A Ligação de Tareck El Aissami, Vice-Presidente da Venezuela, ao Hezbollah

Tareck El Aissami

Marli Barros Dias

O vice-presidente da Venezuela, Tareck El Aissami, é um membro do regime chavista que ascendeu rapidamente ao poder e que, hoje, é suspeito de ligação com o Hezbollah – grupo insurgente libanês. Aos 42 anos, o político venezuelano de origem síria já assumiu vários cargos. Aos 29 anos ele foi chefe da Missão Identidade, o organismo responsável por emitir o cartão de identidade dos venezuelanos, depois elegeu-se Deputado, tornou-se vice-ministro da Segurança Cidadã e, logo em seguida, ministro do Interior e da Justiça, cargo que exerceu entre os anos de 2008 e 2012. Em janeiro deste ano foi nomeado vice-presidente da Venezuela, por Nicolás Maduro. Apesar de El Aissami ser considerado o chavista mais repudiado pela oposição, ele é um caso de sucesso na vida pública, mas atualmente está sendo confrontado com acusações que o associam ao terrorismo internacional, sendo considerado o principal elo de ligação ao Hezbollah na América Latina. Segundo estudos, há uma rede financeira entre o chavismo e o extremismo islâmico e o vice-presidente venezuelano encontra-se relacionado com este episódio.

Há informações que asseguram que o vínculo com o Hezbollah é facilitado pela origem da família de El Aissami. O fato de ser filho de imigrantes da Síria, tendo o pai e o tio de El Aissami trabalhado para o Partido Ba’ath sírio, tem favorecido as relações entre a Venezuela, o Irã e o país de seus antepassados. Os críticos do vice-presidente venezuelano atribuem-lhe a responsabilidade por uma vasta rede política que transformou o país num “centro internacional de drogas e a base do terrorismo islamita na América Latina”. Um estudo realizado pelo Centro para uma Sociedade Livre e Segura (SFS) confirma que aproximadamente 173 pessoas, originárias do Oriente Médio, foram identificadas portando passaportes e documentos de identidade venezuelana. Os dados recolhidos pela SFS apontam que a Venezuela se transformou em trampolim para os indivíduos ligados aos insurgentes do Hezbollah entrarem nos EUA. O diretor executivo da SFS, Joseph Humire, afirmou que “os indivíduos eram do Irã, do Iraque, da Síria, da Jordânia e do Líbano. Mas, a maioria era do Irã, do Líbano e da Síria. Setenta por cento vieram desses países e tinham algum tipo de vínculo com o Hezbollah”. Neste contexto, vale ressaltar que o passaporte venezuelano é aceite sem visto em mais de 130 países, compreendendo 26 países da União Europeia, o que facilita a circulação por diferentes partes do mundo por estas pessoas.

Outro ator que aparece como elemento fundamental para a manutenção da rede entre o narcotráfico e o terrorismo islâmico é Cuba. O ex-assessor de Segurança da Venezuela, que fez parte do processo de modernização do sistema de identidade daquele país, Anthony Daquin, declarou que o Governo de Raul Castro é o responsável por “gerenciar os sistemas de documentação da Venezuela”. Conforme explicou Daquin, tudo é feito sem nenhum problema uma vez que os cubanos possuem equipamentos eficazes, “incluindo folhas de policarbonato, assinatura eletrônica que entra em passaportes e certificados, criptografia, que são aqueles que permitem o chip poder ser lido nos aeroportos”. A trama com o Hezbollah, envolvendo El Aissami, não está restrita aos territórios venezuelano e cubano mas, também, à Argentina. Neste sentido, cabe ressaltar o assassinato do promotor argentino, Natalio Alberto Nisman, em 2015, no decurso das investigações sobre o atentado terrorista contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), ocorrido em 1994. Durante o processo investigatório, Nisman apurou as conexões entre os radicais islâmicos estabelecidos na Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai) com a Argentina e o Irã, o que levantou a suspeita de a sua morte estar associada ao caso em que ele vinha trabalhando. A morte de Nisman ainda não foi totalmente esclarecida. No entanto, há informações de que um acordo foi estabelecido entre a Venezuela e o Irã estando El Aissami como um dos principais operadores que fez o “elo entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o Hezbollah”.

