A Canonização de Jacinta e Francisco Marto

Estátuas de Jacinta e Francisco Marto - Santuário de Fátima

J. M. de Barros Dias

No sábado, 13 de maio, dia em que se cumpriu o centenário das primeiras aparições marianas, em Fátima, o papa Francisco[1] presidiu à missa que canonizou Jacinta e Francisco Marto, os dois pastorinhos, pertencentes a  uma família humilde, que haviam sido beatificados em 13 de maio de 2000, por São João Paulo II. A realização da cerimônia de canonização, que contou com a participação de mais de meio milhão de fiéis, fora confirmada no dia 20 de abril, na sequência do Consistório Ordinário Público que secundou a decisão pontifícia de elevar aos altares católicos dois dos videntes da Cova da Iria, paróquia de Fátima.

No início da eucaristia, o bispo de Leiria-Fátima, António Marto, pediu ao sumo pontífice que inscrevesse Jacinta e Francisco no livro dos santos, tendo feito a apresentação biográfica das crianças. A missa, marcada pela presença das relíquias de Jacinta e Francisco – “uma mecha de cabelo da primeira e um fragmento ósseo do segundo” –, colocadas no altar, aos pés da Virgem Maria – foi marcada pela imponência e emoção da concelebração, que reuniu 3 Chefes de Estado (Portugal, Paraguai e São Tomé e Príncipe), 8 cardeais (3 portugueses), 135 bispos (47 dos quais integram a Conferência Episcopal Portuguesa) e cerca de 2 mil sacerdotes. Após a homilia, durante o cortejo do ofertório, o papa “abraçou e beijou os pequenos Francisco e Jacinta, dois irmãos, filhos de um casal argentino, que foram assim batizados em homenagem aos pastores”.

Segundo testemunhas oculares, Nossa Senhora, que apareceu aos irmãos Jacinta (1910-1920) e Francisco (1908-1919), assim como a sua prima Lúcia (1907-2005)[2], pastores naturais de Aljustrel, Ourém, a cada dia 13, entre maio e outubro de 1917, fez apelos constantes para o incremento da fé, esperança, conversão e orações pela paz. Por outro lado, a Virgem revelou às crianças um segredo, dividido em três partes, que hoje conhecemos como sendo uma visão do Inferno, com cenas da II Guerra Mundial, a ascensão e queda do marxismo-leninismo na União Soviética, e o presságio da tentativa de assassinato de São João Paulo II, em 1981[3]. Atualmente, de acordo com o papa Francisco, “no crer e sentir de muitos peregrinos, se não mesmo de todos, Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha, ‘mostrai-nos Jesus’”.

Se o milagre que levou à beatificação de Jacinta e Francisco, atribuído à intercessão dos irmãos, foi reconhecido em 22 de junho de 1999[4], aquele que abriu o caminho para a canonização foi reconhecido em 23 de março passado. Ele diz respeito a Lucas Batista, uma criança brasileira residente em Juranda, Estado do Paraná, que, na época, tinha cinco anos. Em 5 de março de 2013, a criança brincava com a irmã, em casa do avô, “quando caiu por acidente de uma janela de cerca sete metros de altura, sofrendo um grave traumatismo crânio-encefálico, com a perda de material cerebral”. Em coma, Lucas foi operado de emergência. Se sobrevivesse, ele “viveria em estado vegetativo ou, no máximo, com graves deficiências cognitivas”. Contudo, inexplicavelmente, “após três dias, o menino recebeu alta, não sendo constatado nenhum dano neurológico ou cognitivo”. Mais tarde, no dia “2 de fevereiro de 2007, uma equipe médica deu parecer positivo unânime sobre o caso, como ‘cura inexplicável do ponto de vista científico’”. De acordo com informações agora divulgadas pela Rádio Vaticano, “no momento do incidente, o pai da criança havia invocado Nossa Senhora de Fátima e os dois pequenos beatos. Na mesma noite, os familiares e uma comunidade de irmãs de clausura haviam rezado com insistência, pedindo a intercessão dos pastorzinhos de Fátima”.

De acordo com as declarações do padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de  Nossa Senhora do Rosário de Fátima, à Catholic News Agency, “de certa maneira, a canonização ajuda a dar credibilidade às aparições e à mensagem de Fátima”. Para o padre Cabecinhas, a canonização “tem este valor: não só dois santos na Igreja, mas dois santos que nos desafiam a olhar para a mensagem de Fátima e a compreender que Fátima é também uma escola de santidade para cada um de nós”. Por outro lado, falando sobre a razão que leva os peregrinos a visitar Fátima, Carlos Cabecinhas referiu que é, “sem dúvida”, porque “eles procuram uma forte experiência com Deus, um forte encontro com Deus”. Por outro, sublinhou o reitor, “isto é específico de Fátima”, pois as pessoas que se deslocam até ao Santuário “vêm para ter uma forte experiência com Deus, elas vêm para ter uma mudança em suas vidas e, muitas vezes, esta é uma experiência que transmitem”.

Santa Jacinta e São Francisco Marto são as primeiras crianças, na história da Igreja Católica, a alcançarem os altares mundiais graças a um milagre e não devido ao martírio pessoal. Com eles acaba de ser reconhecida a simplicidade da vida que lhes foi dada viver e a firmeza das convicções que nutriram o seu cotidiano infantil. Nelas, à cabeça, a Igreja acabou de coadjuvar a rejeição, pelos irmãos da Cova da Iria, do Portugal da I República, dominado pelo racionalismo, o positivismo e o messianismo pátrio[5] –, a par do papel da Rússia soviética, na Europa e no mundo.

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 Imagem:

Estátuas de Jacinta e Francisco Marto no Santuário de Fátima.

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 Fontes consultadas:

[1] Ver:

Fátima registrou, até hoje, a presença de 4 papas: Beato Paulo VI (13 de maio de 1967), São João Paulo II (12 a 15 de maio de 1982; 10 a 13 de maio de 1991; 12 a 13 de maio de 2000), Bento XVI (11 a 14 de maio de 2010) e, agora, Francisco (12 a 13 de maio de 2017).

[2] Ver:

Freira da Ordem das Carmelitas Descalças, conhecida como Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado e, popularmente, como Irmã Lúcia, Lúcia de Jesus dos Santos foi a autora do segredo de caráter profético, dividido em três partes, fruto das revelações feitas pela Virgem Maria. As duas primeiras partes – a visão do Inferno; a devoção ao Imaculado Coração de Maria e a conversão da Rússia – foram reveladas em 1941. No ano 2000 foi divulgada a terceira parte, que é uma visão profética, comparável às da Sagrada Escritura, que sintetiza e condensa, sobre a mesma linha de fundo, fatos que se prolongam no tempo, numa sucessão e duração não especificadas.

Cf. P.e LUÍS KONDOR (Compilação) & JOAQUÍN M. ALONSO (Introdução e notas), Memórias da Irmã Lúcia I, 13.ª ed., Fátima, Secretariado dos Pastorinhos, 2007, 238 pp.

Disponível online:

http://www.pastorinhos.com/_wp/wp-content/uploads/MemoriasI_pt1.pdf

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A Mensagem de Fátima.

Disponível online:

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html

 [3] Ver:

A terceira parte do segredo de Fátima foi divulgada publicamente, no Santuário de Fátima, pelo cardeal Angelo Sodano, secretário de Estado do Vaticano, em 13 de maio de 2000.

As teorias da conspiração, entretanto vindas a lume, defenderam a existência de censura do Vaticano à mensagem original, afirmando que o texto vindo a público se encontra truncado.

Em 21 de maio de 2016, a Sala de Imprensa da Santa Sé divulgou um comunicado em que se desmente que o cardeal Joseph Ratzinger tenha falado, alguma vez, com o Prof. Ingo Dollinger – a quem se atribuiu a autoria das declarações acerca da incompletude do “terceiro segredo de Fátima” entretanto publicado.

Cf. REDAÇÃO, “Comunicato: A Proposito Di Alcuni Articoli Relativi al ‘Terzo Segreto di Fatima’”, Vaticano, Bollettino – Sala Stampa della Santa Sede, 21.05.2016.

