A Demissão do Grão-Mestre da Ordem Soberana e Militar de Malta

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J. M. de Barros Dias

Fundada em inícios do século XII, por Gérard Tum, a partir de um albergue para recolha de peregrinos, pertencente a mercadores da República Marítima de Amalfi, às portas de Jerusalém, a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários foi reconhecida, pelo papa Pascoal II, em 1113, através da Bula Piæ Postulatio Voluntatis. Ela é, atualmente, uma Ordem de leigos católicos de natureza militar, cavalheiresca e nobre. Hoje em dia, a Ordem tem cerca de 13.500 membros, cavaleiros e damas, tal como os membros auxiliares: 80.000 voluntários permanentes, assim como 20.000 integrantes do corpo clínico, incluindo médicos, enfermeiras, auxiliares e paramédicos, presentes em 54 países[1]. Sob o ponto de vista jurídico, a Ordem “é um sujeito de direito internacional e exerce funções soberanas”[2], tendo relações bilaterais com 106 países e a União Europeia. Ela tem o estatuto de observador permanente das Nações Unidas e assinou Acordos de Cooperação internacional com 50 Estados, “para facilitar suas atividades humanitárias, permitindo e protegendo o acesso irrestrito, especialmente às regiões em crise”.

Em dezembro de 2016, o príncipe e grão-mestre da Ordem, frei Robert Matthew Festing, demitiu o grão-chanceler, Albrecht Von Boeselager, que servia no cargo desde 2014 e que foi acusado de ter autorizado a distribuição de preservativos para evitar a propagação do HIV/AIDS em três missões humanitárias da Ordem Soberana e Militar de Malta na Birmânia, ou Myanmar, pondo em causa a doutrina católica sobre a contracepção. Naquela ocasião, Von Boeselager negou as acusações de tibieza, tendo recusado a abandonar o cargo que ocupava, “argumentando que suspendeu os programas assim que descobriu que estavam a ser distribuídos preservativos”. Segundo informações, Festing terá dito que a demissão de Boeselager correspondia à vontade do papa Francisco. Após a demissão de Von Boeselager, o papa criou uma comissão composta por cinco membros[3], destinada a informar o sumo pontífice sobre a crise na direção central da Ordem, tendo a instituição manifestado sua oposição à investigação levada a cabo por uma comissão externa. Numa carta datada de 14 de janeiro, frei Matthew Festing assegurou que a composição da comissão da Santa Sé havia suscitado sérias dúvidas, incluindo a acusação de um conflito de interesses por parte de, pelo menos, três dos seus membros com ligação a um fundo de investimentos, de Genebra, que o Vaticano e a Ordem Soberana e Militar de Malta integram[4]. Anteriormente, numa declaração divulgada no dia 10, Festing considerara a comissão papal como sendo “irrelevante”. No mesmo documento, o grão-mestre afirmou que “a Ordem decidiu não cooperar com ela”. Dias mais tarde, em 17 de janeiro, o Vaticano reiterou sua confiança nos membros da comissão, tendo declarado estar a aguardar o resultado dos trabalhos “a fim de adoptar, no âmbito da sua competência, as decisões mais adequadas para o bem da Soberana Ordem Militar de Malta e da Igreja”.

O pano de fundo desta crise sem precedentes no seio da Ordem Soberana e Militar de Malta se insere na confrontação entre a vontade reformista do sumo pontífice e os conservadores da Igreja Católica, liderados pelo cardeal protetor da Ordem de Malta, Raymond Burke. Conforme analisámos em ocasião anterior, o embate tomou corpo após a publicação, por Francisco, da exortação apostólica Amoris Lætitia[5] – A Alegria do Amor –, escrita na sequência dos Sínodos dos Bispos sobre a Família, realizados em 2014 e 2015. Contudo, alguns meses mais tarde, 4 cardeais – Walter Brandmüller; Joachim Meisner; Carlo Cafarra; e Raymond Leo Burke –, num gesto inusual, que foi interpretado como um sinal de dissidência, escreveram uma carta ao papa Francisco, solicitando esclarecimentos acerca do conteúdo de Amoris Lætitia[6].