Os acontecimentos demonstram a abrangência da aliança entre os membros do Governo chavista com integrantes do Hezbollah e com o Irã. A revista Veja denunciou, em março de 2015, o fato de o adido comercial da Embaixada da Venezuela em Damasco, o libanês Ghazi Nasr al-Din, que posteriormente entrou para a lista do FBI, como sendo o “preposto de El Aissami” e o responsável pela emissão de passaportes venezuelanos para “encobrir a identidade de terroristas que viajavam pelo mundo” de entre os quais se inclui o clérigo iraniano Moshen Rabbani, apontado por Nisman como sendo o responsável por levar a cabo o atentado contra a AMIA. Rabbani, em posse desse passaporte, viajou “pelo menos três vezes” ao Brasil. Todos os fatos convergem para uma teia do narcotráfico e do terrorismo islamita radical consolidada a partir da Venezuela, durante o mandato de Hugo Chávez e que chega à atualidade com vigor, na medida em que todos os indícios confluem para o endosso do vice-presidente da Venezuela, que é o sucessor mais próximo à Presidência da República daquele país.

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Imagem:

Tareck El Aissami.

 

O Novo Oriente Médio

Oriente Médio - mapa

Marli Barros Dias

O Oriente Médio, palco de muitas batalhas e cenário geoestratégico para muitos atores internacionais, na sequência da Primavera Árabe foi sacudido por mudanças que, ao contrário de muitas análises da época, não significaram a democratização da região nem, sequer, melhores condições de vida. As mazelas sociais, fruto da alienação de regimes políticos autoritários e corruptos resultou, em dezembro de 2010, na morte de Mohamed Bouazizi, um jovem tunisino desempregado que, impedido pelas autoridades de seu país de vender legumes para garantir a sobrevivência, ateou fogo ao próprio corpo. O ato desencadeou uma onda de protestos em vários países do Oriente Médio e culminou na queda de Zine El Abidine Ben Ali, na Tunísia, Hosni Mubarak, no Egito, e Muammar al-Gaddafi, na Líbia. Na Síria, as contestações ao regime de Bashar al-Assad levaram à guerra. As consequências que, desde então, têm atingido a região contrariam as perspectivas ocidentais feitas naquele momento, de um mundo mais alinhado ao modelo de democracia ocidental. No auge dos acontecimentos, muitos analistas ignoraram o fato de que essas sociedades, após anos de submissão e desemprego, poderiam tomar uma direção diferente daquela esperada por quantos se encontravam no comando dos centros de decisões globais. As revoltas que, para o Irã, foram denominadas de despertar islâmico, tomando como base a própria revolução iraniana de 1979, talvez, nos dias de hoje, tenham mais sentido se, partindo do pressuposto de que, paralelamente a um Oriente Médio desestabilizado, pode-se dizer que há sinais de um poder iraniano ascendente na região bem como a ascensão do extremismo religioso.

A expressão Novo Oriente Médio foi usada pela primeira vez em 2006, por Condoleezza Rice, Secretária de Estado dos EUA, em “substituição ao termo mais antigo e mais imponente, Grande Oriente Médio”, que coincidiu com a inauguração do Terminal Petrolífero Baku-Tbilissi-Ceyhan (BTC) no Mediterrâneo Ocidental e, também, com a guerra entre Israel e o Líbano. Os elementos que justificaram o propósito daquela designação para a região, não assumiram os contornos esperados pelos EUA e a Grã-Bretanha, cuja intenção era redesenhar as fronteiras regionais sob a alegação de resolver os problemas do Oriente Médio atual. Porém, os acontecimentos que se sucederam ao longo dos últimos anos não permitiram a concretização dos objetivos anglo-americanos e se opondo aos interesses dessas duas potências ocidentais hoje, as antigas e as novas forças políticas tentam definir áreas de influência que poderão resultar numa nova ordem regional. A presença do Irã, da Rússia e da Turquia na guerra na Síria, por exemplo, somada aos episódios dos últimos seis anos, provocados por aquele conflito, no rescaldo da Primavera Árabe, aponta um novo direcionamento das lideranças mundiais para questões mais recentes. Demandas tradicionais, como a criação do Estado palestino, não saíram da agenda, mas estão em segundo plano. De acordo com as informações recentemente veiculadas, o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou o rompimento de uma relação histórica dos EUA relativamente ao conflito israelo-palestino.