Disponível online:

http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2016/05/21/0366/00855.html#S

[4] Ver:

Depois de um exame minucioso de Maria Emília Santos, realizado em Roma sob a direção dos professores Machiarelli, Romanini e Santoro, foi reconhecida, por unanimidade, a cura desta mulher como inexplicável pela medicina, na reunião do Conselho médico da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos, presidida pelo professor Rafael Cortesini e realizada em 28 de janeiro de 1999. o caso foi seguidamente submetido a exame pelos consultores teológicos, em 7 de maio de 1999, e depois à opinião dos cardeais e bispos desta mesma Congregação, em sessão ordinária de 22 de junho de 1999, em ambos os casos com re[s]posta afirmativa sobre o fato de saber se se tratava de um milagre divino. Finalmente, o decreto da S. Congregação para a causa dos Santos, reconhecendo a cura de Maria Emília Santos como milagre de Deus obtido pela intercessão dos dois pastorinhos de Fátima, foi promulgado, por ordem do Santo Padre, em 28 de junho de 1999. Este decreto possibilitou a beatificação das duas crianças que, assim, vão tornar-se os bem-aventurados mais jovens da história moderna da Igreja. Este título pertencia anteriormente a São Domingos Sávio, que morreu pouco antes de fazer 15 anos.

[5] Ver:

JOAQUIM DOMINGUES, “Visão Messiânica do Advento da República”, Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, Faculdade de Filosofia, Tomo XLVI, Fasc. 4, X-XI.1990, pp. 479-512.

 

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Consistório Aprova a Canonização dos Pastorinhos de Fátima

Três Pastorinhos

J. M. de Barros Dias

O papa Francisco convocou um Consistório Ordinário Público[1], realizado no Palácio Apostólico do Vaticano, em 20 de abril, no qual os cardeais secundaram a canonização de dois dos videntes de Fátima. De entre as cinco causas de canonização pendentes de aprovação pelos cardeais[2], a mais preeminente foi a de Francisco e Jacinta Marto, duas das três crianças que testemunharam, em 1917, as aparições marianas da Cova da Iria, paróquia de Fátima. A aprovação cardinalícia foi o passo final no processo que teve início em 1950 e que conduzirá à canonização dos pastorinhos portugueses. O papa canonizará os videntes no dia 13 de maio, durante a sua visita apostólica ao maior Santuário mariano da Europa, o Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, a realizar por ocasião do 100.º aniversário das aparições que ali tiveram lugar.

Se o milagre que levou à beatificação de Jacinta (1910-1920) e Francisco (1908-1919), atribuído à intercessão dos dois irmãos, foi reconhecido em 22 de junho de 1999[3], aquele que abriu o caminho para a canonização foi reconhecido em 23 de março passado. Ele diz respeito a uma criança brasileira, que, na época, tinha seis anos. Na altura, a criança brincava com a irmã, em casa do avô, “quando caiu por acidente de uma janela de cerca sete metros de altura, sofrendo um grave traumatismo crânio-encefálico, com a perda de material cerebral”. Em coma, a criança foi operada de emergência. Se sobrevivesse, ela “viveria em estado vegetativo ou, no máximo, com graves deficiências cognitivas”. Contudo, inexplicavelmente, “após três dias, a criança recebeu alta, não sendo constatado nenhum dano neurológico ou cognitivo”. Mais tarde, no dia “2 de fevereiro de 2007, uma equipe médica deu parecer positivo unânime sobre o caso, como ‘cura inexplicável do ponto de vista científico’”. De acordo com informações agora divulgadas pela Rádio Vaticano, “no momento do incidente, o pai da criança havia invocado Nossa Senhora de Fátima e os dois pequenos beatos. Na mesma noite, os familiares e uma comunidade de irmãs de clausura haviam rezado com insistência, pedindo a intercessão dos pastorzinhos de Fátima”.

Jacinta e Francisco, beatificados por São João Paulo II em 13 de maio de 2000, são os mais jovens não mártires da história da Igreja Católica a alcançar os altares mundiais. Os dois irmãos, juntamente com a prima, Lúcia dos Santos, pastores nos campos de Fátima, distrito de Leiria, testemunharam as aparições de Maria. Durante a primeira aparição, que ocorreu em 13 de maio de 1917, Nossa Senhora pediu às crianças para rezarem e fazerem sacrifícios, oferecendo-os pela conversão dos pecadores. Em outubro de 1918, Jacinta e Francisco ficaram gravemente doentes com Gripe Espanhola. Nossa Senhora apareceu-lhes, tendo afirmado que os levaria para o Céu brevemente. Francisco faleceu em 4 de abril de 1918 e Jacinta em 20 de fevereiro de 1920. A causa da canonização da terceira vidente de Fátima, Lúcia[4], que viveu até aos 97 anos, está atualmente em curso. O Vaticano encontra-se a examinar informações sobre a sua vida, que foram coletadas ao longo dos últimos oito anos, quando a causa foi oficialmente aberta.

Jacinta e Francisco se inserem num espaço simbólico que é muito superior ao território e à dimensão econômica do país em que nasceram, viveram e morreram. Para a Igreja Católica, eles passarão a integrar o grupo dos Beatos e Santos portugueses[5] que, juntamente com o legado do Papa João XXI e de um conjunto de místicos e teólogos no qual se destacam Santo António de Lisboa, Frei Álvaro Pais, o padre Teodoro de Almeida, Manuel do Cenáculo Vilas-Boas e frei Bernardo Vasconcelos, constituem modelos de valores e fontes de inspiração para cada fiel. A partir de sua canonização, as virtudes de Jacinta e Francisco, iluminantes desde Fátima, poema do mundo[6], serão exemplos para os católicos de todo o mundo.

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Imagem:

Lúcia dos Santos com os seus primos Francisco e Jacinta Marto, os três pastorinhos de Fátima.

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Fontes consultadas:

 [1] Ver:

“Cân. 353.

[…]. § 2. Para o consistório ordinário, são convocados todos os Cardeais, pelo menos os que se encontram em Roma, para consulta sobre algumas questões graves, de ocorrência mais frequente, ou para a celebração de atos muito solenes.”, AAVV (Notas, comentários e índice analítico pelo Pe. Jesús Hortal, SJ), Código de Direito Canônico, 22.ª ed. revista e ampliada, São Paulo, Edições Loyola Jesuítas, 2013, trad. do latim pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, p. 189.

[2] Ver:

Além das crianças de Fátima, as outras causas de canonização examinadas pelo Consistório foram as de Cristóbal, Antonio, e Juan, jovens mártires do México, em 1529; Fr. Faustino Míguez, o padre espanhol que fundou o Instituto Calasanziano das Filhas da Divina Pastora; Fr. Angelo da Acri, um padre capuchino italiano, pregador na Itália meridional, que morreu em outubro de 1739; Fr. Andrea de Soveral, Fr. Ambrogio Francesco Ferro, Matteo Moreira, e os seus 27 companheiros, mártires em Natal, Brasil, em 1645.

Cf. REDAÇÃO, “Consistory Announced to Approve Fatima Children’s Canonization”, Catholic News Agency, Denver, CO, 11 de abril de 2017.

Disponível online:

http://www.catholicnewsagency.com/news/consistory-announced-to-approve-fatima-childrens-canonization-56451/?platform=hootsuite

[3] Ver:

Depois de um exame minucioso de Maria Emília Santos, realizado em Roma sob a direção dos professores Machiarelli, Romanini e Santoro, foi reconhecida, por unanimidade, a cura desta mulher como inexplicável pela medicina, na reunião do Conselho médico da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos, presidida pelo professor Rafael Cortesini e realizada em 28 de janeiro de 1999. o caso foi seguidamente submetido a exame pelos consultores teológicos, em 7 de maio de 1999, e depois à opinião dos cardeais e bispos desta mesma Congregação, em sessão ordinária de 22 de junho de 1999, em ambos os casos com re[s]posta afirmativa sobre o fato de saber se se tratava de um milagre divino. Finalmente, o decreto da S. Congregação para a causa dos Santos, reconhecendo a cura de Maria Emília Santos como milagre de Deus obtido pela intercessão dos dois pastorinhos de Fátima, foi promulgado, por ordem do Santo Padre, em 28 de junho de 1999. Este decreto possibilitou a beatificação das duas crianças que, assim, vão tornar-se os bem-aventurados mais jovens da história moderna da Igreja. Este título pertencia anteriormente a São Domingos Sávio, que morreu pouco antes de fazer 15 anos.