No dia 24 de janeiro, a pedido do vigário de Cristo, o grão-mestre da Ordem Soberana e Militar de Malta apresentou a sua demissão. Reunido, em audiência com o Papa, frei Matthew Festing, foi aconselhado, por Francisco, a abandonar o cargo que ocupava que, salvo exceções raríssimas, foi desempenhado até hoje de maneira vitalícia[7]. Se, alegadamente, o Grão-Mestre afirmou que o pedido de demissão de Albrecht Von Boeselager teve por base um pedido papal, a Santa Sé manifestou suas reservas relativamente ao processo. Cartas entre a Secretaria de Estado da Santa Sé e a Ordem, dadas a conhecer publicamente, sublinham que Francisco não tinha pedido a demissão de ninguém, preferindo que o assunto fosse resolvido internamente. Em 25 de janeiro, o papa aceitou a demissão do Grão-Mestre[8], tendo nomeado um delegado pontifício, o arcebispo Giovanni Angelo Becciu, para assumir as funções de Frei Matthew Festing até à realização do Capítulo extraordinário da Ordem que elegerá o substituto de Festing. Além das funções para que foi nomeado, Becciu foi chamado a cuidar “de tudo aquilo que diz respeito à renovação espiritual e moral da Ordem, especialmente dos membros professos, para que seja plenamente realizada a finalidade ‘de promover a glória de Deus mediante a santificação dos membros, o serviço à Fé e ao Santo Padre e a ajuda ao próximo’, como se lê na Carta Constitucional”.

As reformas da Igreja Católica, propostas por Francisco, têm causado forte oposição, no Vaticano e na própria Igreja. A Ordem Soberana e Militar de Malta acaba de se tornar o alvo mais recente numa contenda que já saiu dos muros da Cidade do Estado do Vaticano. Se, em termos de aceitação popular, o papa atual merece o aplauso incontestável das multidões, no seio de setores significativos da hierarquia católica e, mesmo, dos fiéis mais conservadores, essa atitude não se verifica. A contenda entre o vigário de Cristo e aqueles que se lhe opõem, na Igreja que ele lidera, está na praça pública. Neste contexto, mesmo o capital simbólico da Ordem Soberana e Militar de Malta, um Estado soberano, de pouco serviu em face de um conflito que expressa, em sua plenitude, o espírito de um tempo caracterizado, em boa medida, pela plenitude dos valores à deriva.

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Imagem:

Frei Matthew Festing (Merton College Chapel, Oxford, Inglaterra, 2010).

(Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/32/Grand_Master_Matthew_Festing_20100409.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.orderofmalta.int/faq/26466/faq/?lang=en

[2] Ver:

Carta Constitucional da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém de Rodes e de Malta, Art. 3, § 1, in CONDE DE ALBUQUERQUE (Prefácio de Pedro Soares Martínez), Ordem Soberana e Militar de Malta. Colectânea de Legislação, Lisboa, ACD Editores, 2006, pág. 34.

[3] Ver:

As personalidades que integram a comissão são o arcebispo Silvano M. Tomasi, antigo representante do Vaticano junto das agências das Nações Unidas em Genebra; o padre Gianfranco Ghirlanda, antigo reitor da Universidade Pontifícia Gregoriana; Jacques de Liedekerke, ex-chanceler da Ordem Soberana e Militar de Malta; Marc Odendall. conselheiro da Ordem Soberana e Militar de Malta; Marwan Sehnaoui, presidente da Ordem Soberana e Militar de Malta no Líbano.

Cf. JUNNO AROCHO ESTEVES & CINDY WOODEN, “Order of Malta Questions Legitimacy of Commission Established by Pope”, Washington DC, Catholic News Service, 11 de janeiro de 2017.

Disponível online:

http://www.catholicnews.com/services/englishnews/2017/order-of-malta-questions-legitimacy-of-commission-established-by-pope.cfm

[4] Ver:

Carta de frei Matthew Festing aos Membros do Conselho Soberano, e outros, Roma, 14 de janeiro de 2017.

https://pt.scribd.com/document/336716070/A-Letter-From-H-M-E-H-the-Prince-and-Grand-Master-14-01-2017

[5] Ver:

PAPA FRANCISCO, Amoris Lætitia – A Alegria do Amor. Sobre o Amor na Família, São Paulo, Edições Loyola Jesuítas, 2016, 187 págs. [Texto oficial da CNBB para o português do Brasil].

Disponível online:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html

[6] Ver:

A carta foi originalmente divulgada pelo vaticanista Sandro Magister, em seu sítio web:

A Sua Santidade Padre Francisco e com conhecimento de Sua Eminência Cardeal Gerhard L. Müller

Santo Padre,

No seguimento da publicação da Vossa Exortação Apostólica ‘Amoris Laetitia’,  teólogos e estudiosos propuseram interpretações não só divergentes, mas também contrastantes, sobretudo no que respeita ao Capítulo VIII. Além do mais, os meios de comunicação têm vindo a pôr em realce esta disputa, provocando incerteza, confusão e desorientação entre muitos dos fiéis.