A Palestina que, por muitas décadas, foi o epicentro de várias contendas envolvendo Israel, o mundo árabe e o Ocidente, parece que deixou de o ser. Esta é uma das evidências que dividem o antigo Oriente Médio e o novo. Ao longo dos anos, a região tem sido remodelada e, para o bem ou para o mal, os EUA estiveram sempre presentes. Quando o Presidente Trump afirmou: “Olho para a solução com dois estados e com um estado e gosto do que israelenses e palestinos gostarem. Aceito as duas opções”, de fato a sua administração não tem interesse no problema. No entanto, ele não cogitou, até hoje, a saída das tropas norte-americanas da Síria. Segundo informações, o Oriente Médio continua a ser relevante para os norte-americanos. Os Oficiais aposentados dos Serviços Estrangeiros afirmam que áreas da “Turquia ao Irã, através da Península Arábica – que definem o novo panorama da política externa americana no Oriente Médio”. Neste contexto, os EUA não estão deixando a região mas, se o fizerem, quem será o líder do novo Oriente Médio? Muitas coisas serão definidas no futuro, mas as alterações já são perceptíveis no presente. Foi noticiada, pela BBC, no início deste mês, a possibilidade de uma guerra que envolva Israel no novo Oriente Médio, a partir da Síria, que alterou o mapa estratégico da região. Em conformidade com uma notícia recente, o que mais assusta Israel são as vitórias no Norte da Síria pelas forças de Bashar al-Assad e de seus aliados, o Irã e o Hezbollah. Para o Professor Asher Susser, do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Tel Aviv, “as mudanças na Síria, trouxeram o Irã para mais perto das fronteiras de Israel do que nunca”, situação que origina “a possibilidade da cooperação entre o Irã e o Hezbollah não apenas ao longo da fronteira entre Israel e Líbano, mas também ao longo da fronteira entre Israel e a Síria”. Para o Professor, isto corresponde a “um potencial perigoso para uma longa fronteira do Mediterrâneo, através do Líbano e da Síria, com o Hezbollah e o Irã muito perto de Israel que, nunca enfrentou esse tipo de situação em sua fronteira norte”.

Vários aspectos vêm sendo alterados na parte mais conturbada do planeta. Uma nova configuração geoestratégica começa a tomar forma. O antigo Oriente Médio está a ser substituído gradativamente pelo novo, no qual a Palestina passou a ocupar o segundo plano na agenda internacional, enquanto que a Síria é a pauta do momento. Isto porque este país árabe concentra as mais variadas forças regionais e estrangeiras jamais vistas num conflito de mesma natureza, o que modifica as estruturas do passado. Este status quo já está sendo alterado nos Montes Golã, cuja fronteira foi, em tempos, considerada a mais pacífica de Israel. Praticamente todos os acontecimentos e notícias sobre o cotidiano da Síria convergem para a construção de um novo Oriente Médio e de novas políticas para a região, que ainda estão por definir, mas já estão em curso.

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Imagem:

Mapa do Oriente Médio.

(Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/13/Middle_east.jpg

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Publicado em CEIRI Newspaper:
http://www.jornal.ceiri.com.br/

Entrevista com o Presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia sobre a Situação Política Turca

mustafa-goktepe

Marli Barros Dias

“As práticas nos últimos três anos dão uma ideia do nível do retrocesso dos valores da democracia e dos direitos fundamentais que a Turquia sofreu. Erdoğan é o único poder em vigor no país, todos os outros poderes estão subordinados a ele, inclusive o Judiciário”, Mustafa Göktepe

Mustafa Göktepe, cidadão turco-brasileiro, é o fundador e presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia. Empresário nas áreas do turismo e da alimentação, foi professor de Língua e Cultura Turca na Universidade de São Paulo (2010-2013), de Língua e Cultura Turca e Civilização Turco-Islâmica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2009-2013) e de Língua e Cultura Turca na Universidade de Brasília (2013 a 2014).

Entre 2011 e 2014, Mustafa Göktepe serviu como assessor do representante do jornal Zaman, da Turquia, no Brasil. Ele é tradutor juramentado – turco e português –, sendo tradutor simultâneo do turco e português e, ainda, tradutor e revisor de livros.