[4] Ver:

Freira da Ordem das Carmelitas Descalças, conhecida como Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado e, popularmente, como Irmã Lúcia, Lúcia de Jesus dos Santos (1907-2005) escreveu um segredo de caráter profético, dividido em três partes, fruto das revelações feitas pela Virgem Maria. As duas primeiras partes – a visão do Inferno; a devoção ao Imaculado Coração de Maria e a conversão da Rússia – foram reveladas em 1941. No ano 2000 foi divulgada a terceira parte, que é uma visão profética, comparável às da Sagrada Escritura, que sintetiza e condensa sobre a mesma linha de fundo fatos que se prolongam no tempo, numa sucessão e duração não especificadas.

Vide P.e Luís Kondor (Compilação) & Joaquín M. Alonso (Introdução e notas), Memórias da Irmã Lúcia I, 13.ª ed., Fátima, Secretariado dos Pastorinhos, 2007, 238 pp.

Disponível online:

http://www.pastorinhos.com/_wp/wp-content/uploads/MemoriasI_pt1.pdf

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A Mensagem de Fátima.

Disponível online:

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html

[5] Ver:

a)Beatos:

Beata Sancha de Portugal; Beata Mafalda de Portugal e Beata Teresa de Portugal; Beato Frei Gil; Beato Amadeu da Silva; Beato Gonçalo de Amarante; Beato Gonçalo de Lagos; Beato Fernando, o Infante Santo; Beata Joana Princesa; Beato Vicente de Santo António; Beato João Baptista Machado; Beato Frei Bartolomeu dos Mártires; Beato Inácio de Azevedo e os Quarenta Mártires do Brasil; Beato Miguel de Carvalho; Beatos Domingos Jorge, Isabel Fernandes e Inácio Jorge; Beato Diogo de Carvalho; Beata Maria do Divino Coração Droste zu Vischering; Beata Rita Amada de Jesus; Beata Alexandrina Maria da Costa; Beata Beata Maria Clara do Menino Jesus; Beato Francisco Pacheco.

b)Santos:

São Teotónio; Santo António de Lisboa; os Mártires de Marrocos (Vital, Berardo, Otão, Pedro, Acúrsio e Adjuto); São Gualter; Rainha Santa Isabel; São Nuno de Santa Maria Álvares Pereira; Santa Beatriz da Silva; São João de Deus; São Gonçalo; São Lourenço de Brindisi; São João de Brito.

[6] Ver:

Cf. ANTÓNIO BOTTO, Fátima, nova edição, Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2008, 76 pp.

O Papa Francisco Ante a III Guerra Mundial em Fragmentos

Pope Francis

J. M. de Barros Dias

Se, no mundo em que vivemos, a dimensão dos direitos se sobrepôs à esfera dos deveres, outro tanto aconteceu com a tecnologia, que passou a dominar campos significativos da atuação humana. Por outro lado, o crescimento desenfreado da globalização substituiu, em boa medida, a noção de “fronteiras geográficas” por outra, nova em termos vivenciais. Nos referimos às  “fronteiras da segurança” que são, também, a expressão de um sistema mundial violento, inseguro e instável.

O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito papa em 2013, em circunstâncias inusitadas relativamente ao padrão dos últimos séculos. Já doente, em janeiro de 2000, às vésperas de cumprir 80 anos, São João Paulo II declarou indiretamente que não há papas aposentados[1], situação que seu sucessor, o papa Bento XVI, desmentiu, ao renunciar ao pontificado em 28 de fevereiro de 2013.

Em 18 de agosto de 2014, durante a viagem de regresso da Coreia do Sul, a caminho de Roma, Francisco referiu que estamos vivendo “a Terceira Guerra Mundial, mas em fragmentos”. Atualmente, disse ele, os conflitos armados atingem “um nível de crueldade espantoso”. Mostrando-se contrário aos bombardeamentos levados a cabo pelos Estados Unidos, para destruir rebeldes do Estado Islâmico, o sumo pontífice referiu: “Quando há uma agressão injusta, posso dizer que é lícito parar o agressor. Mas ressalto o verbo parar, porque isso não significa bombardear ou fazer uma guerra”. Tendo como pano de fundo para sua análise os conflitos em África, na Faixa de Gaza, na Península da Coreia, e as crises na Síria e no Iraque, o papa considerou que, hoje em dia, “a tortura se tornou quase um meio ordinário. Esses são os frutos da guerra. Estamos em guerra, há a Terceira Guerra Mundial, mas em fragmentos”.

Um mês mais tarde, em 13 de setembro, no Cemitério Austro-Húngaro de Fogliano di Redipuglia, na Itália, Francisco, para quem “a guerra é uma loucura”, evocou naquela oportunidade o início da I Guerra Mundial, em 1914, dizendo: “Hoje, depois do segundo fracasso de outra guerra mundial, talvez se possa falar de uma terceira guerra combatida ‘por partes’, com crimes, massacres, destruições…”. Durante a homilia celebrada no Monumento Militar de Redipuglia, o Papa referiu: “Aqui e no outro cemitério há muitas vítimas. E desde aqui recordamos as vítimas de todas as guerras. Também hoje há muitas vítimas. Como é que isto é possível. É possível porque também hoje, na sombra, há interesses, estratégias, geopolíticas, cobiça de dinheiro e de poder, e exista a indústria armamentista, que parece ser tão importante”.

No dia 6 de junho de 2015, durante a viagem apostólica à cidade mártir de Sarajevo, capital da Federação da Bósnia e Herzegovina, o papa Francisco, tendo presente a Guerra Civil que, entre 1992 e 1995, fez cem mil mortos, lançou um alerta: “No nosso tempo, a aspiração pela paz e o compromisso de a construir colidem com o facto dos numerosos conflitos armados existentes no mundo. É uma espécie de terceira guerra mundial travada ‘aos pedaços’; e, no contexto da comunicação global, sente-se um clima de guerra”. Em nossos dias, lembrou, “há quem queira deliberadamente criar e fomentar este clima, de modo particular aqueles que procuram o conflito entre culturas e civilizações diferentes e também quantos, para vender armas, especulam sobre as guerras. Mas a guerra significa crianças, mulheres e idosos nos campos de refugiados; significa deslocamentos forçados; significa casas, estradas, fábricas destruídas; significa sobretudo tantas vidas destroçadas”.

Na chegada a Cuba, em 20 de setembro de 2015, no Aeroporto José Martí, em Havana, o Papa, sublinhando que, “geograficamente, Cuba é um arquipélago que abre para todas as rotas, possuindo um valor extraordinário de ‘chave’ entre norte e sul, entre leste e oeste. A sua vocação natural é ser ponto de encontro para que todos os povos se reúnam na amizade”, enfatizou que “o mundo precisa de reconciliação, nesta atmosfera de III Guerra Mundial por etapas que estamos a viver”. Um ano mais tarde, em 27 de julho de 2016, o padre Jacques Hamel foi degolado, em Saint-Étienne-du-Rouvray, Normandia, norte de França, por dois insurgentes ligados ao Estado Islâmico, quando celebrava missa matinal. Comentando o ocorrido a bordo do avião que o conduzia a Kraków, Polônia, o líder da Igreja Católica afirmou: “A palavra que está sendo repetida frequentemente é insegurança, mas a palavra real é guerra.

 Vamos reconhecê-lo. O mundo está em estado de guerra em pedaços.

Agora há esta (guerra). Talvez não seja orgânica mas é organizada e é guerra.

Não devemos ter receio de falar esta verdade. O mundo está em guerra porque perdeu a paz”. Para o papa Francisco, “[esta] não é uma guerra da religião. Esta é uma guerra de interesses. Esta é uma guerra pelo dinheiro. Esta é uma Guerra pelos recursos naturais. Esta é uma guerra pela dominação dos povos. Isto é a guerra”. Em contrapartida, para o Vigário de Cristo, “todas as religiões querem paz. Outros querem guerra”.

Na entrevista a Francisco, publicada pelo semanário belga Tertio em 7 de dezembro de 2016, se referindo à proposta “nunca mais a guerra”, lemos as declarações do papa sobre o assunto: “Eu penso que ‘Nunca mais a guerra’ não foi levado a sério, porque depois da primeira Guerra a segunda veio e depois da segunda esta terceira guerra que agora estamos vivendo em pedaços, em pedacinhos. O mundo está empenhado na III Guerra Mundial: Ucrânia, Oriente Médio, Iémen…”. Deste modo, referiu o papa, isto “é muito sério. Então, ‘guerra nunca mais’ sai da boca mas, entretanto, nós manufaturamos armas, e vendêmo-las, e vendêmo-las a nossos adversários, porque o mesmo fabricante de armas as vende a este, e àquele, que está em guerra com o outro. Isto é verdade. Há uma teoria econômica, que eu nunca tentei verificar, mas sobre a qual eu li em diversos livros: na história da Humanidade, quando o Estado verificava que seus Balanços não estavam certos, criava a guerra e equilibrava seus balanços. Quer dizer, esta é uma das maneiras mais fáceis de criar riqueza. Claro que o preço é muito caro: sangue”.