Por isso, chegaram-nos, a nós que nos subscrevemos, como também a muitos Bispos e Presbíteros, numerosos pedidos da parte de féis pertencentes a diversas condições sociais, a respeito da correta interpretação a dar ao Capítulo VIII da Exortação.

Assim, movidos em consciência pela nossa responsabilidade pastoral, e desejando praticar sempre melhor aquela mesma sinoladidade a que Vossa Santidade nos exorta, permitimo-nos, com profundo respeito, vir pedir-Vos, Santo Padre, que, como Mestre Supremo da Fé, chamado pelo Ressuscitado a confirmar os irmãos na fé, dirimais as incertezas e crieis clareza, dando benevolamente resposta aos ‘Dubia’ que nos consentimos juntar à presente carta.

Possa Vossa Santidade abençoar-nos, deixando-Vos a nossa promessa de uma constante presença na nossa oração.

Card. Walter Brandmüller

Card. Raymond L. Burke

Card. Carlo Caffarra

Card. Joachim Meisner

Roma, 19 de Setembro de 2016”.

Os “Dubia” [do latim “Dúvidas”] apresentados pelos cardeais ao papa são os seguintes:

1. Pergunta-se se, de acordo com quanto se afirma em ‘Amoris Lætitia’ (nn. 300-305), se tornou agora possível conceder a absolvição no sacramento da Penitência, e, portanto, admitir à Sagrada Eucaristia uma pessoa que, estando ligada por vínculo matrimonial válido, convive ‘more uxorio’ (de modo marital) com outra, sem que estejam cumpridas as condições previstas por ‘Familiaris Consortio’, n. 84, e, entretanto, confirmadas por ‘Reconciliatio et Pænitentia’, n. 34, e por ‘Sacramentum Caritatis’, n. 29. Pode a expressão ‘em certos casos’ da nota 351 (n. 305) da exortação ‘Amoris Lætitia’ ser aplicada a divorciados com uma nova união que continuem a viver ‘more uxorio’?

2. Continua a ser válido, após a Exortação Apostólica Pós-Sinodal ‘Amoris Lætitia’ (cf. n. 304), o ensinamento da Encíclica de São João Paulo II ‘Veritatis Splendor’, n. 79, assente na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, acerca da existência de normas morais absolutas, válidas sem qualquer exceção, que proíbem atos intrinsecamente maus?

3. Depois de ‘Amoris Lætitia’ (n. 301) pode ainda afirmar-se que uma pessoa que viva habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como, por exemplo, aquele que proíbe o adultério (cf. Mt 19, 3-9), se encontra em situação objetiva de pecado grave habitual (cf. Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração de 24 de junho de 2000)?

4. Após as afirmações de ‘Amoris Lætitia’ (n. 302) acerca das ‘circunstâncias atenuantes da responsabilidade moral’, ainda se deve ter como válido o ensinamento da Encíclica de São João Paulo II ‘Veritatis Splendor’, n. 81, baseada na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, segundo a qual ‘as circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um ato intrinsecamente desonesto pelo seu objeto, num ato ‘subjetivamente’ honesto ou defensível como opção’?

5. Depois de ‘Amoris Lætitia’ (n. 303) ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II ‘Veritatis Splendor’, n. 56, baseada na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, que exclui uma interpretação criativa do papel da consciência e enfatiza que a consciência jamais está autorizada a legitimar exceções às normas morais absolutas que proíbem ações intrinsecamente más em virtude do seu objeto?

 [7] Ver:

“O Grão Mestre é eleito para toda a vida pelo Conselho Pleno de Estado por entre os Cavaleiros Professos, tendo o candidato pelo menos dez anos de Votos Solenes, se a sua idade for inferior a cinquenta anos. Para os Cavaleiros Professos de idade superior, membros da Ordem há mais de dez anos, são suficientes três anos de Votos Solenes.”, Carta Constitucional da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém de Rodes e de Malta, Art. 13, § 1, in CONDE DE ALBUQUERQUE (Prefácio de Pedro Soares Martínez), Ordem Soberana e Militar de Malta. Colectânea de Legislação, op. cit, pág. 39.

[8] Ver:

Ontem, 25 de janeiro de 2017, em audiência com o Santo Padre, Sua Alteza Frei Matthew Festing renunciou ao cargo de Grão-Mestre da Ordem Soberana e Militar de Malta.