Pergunta: Como define a política atual da Turquia?

Resposta: Como uma política no caminho da formação de uma ditadura. As práticas nos últimos três anos dão uma ideia do nível do retrocesso dos valores da democracia e dos direitos fundamentais que a Turquia sofreu. Erdoğan é o único poder em vigor no país, todos os outros poderes estão subordinados a ele, inclusive o Judiciário.

 Pergunta: Qual foi o objetivo da tentativa de Golpe na Turquia? Quem, de fato, esteve por detrás?

Resposta: A Turquia sofreu quatro golpes militares na sua história, em 1960, 1971, 1980 e 1997, além de várias outras tentativas. Por isso, sabemos muito bem como acontecem os golpes. O que foi em 15 de julho de 2016 não era um golpe comum, embora no início parecesse assim. Um golpe militar não acontece em apenas duas cidades, envolvendo apenas 2% dos militares, sem prender nenhum político, sem tomar o controle da mídia e jamais acontece na sexta-feira às 22h00 num dia de Verão, quando todo mundo está acordado. Juntando todas essas estranhezas com o expurgo que vem acontecendo desde então, eu chamaria de “teatro do golpe” ou até “autogolpe”. Essa tentativa de golpe beneficiou apenas Erdoğan no seu caminho ao sistema presidencialista.

Não se sabe exatamente quem fez o golpe, talvez seja um grupo de militares incomodados com as práticas do Erdoğan que desviou a Turquia do caminho da democracia. Mas de uma coisa tenho certeza: Erdoğan sabia dessa tentativa e deixou acontecer, sentindo-se tranquilo por ter o controle absoluto da Inteligência, da Polícia e da Justiça. Sabia que o golpe não iria dar certo, mas que ele iria se beneficiar dessa tentativa para acabar com todos os críticos ao seu autoritarismo.

Isso foi confessado por ele mesmo, numa entrevista ao vivo que deu à CNN Turk durante os momentos do golpe. Parece piada, o presidente de um país que está sofrendo um golpe militar dando entrevista ao vivo com a localização anunciada. Mas não era piada, era parte do teatro. Naquela primeira entrevista Erdoğan já nomeou o Movimento Hizmet e seu inspirador Fethullah Gülen como sendo os autores do golpe e disse que “essa tentativa de golpe foi uma benção de Deus, pois agora poderemos fazer uma limpeza generalizada, começando com as Forças Armadas”.

Ele está fazendo o que disse: limpeza geral em todas as instituições públicas e privadas. Algumas horas depois do início da tentativa de golpe, começaram a divulgar listas com os nomes de milhares de pessoas como golpistas, todos previamente fichados. Trabalho tão malfeito que divulgaram nomes de pessoas que já haviam morrido ou mudado de cidade ou até de país. Em seguida foi decretado o “estado de emergência” e os “direitos humanos” foram suspensos, assim qualquer ação anticonstitucional se tornou possível com o decreto presidencial, ou seja, de Erdoğan.

Começaram a prender pessoas, sem prova, sem inquérito, sem processo judicial.. simplesmente por ser crítico ao autoritarismo do Erdoğan. O número de pessoas presas e detidas já supera as cento e vinte mil e o número de instituições fechadas e tomadas passa de três mil e quinhentas.

Pergunta: Por que o Governo quer criminalizar o Movimento Gülen (Hizmet)?

Resposta: O Movimento Hizmet, inspirado no erudito Fethullah Gülen, é um movimento da sociedade civil que surgiu na Turquia que hoje está presente em mais de 170 países, com trabalhos educacionais, culturais, empresariais e sociais. É um movimento apolítico, a favor da democracia e dos direitos fundamentais. Por isso, os membros do Hizmet votaram em diferentes partidos e candidatos, levando em consideração a promessa deles.

O partido de Erdoğan também atraiu os votos dos simpatizantes do Hizmet nos primeiros dois mandatos, por causa das promessas (e inclusive práticas no início) em favor de melhorar a democracia e as liberdades na Turquia, da adesão à União Europeia e da mudança da Constituição atual, que é militar, cheia de restrições, por uma civil e mais democrática.

