimes.com/2015/06/28/opinion/sunday/nicholas-kristof-hes-jesus-christ.html?_r=0

[12] Ver:

http://www.nytimes.com/2015/06/28/opinion/sunday/nicholas-kristof-hes-jesus-christ.html?_r=0

[13] Ver:

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2982858/Tom-Catena-surgeon-Nuba-Mountains-Sudan-genocide-hightlighted-George-Clooney.html

[14] Ver:

http://fernandosylvan.blogspot.com.br/

Fonte:

CEIRI Newspaper