Este ano, ao falar em 24 de fevereiro de 2017, no Seminário “O Direito Humano à Água: Um Estudo Interdisciplinar sobre o Papel Central das Políticas Públicas na Gestão da Água e dos Serviços Ambientais”, promovido pela Pontifícia Academia para as Ciências, o Papa centrou a problemática do acesso à água potável segura como a causa provável de um conflito bélico generalizado. Ele começou seu discurso afirmando que a água “é ‘criatura útil, pura e humilde’, fonte de vida e de fecundidade (cf. São Francisco de Assis, Cântico das Criaturas). Por este motivo, a questão que tratais não é marginal, mas fundamental e muito urgente. Fundamental porque onde há água há vida, e então a sociedade pode formar-se e progredir. E urgente porque a nossa casa comum tem necessidade de tutela e, além disso, que se compreenda que nem toda a água é vida: somente a água segura e de qualidade – prosseguindo com a figura de São Francisco: a água ‘que serve com humildade’, a água ‘pura’, não poluída”. Na Casina Pio IV, no Vaticano, onde teve lugar o evento, Francisco, que referiu o direito à água como determinante para a sobrevivência das pessoas[2], questionou “se, no meio desta ‘terceira guerra mundial em pedaços’, que hoje estamos a viver, não caminhamos porventura rumo à grande guerra mundial pela água”.

Se vivemos, atualmente, uma época repleta de possibilidades de comunicação interpessoal e de realização global, também é certo que as ameaças a todos nós são, cada vez, mais ameaçadoras. Regiões como a Coreia do Norte, o Mar do Sul da China, o subcontinente indiano, o Oriente Médio e a Ucrânia constituem a demonstração de que, hoje em dia, não há vontade significativa para o estabelecimento da distensão entre adversários que consolidaram suas posições antagônicas. O papa Francisco, que defende a promoção de uma cultura do encontro, tem se referido à III Guerra Mundial em fragmentos para denunciar a naturalização da guerra, defendida pelos pensadores e estrategistas de orientação realista, herdeiros teóricos de Carl Von Clausewitz: “A guerra é a continuação da política por outros meios”[3].

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 Imagem:

Papa Francisco.

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 Fontes consultadas:

 [1] Ver:

Em início do ano 2000, o então presidente da Conferência Episcopal da Alemanha, bispo Karl Lehmann, sugeriu que o papa, afetado pela doença de Parkinson, deixasse o cargo por motivos de saúde. Naquela ocasião, Vittorio Messori, um intelectual católico, numa entrevista concedida ao jornal La Stampa, declarou que “o papa ‘vive um drama há algum tempo’, pois se questiona se deve continuar guiando a Igreja ou se deve renunciar ao Pontificado”.

Respondendo implicitamente a Karl Lehmann e a Vittorio Messori, João Paulo II afirmou, no discurso proferido em 10 de janeiro de 2000, ante os membros do Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé: Deus “nunca pede algo acima das nossas forças. Ele mesmo nos dá a força para realizarmos o que espera de nós”.

[2] Ver:

Ao denunciar a exclusão de setores amplos da Humanidade no tocante ao acesso à água, o papa afirmou: “Os números que a Organização das Nações Unidas revelam são impressionantes e não nos podem deixar indiferentes: mil crianças morrem cada dia por causa de doenças ligadas à água; milhões de pessoas bebem água poluída. Trata-se de dados muito graves; é preciso impedir e inverter esta situação. Ainda não é tarde, mas é urgente que nos tornemos conscientes da necessidade da água e do seu valor essencial para o bem da humanidade.

[3] Ver:

CARL VON CLAUSEWITZ (Ensaios introdutórios de Peter Paret, Michael Howard e Bernard Brodie, com um comentário de Bernard Brodie), Da Guerra, trad. para o inglês por Michael Howard e Peter Paret – trad. do inglês para o português por Luiz Carlos Nascimento e Silva do Vale, pp. 70, 91 e 764.

Disponível online:

https://www.egn.mar.mil.br/arquivos/cepe/DAGUERRA.pdf

 

A Rejeição, Pelo Papa Francisco, de Um Mundo Povoado por Muros

Muro na Fronteira de Tijuana

J. M. de Barros Dias

O mundo que emergiu da crise financeira que despoletou em 2008 é, em suas traves-mestras, mais protecionista do que aquele em que vivemos ao longo das décadas anteriores. Se, recentemente, o jornal El Periódico inventariava em 80 a quantidade de muros construídos entre diferentes países do mundo, ao nível das mentalidades o panorama não é diferente. Neste sentido, a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, tem servido como catalizador de uma onda xenófoba que, ao longo das últimas décadas, não tem paralelo.

O papa Francisco, na audiência levada a cabo no dia 25 de fevereiro, na Sala dos Papas, do Vaticano, ao receber a Delegação Católica para a Cooperação, da Conferência Episcopal Francesa, por ocasião da peregrinação realizada com ensejo do cinquentenário de sua fundação, lançou um novo apelo para a construção de pontes “num mundo em que ainda se levantam numerosos muros por causa do medo do próximo”. Tendo presente a Igreja em saída[1], por si publicitada em diversas oportunidades, Francisco sublinhou a necessidade de uma Igreja Católica “que se torna próxima das pessoas em condições de sofrimento, de precariedade, de marginalização e de exclusão”. Centrado na Carta Encíclica Populorum Progressio, do beato Paulo VI, que preconiza que “o desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento econômico”, Francisco salientou que são os voluntários que tornam “visível uma Igreja pobre com e para os pobres, uma Igreja em saída, que se torna próxima das pessoas em condições de sofrimento, de precariedade, de marginalização e de exclusão”.

Encorajando os membros da Delegação Católica para a Cooperação a desenvolverem uma cultura da misericórdia, o Sumo Pontífice defendeu, a partir do exposto na Carta Apostólica Misericordia et Misera, o aprofundamento do encontro de cada um com os outros: “Uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos”, fazendo de cada um com quem depara, ao longo da vida, alguém intrinsecamente valioso e, portanto, digno da máxima consideração. Se, em estritos termos econômicos, para Francisco, a partir do Evangelho de São Marcos, “o sábado foi feito para o homem[2], e não o contrário, em termos amplos todos temos, ante nós, o seguinte desafio: “Proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projecto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado[3].

Cumpridos quatro anos de seu ministério petrino, o papa Francisco tem sido inequívoco em suas linhas de atuação. É a pessoa, não os mercados, o centro de suas preocupações; é o entendimento entre os diferentes povos e não o nacionalismo exacerbado – do qual decorre a III Guerra Mundial em fragmentos[4] – que serve de orientação ao sumo pontífice argentino. Apesar da oposição, no seio do próprio Vaticano, Francisco tem sido fiel à linha de rumo que traçou, logo em 2013, aquando da sua eleição. Ela diz respeito ao Encontro que os seres humanos devem estabelecer, entre si, e não aos muros criados, sobretudo, a partir da economia e da política, assumidos como ilusões sociais, tidas por necessárias.

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Imagem:

O muro na fronteira de Tijuana, México e San Diego. As cruzes representam os migrantes que morreram quando tentavam cruzar a fronteira. A torre de vigilância está em segundo plano.

(Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mexico%E2%80%93United_States_barrier#/media/File:Border_Wall_at_Tijuana_and_San_Diego_Border.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

Sendo uma das primeiras propostas do atual sumo pontífice, ela tem como ponto de partida o Livro do Gênesis: “Deixa o teu país, tua parentela e a casa de teu pai e vai para o país que te mostrarei” (Gn 12,1). Por outro lado, no Livro do Êxodo, Moisés escuta a chamada: “Vai! Eu te envio” (Ex 3,10), tendo dito aos profetas, como a Ezequiel, “Filho do homem, Eu te envio aos filhos de Israel” (Ez 2,3) e a Jeremias: “Irás onde eu te enviar” (Jr 1,7).