Tanto o Hizmet quanto outros a favor da democracia, começaram a criticar Erdoğan a partir de 2011, quando ele condicionou a mudança da Constituição à mudança do sistema no país, do parlamentarismo para o presidencialismo, e começou a ter um discurso autoritário, demonstrando as ambições da liderança regional e religiosa, inclusive cogitando a volta do Califado.

Mas o principal marco entre o Erdoğan anterior e o de hoje foram as operações de corrupção ocorridas em 17 e 25 de dezembro de 2013, que envolviam o gabinete de Erdoğan, então primeiro-ministro, chegando até ao seu filho, Bilal Erdoğan. Tudo indicava que ele, com a sua família e alguns ministros de seu Governo, faziam parte de um esquema de corrupção que durava há anos, que desviava 10 a 20% de todas as licitações. As gravações de áudio e vídeo das investigações foram divulgadas no YouTube e no Twitter, o que motivou o fechamento dessas redes sociais.

Alguns “colunistas” e “religiosos” tentaram justificar esse roubo de 20% com pareceres religiosos, dizendo que o Califa teria direito a um quinto (1/5) de todo ganho para atender as necessidades de toda comunidade muçulmana mundial. Um deles (Ahmet Akgündüz) chegou a dizer que os Governos anteriores roubavam 80%, esses roubam apenas 20%.

As pessoas e as instituições inspiradas no Movimento Hizmet, como o jornal Zaman e Samanyolu TV, não fizeram vista-grossa a essas operações, como desejava Erdoğan.

Ainda naqueles dias da operação, Erdoğan começou a sua caça às bruxas contra o Hizmet chamando-o de Estado paralelo. Ele tentou tudo para criminalizar o Hizmet, chamando-o de grupo terrorista. Mas não tinha como fazer isso porque não tinha nenhuma prova e por o Hizmet ser conhecido como um movimento pacífico. Ele precisava de algo para poder chamar de terrorista, para fazer uma perseguição generalizada, o que vem fazendo desde essa tentativa de golpe.

Pergunta: Como o Governo turco tem conseguido apoio da população?

 Resposta: De várias formas. Listando apenas as principais:

  • As políticas sociais, que não procuram dar um empurrãozinho para as pessoas começarem a ter um emprego, um ganho digno, mas que tornam as pessoas dependentes dos programas sociais do Governo. As pessoas não querem correr o risco de perder os benefícios, por isso votam no Governo atual, sem se importarem do que Erdoğan faz de errado.
  • Medo generalizado. Isto faz com que as pessoas não se arrisquem denunciando os erros, ou criticando as ações ilegais do Governo e das autoridades. Há um círculo de espiões voluntários na sociedade, em geral, que qualquer um que aparenta ser um crítico ao Governo é perseguido, o seu negócio é fechado ou tomado, excluído de serviços públicos (educacionais, saúde, transporte, segurança, etc.). As pessoas são destituídas, demitidas, presas por serem críticas. Não só de funções públicas, mas também das entidades privadas.
  • Discurso islamista, que usa o sentimento religioso das pessoas. Erdoğan e os membros de seu Governo são mestres nisso. São dezenas as vezes em que Erdoğan participou dos comícios com o Alcorão na mão, balançando-o na frente das pessoas, recitando versículos, fazendo orações diante do público, para criar uma imagem de um líder religioso. Os muçulmanos praticantes na Turquia sofreram muito com os golpes militares que restringiam a prática da religião. Por exemplo, as mulheres eram proibidas de usufruir de serviços públicos se usassem o lenço/véu. Muitas deixaram de estudar no Ensino Superior, por terem que tirar o lenço para estudar. Algumas práticas boas de Erdoğan (sim, ele teve muitas práticas boas nos primeiros dois mandatos de seu Governo, por isso fui uma das pessoas que votou nele) aliviaram não só os muçulmanos, mas também outros religiosos de outras religiões. Ele continua usando a religião para alcançar seus interesses políticos. O discurso religioso não significa que ele seja Eu até diria que 90% de tudo o que ele vem fazendo não é justificável no Islã.
  • Uso de mídia e política polarizadora. Hoje 99% dos órgãos de mídias (seja jornal, seja televisão e rádio) são pró-Governo. Para entender o efeito disso, basta imaginar que os jornais, as emissoras de televisão e de rádio de todos os grandes grupos no Brasil (Globo, Bandeirantes, Record, etc.) pertencessem ao Governo ou aos seus simpatizantes e fizessem notícias 100% a favor do Governo.