Hoje, 25 de janeiro, o Santo Padre aceitou a sua demissão, expressando o apreço e a gratidão a Frei Festing pela sua lealdade e devoção ao Sucessor de Pedro, e sua disposição para servir humildemente o bem da Ordem e da Igreja.

A governança da Ordem será assumida, ad interim, pelo Grande Comandante até a nomeação do Delegado Papal.”

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O Descaso e a Omissão dos Poderes Públicos na Rebelião Prisional de Manaus

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Marli Barros Dias

O primeiro dia do ano de 2017 registrou mais um episódio triste na História recente do Brasil. A rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (COMPAJ)[1], em Manaus, que deixou 56 detentos mortos[2], contribuiu para aumentar a estatística da violência no país. O motim, que começou na tarde daquele domingo, tomou proporções imensas, não tendo as Forças de Segurança do Estado do Amazonas conseguido desmantelar a organização dos amotinados que se mantiveram ativos por mais de 17 horas. De acordo com informações, a revolta foi motivada por “uma briga interna” entre duas facções rivais, a Família do Norte (FDN) e o PCC. Neste contexto, de acordo com analistas, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), aliado da FDN, são os responsáveis pelo levante no COMPAJ. Os enfrentamentos entre os dois grupos criminosos brasileiros tiveram início em junho de 2016, pela “disputa da fronteira entre Mato Grosso do Sul e Paraguai”, o principal acesso de entrada de drogas no país. Quando, em 15 de junho do ano passado, o narcotraficante Jorge Rafaat Toumani foi assassinado na cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, na fronteira com o Mato Grosso do Sul, o PCC foi responsabilizado pela ação. Em meados de outubro começou o acerto de contas entre as facções inimigas nos presídios, sobretudo, no norte do Brasil.

A briga entre grupos adversários, que levou à conflagração no COMPAJ, não se trata de um caso isolado ou atual, mas recorrente no Brasil. Recorde-se que, em 1992, a rixa entre grupos de detentos deu origem à rebelião que culminou no massacre do Carandiru, em São Paulo, pelas forças policiais. Os conflitos entre grupos oponentes nas prisões no Brasil, ao longo dos anos, têm provocado a prática da violência com alto grau de crueldade. A ausência de medidas socioeducativas eficientes e a desarticulação das atividades criminosas, por parte do poder público, associadas à superlotação dos presídios, tem beneficiado a criação de um poder paralelo nas penitenciárias brasileiras que, há algum tempo, tomaram uma dimensão transnacional. Documentos da Polícia Federal apontam, por exemplo, a ligação do PCC com o Hezbollah, grupo insurgente libanês que estabeleceu um acordo com a facção criminosa brasileira comprometendo-se a fornecer armas e explosivos em troca de proteção dos libaneses detidos nos presídios brasileiros. O trágico acontecimento deste início de ano, em Manaus, revela a ampliação da rede de conexão entre as facções criminosas nacionais e internacionais. Segundo o Ministério Público Federal, os líderes da rebelião no COMPAJ têm estreita relação com as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Conforme estes documentos, tanto os traficantes brasileiros quanto as FARC têm o mesmo fornecedor de armas.

As organizações criminosas brasileiras assumiram, de fato, o espaço vazio deixado pelo Estado, tanto na dimensão Federal, quanto na Estadual. Inicialmente, isto se deu nas favelas, nas periferias dos grandes centros urbanos e, hoje, elas mantêm vínculos com organizações internacionais ligadas ao crime organizado e ao terrorismo transformando os presídios em espaços de contato, moedas de troca ou ajustes de contas. Na medida em que aumenta o elo entre os criminosos nacionais e internacionais, mais complexa se torna uma possível resolução do problema ao nível interno. Em contrapartida, parte da população, descrente na eficácia do poder público, na Justiça e vítima da violência e do medo cotidianos, foi tomada gradativamente por um sentimento hostil aos direitos fundamentais da vida humana, passando a conceber a barbárie como a que ocorreu no COMPAJ, em Manaus, como algo “bom”, a partir da naturalização da violência e da defesa da ideia de que “bandido bom é bandido morto”. Esta posição foi, de certo modo, ratificada por José Melo de Oliveira, Governador do Amazonas, ao declarar que “não havia nenhum santo” entre os mortos. Este acontecimento, à semelhança de tantos outros significa, para uma parcela da sociedade brasileira, punição e uma espécie de vingança coletiva. A posição assumida por muitos brasileiros, a partir da análise dos comentários referentes às mortes de detentos em Manaus, tal como em casos semelhantes, em jornais e redes sociais, demonstra uma atitude que é consequência do sentimento de ausência do Estado enquanto responsável por assegurar a vida dos cidadãos. Deste modo, o Estado de Direito e a própria democracia estão em risco.