No âmbito do pontificado de Francisco, a Igreja em saída está presente, pela primeira vez, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.

Cf. FRANCISCO, Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho, 5.ª ed., São Paulo, Paulus Editora – Edições Loyola Jesuítas, 2915, trad. do italiano, § 20-23.

A versão online do documento, em português europeu, está disponível em:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html

[2] Ver:

Mc 2,27.

[3] Ver:

PAPA FRANCISCO, Carta Encíclica Laudato Si’ do Santo Padre Francisco sobre o Cuidado da Casa Comum, Vaticano, Libreria Editrice Tipografia Vaticana, 2015, 192 pp.

No Brasil, duas editoras deram a conhecer a Encíclica: PAPA FRANCISCO, Laudato Si’. Sobre o Cuidado da Casa Comum, São Paulo, Paulinas, 2015, trad. do italiano, 197 (3) págs.; FRANCISCO, Laudato Si’. Louvado Sejas. Sobre o Cuidado da Casa Comum, São Paulo, Paulus Editora – Edições Loyola Jesuítas, 2015, trad. do italiano, 142 pp.

A versão online do documento, em português europeu, está disponível em:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

[4] Ver:

O papa Francisco se referiu, até hoje, à III Guerra Mundial “fragmentada” nas seguintes ocasiões:

a) 18 de agosto de 2014, durante a viagem de regresso da Coreia do Sul.

Ver:

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2014/08/18/vivemos-a-3-guerra-mundial-diz-papa-francisco.htm

b) 13 de setembro de 2014, no Cemitério Militar de  Redipuglia, na Itália.

Ver:

http://www.bbc.com/news/world-europe-29190890

c) 6 de junho de 2015, durante a viagem apostólica a Sarajevo, capital da Federação da Bósnia e Herzegovina

Ver:

http://pt.euronews.com/2015/06/06/papa-francisco-evoca-especie-de-3-guerra-mundial/

d) 20 de setembro de 2015, no início da viagem apostólica a Cuba. 

Ver:

http://www.dn.pt/globo/interior/papa-pede-reconciliacao-nesta-atmosfera-de-terceira-guerra-mundial-que-vivemos-4787708.html

e) 27 de julho de 2016, declarações proferidas após o assassinato do padre Jacques Hamel, em Saint-Étienne-du-Rouvray, Normandia, norte de França, por dois insurgentes ligados ao Estado Islâmico.

Ver:

http://www.express.co.uk/news/world/693980/pope-world-war-France-church-terror-attack-priest

f) 7 de dezembro de 2017, entrevista ao jornal semanário belga Tertio.

Ver:

https://zenit.org/articles/popes-interview-with-belgian-weekly-newspaper-tertio/

g) 24 de fevereiro de 2017, no Seminário “O Direito Humano à Água: Um Estudo Interdisciplinar sobre o Papel Central das Políticas Públicas na Gestão da Água e dos Serviços Ambientais”.

Ver:

http://www.huffpostbrasil.com/2017/02/25/aqui-esta-o-motivo-que-pode-gerar-uma-terceira-guerra-mundial-s_a_21721574/

 

A Demissão do Grão-Mestre da Ordem Soberana e Militar de Malta

frei-matthew-festing

J. M. de Barros Dias

Fundada em inícios do século XII, por Gérard Tum, a partir de um albergue para recolha de peregrinos, pertencente a mercadores da República Marítima de Amalfi, às portas de Jerusalém, a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários foi reconhecida, pelo papa Pascoal II, em 1113, através da Bula Piæ Postulatio Voluntatis. Ela é, atualmente, uma Ordem de leigos católicos de natureza militar, cavalheiresca e nobre. Hoje em dia, a Ordem tem cerca de 13.500 membros, cavaleiros e damas, tal como os membros auxiliares: 80.000 voluntários permanentes, assim como 20.000 integrantes do corpo clínico, incluindo médicos, enfermeiras, auxiliares e paramédicos, presentes em 54 países[1]. Sob o ponto de vista jurídico, a Ordem “é um sujeito de direito internacional e exerce funções soberanas”[2], tendo relações bilaterais com 106 países e a União Europeia. Ela tem o estatuto de observador permanente das Nações Unidas e assinou Acordos de Cooperação internacional com 50 Estados, “para facilitar suas atividades humanitárias, permitindo e protegendo o acesso irrestrito, especialmente às regiões em crise”.

Em dezembro de 2016, o príncipe e grão-mestre da Ordem, frei Robert Matthew Festing, demitiu o grão-chanceler, Albrecht Von Boeselager, que servia no cargo desde 2014 e que foi acusado de ter autorizado a distribuição de preservativos para evitar a propagação do HIV/AIDS em três missões humanitárias da Ordem Soberana e Militar de Malta na Birmânia, ou Myanmar, pondo em causa a doutrina católica sobre a contracepção. Naquela ocasião, Von Boeselager negou as acusações de tibieza, tendo recusado a abandonar o cargo que ocupava, “argumentando que suspendeu os programas assim que descobriu que estavam a ser distribuídos preservativos”. Segundo informações, Festing terá dito que a demissão de Boeselager correspondia à vontade do papa Francisco. Após a demissão de Von Boeselager, o papa criou uma comissão composta por cinco membros[3], destinada a informar o sumo pontífice sobre a crise na direção central da Ordem, tendo a instituição manifestado sua oposição à investigação levada a cabo por uma comissão externa. Numa carta datada de 14 de janeiro, frei Matthew Festing assegurou que a composição da comissão da Santa Sé havia suscitado sérias dúvidas, incluindo a acusação de um conflito de interesses por parte de, pelo menos, três dos seus membros com ligação a um fundo de investimentos, de Genebra, que o Vaticano e a Ordem Soberana e Militar de Malta integram[4]. Anteriormente, numa declaração divulgada no dia 10, Festing considerara a comissão papal como sendo “irrelevante”. No mesmo documento, o grão-mestre afirmou que “a Ordem decidiu não cooperar com ela”. Dias mais tarde, em 17 de janeiro, o Vaticano reiterou sua confiança nos membros da comissão, tendo declarado estar a aguardar o resultado dos trabalhos “a fim de adoptar, no âmbito da sua competência, as decisões mais adequadas para o bem da Soberana Ordem Militar de Malta e da Igreja”.

O pano de fundo desta crise sem precedentes no seio da Ordem Soberana e Militar de Malta se insere na confrontação entre a vontade reformista do sumo pontífice e os conservadores da Igreja Católica, liderados pelo cardeal protetor da Ordem de Malta, Raymond Burke. Conforme analisámos em ocasião anterior, o embate tomou corpo após a publicação, por Francisco, da exortação apostólica Amoris Lætitia[5] – A Alegria do Amor –, escrita na sequência dos Sínodos dos Bispos sobre a Família, realizados em 2014 e 2015. Contudo, alguns meses mais tarde, 4 cardeais – Walter Brandmüller; Joachim Meisner; Carlo Cafarra; e Raymond Leo Burke –, num gesto inusual, que foi interpretado como um sinal de dissidência, escreveram uma carta ao papa Francisco, solicitando esclarecimentos acerca do conteúdo de Amoris Lætitia[6].

No dia 24 de janeiro, a pedido do vigário de Cristo, o grão-mestre da Ordem Soberana e Militar de Malta apresentou a sua demissão. Reunido, em audiência com o Papa, frei Matthew Festing, foi aconselhado, por Francisco, a abandonar o cargo que ocupava que, salvo exceções raríssimas, foi desempenhado até hoje de maneira vitalícia[7]. Se, alegadamente, o Grão-Mestre afirmou que o pedido de demissão de Albrecht Von Boeselager teve por base um pedido papal, a Santa Sé manifestou suas reservas relativamente ao processo. Cartas entre a Secretaria de Estado da Santa Sé e a Ordem, dadas a conhecer publicamente, sublinham que Francisco não tinha pedido a demissão de ninguém, preferindo que o assunto fosse resolvido internamente. Em 25 de janeiro, o papa aceitou a demissão do Grão-Mestre[8], tendo nomeado um delegado pontifício, o arcebispo Giovanni Angelo Becciu, para assumir as funções de Frei Matthew Festing até à realização do Capítulo extraordinário da Ordem que elegerá o substituto de Festing. Além das funções para que foi nomeado, Becciu foi chamado a cuidar “de tudo aquilo que diz respeito à renovação espiritual e moral da Ordem, especialmente dos membros professos, para que seja plenamente realizada a finalidade ‘de promover a glória de Deus mediante a santificação dos membros, o serviço à Fé e ao Santo Padre e a ajuda ao próximo’, como se lê na Carta Constitucional”.