Pergunta: Quais são os riscos de a Turquia se tornar uma ditadura?

Resposta: Não considero mais um risco, eu diria que a formação de uma ditadura está em curso na Turquia.

Pergunta: Qual o interesse da Turquia na Guerra na Síria?

Resposta: Eu fui tradutor de Erdoğan quando ele esteve no Brasil, em 2010, e fui tradutor de Dilma quando ela viajou para a Turquia, em 2011. Testemunhei as conversas nesse nível. Naqueles anos, no início dos conflitos na Síria, a Turquia parecia ser um articulador com al-Assad, orientando para que ele mesmo liderasse a mudança desejada pelo povo no seu país. Mas, depois ficou claro que Erdoğan apoiava os rebeldes desde o início, com a intenção de fazer al-Assad cair o mais rápido possível. Assim, a Turquia se tornaria o único país com estabilidade política e social na região, além de chegar até Damasco e rezar na imponente e importante mesquita dos Omíadas. Isso tem um significado religioso e dá sinais sobre o novo Califa dos muçulmanos.

Esse apoio ilegal, com armas e financiamento, foi divulgado por jornais turcos, alemães, britânicos e americanos. O jornalista turco (Can Dündar), que divulgou as fotos das armas nos caminhões da Inteligência turca a caminho da Síria, foi preso e a operação foi encoberta imediatamente. Uma parte dos rebeldes hoje faz parte do ISIS, conhecido também como Estado Islâmico (EI) ou DAESH.

A Turquia usou como crédito a sua localização e o fato de ser um importante membro da OTAN para não receber críticas duras da União Europeia e dos EUA. A Europa toda está com medo de mais de três milhões de refugiados sírios invadirem seus países. Por isso mantém uma política hipócrita, criticando Erdoğan um dia aqui, outro dia ali, mas não fazendo nenhuma sanção significativa. Os EUA não querem perder o espaço da OTAN em Incirlik, uma localização muito estratégica para ter controle na região.

 Pergunta: Quais as possibilidades de solucionar o problema entre o atual Governo da Turquia e a minoria curda?

 Resposta: Os curdos na Turquia, bem como outras minorias (armênios, gregos, árabes, alauitas, xiitas, judeus, ortodoxos, católicos, etc.) não tiveram muitos de seus direitos garantidos durante toda a República até que fossem feitas reformas pelo Governo de Erdoğan nos primeiros dois mandatos, como parte das exigências da União Europeia. Por exemplo, eles não podiam ter escolas, televisões, rádios, jornais em curdo.

O grupo terrorista PKK, foi considerado como representante dos curdos por muitos Governos, embora isso esteja muito longe da realidade. Por isso deixaram a região sudeste do país, onde está a maior concentração de curdos, sem investimento e sem serviços públicos, como escolas, hospitais, fábricas, etc.

Quando começou o “processo de paz”, os curdos começaram a ter voz no Parlamento com mais de oitenta deputados, pela primeira vez na história da República. Até 2014, a relação do Governo com os curdos em geral parecia estar muito bem. Quando Erdoğan anunciou que queria mudar o sistema no país (de parlamentarista para presidencialista a la turca) e ele queria se tornar presidente, o líder do partido curdo (Selahattin Demirtaş) disse abertamente que jamais iria deixar isso acontecer.

Sem o apoio de 2/3 do Parlamento é impossível mudar o sistema do país. E sem o apoio dos parlamentares curdos é impossível chegar a este número. Aí começou a briga de Erdoğan contra os curdos. Tirou a imunidade dos parlamentares e está prendendo eles, junto com centenas de prefeitos curdos.

 Pergunta: A Turquia corre o risco de uma Guerra Civil? Por quê?

Resposta: Sim, o risco de uma guerra civil é real. Acho que o que disse acima como resposta as perguntas anteriores, dá uma ideia sobre esse risco.

Tudo indica que, pelas razões apontadas acima, as coisas não vão mudar rápido na Turquia e na região. Ainda mais depois da eleição de Trump como presidente dos EUA, a intenção da aproximação dele com Putin, da Rússia, torna muito difícil comentar sobre o futuro da região.

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Publicado em: http://www.jornal.ceiri.com.br/