As reformas da Igreja Católica, propostas por Francisco, têm causado forte oposição, no Vaticano e na própria Igreja. A Ordem Soberana e Militar de Malta acaba de se tornar o alvo mais recente numa contenda que já saiu dos muros da Cidade do Estado do Vaticano. Se, em termos de aceitação popular, o papa atual merece o aplauso incontestável das multidões, no seio de setores significativos da hierarquia católica e, mesmo, dos fiéis mais conservadores, essa atitude não se verifica. A contenda entre o vigário de Cristo e aqueles que se lhe opõem, na Igreja que ele lidera, está na praça pública. Neste contexto, mesmo o capital simbólico da Ordem Soberana e Militar de Malta, um Estado soberano, de pouco serviu em face de um conflito que expressa, em sua plenitude, o espírito de um tempo caracterizado, em boa medida, pela plenitude dos valores à deriva.

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Imagem:

Frei Matthew Festing (Merton College Chapel, Oxford, Inglaterra, 2010).

(Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/32/Grand_Master_Matthew_Festing_20100409.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.orderofmalta.int/faq/26466/faq/?lang=en

[2] Ver:

Carta Constitucional da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém de Rodes e de Malta, Art. 3, § 1, in CONDE DE ALBUQUERQUE (Prefácio de Pedro Soares Martínez), Ordem Soberana e Militar de Malta. Colectânea de Legislação, Lisboa, ACD Editores, 2006, pág. 34.

[3] Ver:

As personalidades que integram a comissão são o arcebispo Silvano M. Tomasi, antigo representante do Vaticano junto das agências das Nações Unidas em Genebra; o padre Gianfranco Ghirlanda, antigo reitor da Universidade Pontifícia Gregoriana; Jacques de Liedekerke, ex-chanceler da Ordem Soberana e Militar de Malta; Marc Odendall. conselheiro da Ordem Soberana e Militar de Malta; Marwan Sehnaoui, presidente da Ordem Soberana e Militar de Malta no Líbano.

Cf. JUNNO AROCHO ESTEVES & CINDY WOODEN, “Order of Malta Questions Legitimacy of Commission Established by Pope”, Washington DC, Catholic News Service, 11 de janeiro de 2017.

Disponível online:

http://www.catholicnews.com/services/englishnews/2017/order-of-malta-questions-legitimacy-of-commission-established-by-pope.cfm

[4] Ver:

Carta de frei Matthew Festing aos Membros do Conselho Soberano, e outros, Roma, 14 de janeiro de 2017.

https://pt.scribd.com/document/336716070/A-Letter-From-H-M-E-H-the-Prince-and-Grand-Master-14-01-2017

[5] Ver:

PAPA FRANCISCO, Amoris Lætitia – A Alegria do Amor. Sobre o Amor na Família, São Paulo, Edições Loyola Jesuítas, 2016, 187 págs. [Texto oficial da CNBB para o português do Brasil].

Disponível online:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html

[6] Ver:

A carta foi originalmente divulgada pelo vaticanista Sandro Magister, em seu sítio web:

A Sua Santidade Padre Francisco e com conhecimento de Sua Eminência Cardeal Gerhard L. Müller

Santo Padre,

No seguimento da publicação da Vossa Exortação Apostólica ‘Amoris Laetitia’,  teólogos e estudiosos propuseram interpretações não só divergentes, mas também contrastantes, sobretudo no que respeita ao Capítulo VIII. Além do mais, os meios de comunicação têm vindo a pôr em realce esta disputa, provocando incerteza, confusão e desorientação entre muitos dos fiéis.

Por isso, chegaram-nos, a nós que nos subscrevemos, como também a muitos Bispos e Presbíteros, numerosos pedidos da parte de féis pertencentes a diversas condições sociais, a respeito da correta interpretação a dar ao Capítulo VIII da Exortação.

Assim, movidos em consciência pela nossa responsabilidade pastoral, e desejando praticar sempre melhor aquela mesma sinoladidade a que Vossa Santidade nos exorta, permitimo-nos, com profundo respeito, vir pedir-Vos, Santo Padre, que, como Mestre Supremo da Fé, chamado pelo Ressuscitado a confirmar os irmãos na fé, dirimais as incertezas e crieis clareza, dando benevolamente resposta aos ‘Dubia’ que nos consentimos juntar à presente carta.

Possa Vossa Santidade abençoar-nos, deixando-Vos a nossa promessa de uma constante presença na nossa oração.

Card. Walter Brandmüller

Card. Raymond L. Burke

Card. Carlo Caffarra

Card. Joachim Meisner

Roma, 19 de Setembro de 2016”.

Os “Dubia” [do latim “Dúvidas”] apresentados pelos cardeais ao papa são os seguintes:

1. Pergunta-se se, de acordo com quanto se afirma em ‘Amoris Lætitia’ (nn. 300-305), se tornou agora possível conceder a absolvição no sacramento da Penitência, e, portanto, admitir à Sagrada Eucaristia uma pessoa que, estando ligada por vínculo matrimonial válido, convive ‘more uxorio’ (de modo marital) com outra, sem que estejam cumpridas as condições previstas por ‘Familiaris Consortio’, n. 84, e, entretanto, confirmadas por ‘Reconciliatio et Pænitentia’, n. 34, e por ‘Sacramentum Caritatis’, n. 29. Pode a expressão ‘em certos casos’ da nota 351 (n. 305) da exortação ‘Amoris Lætitia’ ser aplicada a divorciados com uma nova união que continuem a viver ‘more uxorio’?

2. Continua a ser válido, após a Exortação Apostólica Pós-Sinodal ‘Amoris Lætitia’ (cf. n. 304), o ensinamento da Encíclica de São João Paulo II ‘Veritatis Splendor’, n. 79, assente na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, acerca da existência de normas morais absolutas, válidas sem qualquer exceção, que proíbem atos intrinsecamente maus?

3. Depois de ‘Amoris Lætitia’ (n. 301) pode ainda afirmar-se que uma pessoa que viva habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como, por exemplo, aquele que proíbe o adultério (cf. Mt 19, 3-9), se encontra em situação objetiva de pecado grave habitual (cf. Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração de 24 de junho de 2000)?

4. Após as afirmações de ‘Amoris Lætitia’ (n. 302) acerca das ‘circunstâncias atenuantes da responsabilidade moral’, ainda se deve ter como válido o ensinamento da Encíclica de São João Paulo II ‘Veritatis Splendor’, n. 81, baseada na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, segundo a qual ‘as circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um ato intrinsecamente desonesto pelo seu objeto, num ato ‘subjetivamente’ honesto ou defensível como opção’?

5. Depois de ‘Amoris Lætitia’ (n. 303) ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II ‘Veritatis Splendor’, n. 56, baseada na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, que exclui uma interpretação criativa do papel da consciência e enfatiza que a consciência jamais está autorizada a legitimar exceções às normas morais absolutas que proíbem ações intrinsecamente más em virtude do seu objeto?

 [7] Ver:

“O Grão Mestre é eleito para toda a vida pelo Conselho Pleno de Estado por entre os Cavaleiros Professos, tendo o candidato pelo menos dez anos de Votos Solenes, se a sua idade for inferior a cinquenta anos. Para os Cavaleiros Professos de idade superior, membros da Ordem há mais de dez anos, são suficientes três anos de Votos Solenes.”, Carta Constitucional da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém de Rodes e de Malta, Art. 13, § 1, in CONDE DE ALBUQUERQUE (Prefácio de Pedro Soares Martínez), Ordem Soberana e Militar de Malta. Colectânea de Legislação, op. cit, pág. 39.

[8] Ver:

Ontem, 25 de janeiro de 2017, em audiência com o Santo Padre, Sua Alteza Frei Matthew Festing renunciou ao cargo de Grão-Mestre da Ordem Soberana e Militar de Malta.

Hoje, 25 de janeiro, o Santo Padre aceitou a sua demissão, expressando o apreço e a gratidão a Frei Festing pela sua lealdade e devoção ao Sucessor de Pedro, e sua disposição para servir humildemente o bem da Ordem e da Igreja.

A governança da Ordem será assumida, ad interim, pelo Grande Comandante até a nomeação do Delegado Papal.”

A Provação Derradeira da Igreja

apocalypse - 001

AAVV

Antes do advento de Cristo, a Igreja deve passar por uma provação final que abalará a fé de muitos  crentes. A perseguição que acompanha a peregrinação dela na terra desvendará o ‘mistério de iniquidade’, sob a forma de uma impostura religiosa que há de trazer aos homens uma solução aparente a seus problemas, à custa da apostasia da verdade. A impostura religiosa suprema é a do Anticristo, isto é, a de um pseudomessianismo em que o homem glorifica a si mesmo em lugar de Deus e de seu Messias que veio na carne.

Esta impostura anticrística já se esboça no mundo toda vez que se pretende realizar na história a esperança messiânica que só pode realizar-se para além dela, por meio do juízo escatológico: mesmo em sua forma mitigada, a Igreja rejeitou esta falsificação do Reino vindouro sob o nome de milenarismo, sobretudo sob a forma política de um messianismo secularizado, ‘intrinsecamente perverso’.

(Catecismo da Igreja Católica, § 575 e 676)

O Pensamento Econômico do Papa Francisco

Papa Francisco - 2013

J. M. de Barros Dias

Quando, em 15 de março de 2013, Jorge Mario Bergoglio foi eleito Papa, sucedendo a Bento XVI, o mundo se debatia com as consequências da crise econômica mundial que, desde 2008, assolou os países economicamente desenvolvidos e que, num breve período de tempo, alastrou a todo o planeta. Logo em sua primeira Exortação Evangélica, Evangelii GaudiumA Alegria do Evangelho –, o Papa Francisco deu o tom de seu Pontificado ao dizer “não a uma economia da exclusão e da desigualdade social”[1]. Tributário da doutrina social da Igreja, exposta em 1891 na Carta Encíclica Rerum Novarum[2], do Papa Leão XIII, mas também no cristianismo primitivo, o atual Sumo Pontífice encontra na pessoa humana a razão maior, ou trans-razão, e na dimensão econômica do agir humano, a razão menor, ou instrumental. Dito por outras palavras, em Francisco, na linha do Evangelho de São Marcos, “o sábado foi feito para o homem”[3] e não o contrário.

Jorge Mario Bergoglio é graduado e mestre em Química pela Universidade de Buenos Aires sendo, também, graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Buenos Aires. Ele não é, portanto, um economista. Contudo, a sensibilidade social do Papa argentino é manifestamente evidente, tanto em suas declarações públicas, quanto em seus documentos. Para Francisco, o primado das atividades humanas reside na pessoa, entendida como seu fim e significado último, e não no capital. Deste modo, segundo Francisco, se “hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco”[4], não é moralmente tolerável, em nossos dias, “que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social”[5]. É preciso termos presente aquele que, para o Papa, é o ponto de partida para seu posicionamento econômico. Ele é de índole ético-moral e não mercadológico. O âmago do problema, relativamente à economia atual ocorre, para o Sumo Pontífice, “quando o dinheiro, em vez do homem, está no centro do sistema, quando o dinheiro se torna ídolo, homens e mulheres são reduzidos a simples instrumentos do sistema econômico e social”[6].

No grupo dos autores que mais influenciaram a formação do pensamento econômico do Papa Francisco encontramos o economista e historiador social Karl Polanyi, que “toma o ponto de vista católico e cristão para fazer sua análise econômica, por exemplo, quando fala do mundo satânico, ou dos mandos e danos provocados pela tentativa de fazer com que a sociedade se mova de acordo com os princípios do mercado autorregulado”[7]. Em sua obra mais conhecida, A Grande Transformação – As Origens da Nossa Época, Polanyi escreveu: “Em vez de a economia estar embutida nas relações sociais, são as relações sociais que estão embutidas no sistema econômico. A importância vital do fator econômico para a existência da sociedade antecede qualquer outro resultado”[8]. O fundador do substantivismo[9] refere, ainda, que “o sistema econômico é organizado em instituições separadas, baseado em motivos específicos e concedendo um status especial”[10] à esfera econômica. Se assim é, refere Polanyi, “a sociedade tem que ser modelada de maneira tal a permitir que o sistema funcione de acordo com as suas próprias leis. Este é o significado da afirmação familiar de que uma economia de mercado só pode funcionar numa sociedade de mercado”[11]. Em concordância com o autor austríaco, o Papa declara, em Evangelii Gaudium, que “uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano”[12].

Ao analisar a economia global, de acordo com Luiz Gonzaga Belluzzo, doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas, instituição onde é professor, o Papa não se detém num determinado sistema econômico mas, antes, “toma um ponto de vista em que a questão central é a realização de um projeto que vá em direção da comunidade cristã: o amor ao próximo, a igualdade”[13]. Se, atualmente, verificamos o aumento incomensurável da produção de bens e serviços, considerado à escala mundial, também assistimos ao crescimento da desigualdade, o que ocasionou “uma perda de importância dos valores de solidariedade, de amor ao outro”[14]. Hoje em dia, afirma o Papa Francisco, “grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída”[15]. Seu antecessor, o Papa Bento XVI, em 2009, na Carta Encíclica Caritas in VeritateCaridade na Verdade – fizera uso de um tom idêntico ao de Francisco, ao declarar que “o mercado, se houver confiança recíproca e generalizada, é a instituição económica que permite o encontro entre as pessoas, na sua dimensão de operadores económicos que usam o contrato como regra das suas relações e que trocam bens e serviços entre si fungíveis, para satisfazer as suas carências e desejos. O mercado está sujeito aos princípios da chamada justiça comutativa, que regula precisamente as relações do dar e receber entre sujeitos iguais”[16]. Se tal não ocorrer, isto é, se o mercado for a razão última para seu próprio funcionamento e se as pessoas não encontrarem meios para sua realização, pessoal, familiar, social e humana, então, escreveu Bento XVI, “uma sociedade do bem-estar, materialmente desenvolvida mas oprimente para a alma, de per si não está orientada para o autêntico desenvolvimento. As novas formas de escravidão da droga e o desespero em que caem tantas pessoas têm uma explicação não só sociológica e psicológica, mas essencialmente espiritual”[17].

Entre os adversários da doutrina social da Igreja e, consequentemente, do pensamento econômico do Papa estão os pensadores neoliberais[18]. Com efeito, se Francisco refere a desigualdade social como resultante da evolução do capitalismo globalizado, ou arauto do rendimento flexível, seus opositores identificam, como necessariamente correlatos, o desenvolvimento econômico e a redistribuição da riqueza. Escreve Samuel Gregg, Diretor de Pesquisas do Acton Institute for the Study of Religion and Liberty, que o “crescimento econômico é, obviamente, indispensável para salvar as pessoas da pobreza. Não existe solução de longo prazo contra a pobreza sem crescimento econômico, e as economias de mercado têm a incomparável capacidade de produzir esse crescimento”[19]. Embora Gregg acrescente, como premissa menor, que “não há nenhum defensor do livre mercado que acredite que o crescimento econômico, por si só seja a resposta para a miséria e a pobreza”[20], o certo é que as verdades de fato parecem desmentir os juízos de valor apresentados pelo autor norte-americano por nós acabado de citar. De acordo com o artigo de David Woodward, publicado na World Economic Review, no atual modelo econômico, a erradicação da pobreza não acontecerá, devido a uma impossibilidade estrutural[21]. O autor, economista e Conselheiro Sénior da Divisão para a África, os Países Menos Desenvolvidos e os Programas Especiais da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), assinala que, “com base em pressupostos otimistas, e assumindo implicitamente a continuação indefinida das mudanças potencialmente importantes em prol dos pobres nas políticas de desenvolvimento […], a erradicação [da pobreza] levará pelo menos 100 anos a USD $ 1,25/dia, e 200 anos a USD $ 5/dia de renda”[22]. Por outro lado, Jason Hickel, antropólogo da London School of Economics, sublinha a seguinte singularidade: de toda a renda gerada pelo crescimento do PIB global entre 1999 e 2008, 60% da humanidade, os mais pobres, recebeu apenas 5% desse montante. Em contrapartida, os mais ricos, ou seja, os restantes 40% da população do planeta, receberam 95% da renda mundial[23]. Deste modo, 85 a 90 milhões de pessoas, “mais do que a população atual da Alemanha ou da costa oriental dos EUA, do Maine à Carolina do Sul”[24] permanecerão em estado de pobreza durante toda a vida.

Outro aspecto em que a crítica dos adeptos do mercado fortemente desregulamentado se torna desabrida é aquele que foca a crescente degradação ambiental, tema central da Carta Encíclica Laudato Si’ Louvado Sejas –, publicada em junho passado. Escreve Samuel Gregg que “o fato de que a poluição mais significativa ligada à atividade econômica no século XX ocorreu como resultado dos esquemas de industrialização estatal centralmente planificada das antigas nações comunistas”[25]. Por outro lado, adianta o articulista em apreço, “qualquer pessoa que tenha visitado a antiga URSS ou o Leste Europeu durante a vigência do comunismo, e testemunhando aquela paisagem frequentemente devastada, rapidamente atestará a validade dessa constatação”[26]. Contudo, ao olharmos o mundo em que vivemos, deixando de lado as considerações históricas sobre os problemas ambientais, ao longo da segunda metade do século passado, verificamos que os países mais poluidores do mundo são, de acordo com as emissões de CO2, por ordem de grandeza, a República Popular da China, os EUA, o Brasil, a Indonésia e o Japão[27]; segundo o relatório de 2013, sobre as tendências globais de emissão de CO2, publicado pela Netherlands Environmental Assessment Agency e pela Comissão Europeia, os principais emissores de CO2, no mundo, por país, a partir do uso de combustíveis fósseis e produção de cimento são a República Popular da China, os EUA, a União Europeia, a Índia e a Federação Russa[28].

A crítica do Papa Francisco à exaltação do livre mercado por parte de seus defensores – já entremostrada em Evangelii Gaudium[29] – foi reiterada em Laudato Si’, fato que causou profundo desafeto no seio dos pensadores econômicos neoliberais, que consideram que o Papa procedeu a uma “simplificação leviana”[30] quando se referiu ao mercado como a melhor solução econômica para os problemas dos tempos atuais. Na verdade, mais do que uma polêmica entre os poderes econômicos globais e o atual responsável máximo da Igreja Católica, nós estamos na presença de paradigmas antagônicos. Com efeito, na carta que o Papa escreveu ao Primeiro-Ministro inglês, James Cameron, em 2013, “o objetivo da economia e da política é servir a Humanidade, começando pelos mais pobres e vulneráveis, quem quer que eles sejam, mesmo nos ventres de suas mães. Cada teoria econômica e política ou ação deve ser definida tendo em consideração o fornecimento, a cada habitante do planeta, dos recursos mínimos para viver com dignidade e liberdade, com a possibilidade de desenvolver o seu potencial humano”[31]. Concluindo seu pensamento acerca da dimensão social da atividade econômica, o Papa apresenta o seguinte corolário: “Na ausência de tal visão, toda a atividade económica não tem sentido”[32].

As reflexões do Papa sobre a economia nos situam ante propostas que não pretendem descartar o capitalismo, detestar o dinheiro ou, sequer, o lucro. O Sumo Pontífice deseja, desde 2013, voltar a centrar o foco das relações produtivas, colocando em seu núcleo o tema do bem, do certo, do correto e do justo. Neste sentido, produzir sem batota é, para Francisco, assumir a Ética e a Moral como faróis norteadores das relações econômicas concebidas como fator integrador da pessoa, e fomentadoras da dignidade de cada um de nós. O crescimento econômico, tal como o Papa Francisco o entende, deverá emparceirar com o desenvolvimento social em ordem a garantir a vida e a dignidade humanas.

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Imagem

Papa Francisco.

(Fonte):

http://livesicilia.it/wp-content/uploads/2013/03/papa-francesco.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#N%C3%A3o_a_uma_economia_da_exclus%C3%A3o

[2] Ver:

PAPA LEÃO XIII, Carta Encíclica Rerum Novarum, 1891.

Disponível online:

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_15051891_rerum-novarum.html

[3] Ver:

Mc 2.27.

[4] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#N%C3%A3o_a_uma_economia_da_exclus%C3%A3o

[5] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#N%C3%A3o_a_uma_economia_da_exclus%C3%A3o

[6] Ver:

https://www.ncregister.com/daily-news/pope-francis-catechism-for-economics/

[7] Ver:

http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/526440-polanyi-tem-mais-afinidade-com-o-pensamento-da-igreja-entrevista-especial-com-luiz-gonzaga-belluzzo

[8] Ver:

Karl Polanyi, A Grande Transformação – As Origens da Nossa Época, 2.ª ed., Rio de Janeiro, Editora Compus, 2000, trad. do inglês por Fanny Wrabel, pág. 77.

[9] Ver:

Em A Grande Transformação – As Origens da Nossa Época, Karl Polanyi defende que o conceito de economia tem dois significados. O significado formal, usado hoje [em 1944] pelos economistas neoclássicos, se refere à economia como a lógica da ação racional e da tomada de decisões como uma escolha racional entre usos alternativos dos meios escassos.

O segundo uso, o substantivo, se refere ao modo como os seres humanos fazem uma interação vital em seus ambientes naturais e sociais. A estratégia de sobrevivência da sociedade é vista como uma adaptação às suas condições ambientais e materiais, um processo que pode, ou não, envolver a maximização da utilidade. O significado substantivo da economia é visto no sentido mais amplo de provisionamento.

[10] Ver:

Karl Polanyi, A Grande Transformação – As Origens da Nossa Época, op. cit, pág. 77.

[11] Ver:

Ibidem.

[12] Ver:

PAPA FRANCISCO, Evangelii Gaudium, 55.

Disponível online:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#N%C3%A3o_a_uma_economia_da_exclus%C3%A3o

[13] Ver:

http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/526440-polanyi-tem-mais-afinidade-com-o-pensamento-da-igreja-entrevista-especial-com-luiz-gonzaga-belluzzo

[14] Ver:

http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/526440-polanyi-tem-mais-afinidade-com-o-pensamento-da-igreja-entrevista-especial-com-luiz-gonzaga-belluzzo

[15] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#N%C3%A3o_a_uma_economia_da_exclus%C3%A3o

[16] Ver:

PAPA BENTO XVI, Caritas in Veritate, 2009, 35.

Disponível online:

http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate.html

[17] Ver:

Ibidem.

[18] Ver:

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1548

[19] Ver:

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2125

[20] Ver:

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2125

[21] Ver:

http://wer.worldeconomicsassociation.org/files/WEA-WER-4-Woodward.pdf

[22] Ver:

http://wer.worldeconomicsassociation.org/files/WEA-WER-4-Woodward.pdf

[23] Ver:

http://www.theguardian.com/global-development-professionals-network/2015/mar/30/it-will-take-100-years-for-the-worlds-poorest-people-to-earn-125-a-day

[24] Ver:

http://wer.worldeconomicsassociation.org/files/WEA-WER-4-Woodward.pdf

[25] Ver:

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2125

[26] Ver:

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2125

[27] Ver:

http://www.activesustainability.com/top-5-most-polluting-countries

[28] Ver:

Cf. AAVV, Trends in Global CO2 Emissions – 2013 Report, The Hague – Ispra, PBL Netherlands Environmental Assessment Agency – European Commission – Joint Research Centre – Institute for Environment and Sustainability, 2013, pág. 15.

Disponível online:

http://edgar.jrc.ec.europa.eu/news_docs/pbl-2013-trends-in-global-co2-emissions-2013-report-1148.pdf

[29] Ver:

“Em alguns círculos, defende-se que a economia atual e a tecnologia resolverão todos os problemas ambientais, do mesmo modo que se afirma, com linguagens não-acadêmicas, que os problemas da fome e da miséria no mundo serão resolvidos simplesmente com o crescimento do mercado.”, PAPA FRANCISCO, Carta Encíclica Laudato Si’, 109. Disponível online:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

[30] Ver:

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2125

[31] Ver:

Carta do Papa Francisco a David Cameron, por ocasião da cimeira G8 (17-18 de junho de 2013), Cidade do Estado do Vaticano, 15 de junho de 2013. Disponível online:

https://w2.vatican.va/content/francesco/en/letters/2013/documents/papa-francesco_20130615_lettera-cameron-g8.html

[32] Ver:

https://w2.vatican.va/content/francesco/en/letters/2013/documents/papa-francesco_20130615_lettera-cameron-g8.html

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