As falhas constantes do Estado brasileiro, principalmente no que toca à  Segurança, permitiram a gênese de uma divisão no interior da sociedade naquilo que diz respeito à concepção de pessoa e de valores. Deste modo, destacam-se aqueles que falam em nome das “pessoas de bem”, ignorando os Direitos Humanos e a própria Justiça, sem levar em consideração que a origem da violência está arraigada a questões sociais graves, tais como a exclusão social, a discriminação, os preconceitos, a má distribuição de renda e tantos outros que, até o momento, não foram solucionados. Por outro lado, não há uma reflexão em torno destes problemas para esclarecer a população acerca das circunstâncias dos fatos e da problemática dos Direitos Humanos e da Justiça. Ao ignorar isto, numa sociedade em que os Direitos Civis se encontram feridos, a tendência é que, para muitos, os Direitos Humanos não têm, como beneficiários, todos os seres humanos. Deste modo, a aplicação da lei nem sempre é suficiente para aplacar o juízo feito em conformidade com o modo de pensar de cada um, que foi estruturado numa sociedade desajustada, globalmente ignorante do princípio de que o Estado é, também, o guardião e o responsável pela vida dos prisioneiros. Foi com base neste princípio que, em 3 de janeiro, a ONU emitiu um comunicado cobrando das autoridades do Estado do Amazonas, uma investigação “imediata e imparcial”.

Hoje, o Brasil é o país com a quarta maior população carcerária do mundo. Consoante dados do Governo Federal, em 2016, a “população penitenciária brasileira chegou a 622.202” pessoas. Esta realidade, ignorada e pouco debatida pela maioria da população, assim como a existência de condições infra-humanas no sistema penitenciário brasileiro que, em vez de reeducar os presidiários, estimula a agressividade, contribui para o aumento da criminalidade a partir da revolta e da crença de que o crime compensa. Isto também não é nenhuma novidade para o Brasil e aos olhos do mundo, tanto que ao falar sobre o ocorrido recentemente em Manaus, o Papa Francisco apelou para que as “instituições prisionais sejam locais de reabilitação e reintegração social e que as condições de vida dos detidos sejam dignas de seres humanos”. Em 2016, o Brasil teve aproximadamente 400 mortes violentas em seus presídios. Estes dados revelam que, em média, ocorreu mais de uma morte por dia nas penitenciárias brasileiras. Os números demonstram que a inflamação no interior dos presídios do país é uma situação rotineira. A rebelião ocorrida no COMPAJ está inserida nesta conjuntura. Passados quatro dias daquela chacina, o Presidente Michel Temer, classificou o acontecido como “acidente pavoroso”. Porém, há dados que comprovam que o evento trágico de Manaus não se trata de um acidente ou de um caso isolado. De acordo com a imprensa, em janeiro de 2016, “peritos da área de Direitos Humanos do Governo Federal alertaram para o risco de rebeliões em quatro presídios de Manaus, entre os quais o Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj)”, onde ocorreram os assassinatos. Segundo o relatório de especialistas, os detentos nas prisões de Manaus “basicamente se autogovernavam nas unidades prisionais”, e todas as unidades “estavam sob um clima de grande inquietação” devido à “transferência de integrantes da Família do Norte (FDN) – facção criminosa predominante nas penitenciárias locais – para presídios federais”. A chacina no COMPAJ foi, portanto, uma tragédia anunciada. Numa população carcerária imensa, como a brasileira, ignorar informações é subjugar a vida. Ante os últimos acontecimentos, o Brasil terá que rever as posições que assumiu até hoje, começando por empenhar-se em resolver os problemas que minam a estrutura da sociedade, colocando em risco os Direitos Civis e Humanos ao promover a Lei de Talião – “Olho por olho, dente por dente”[3] , seja nos presídios, seja na própria sociedade.

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Imagem:

Secretaria Especial de Direitos Humanos, Manaus. Logotipo da campanha “Agenda de Convergência”.

(Fonte):

http://www.sdh.gov.br/assuntos/criancas-e-adolescentes/agenda-de-convergencia/imagens/manaus-vermelho

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Fontes:

[1] Ver:

O COMPAJ é administrado pela empresa Ummanizare – Gestão Prisional Privada, sediada em São Paulo.

A Ummanizare assumiu a gestão do presídio em 1.º de junho de 2014, “com o intuito de empregar diversas práticas e ações já desenvolvidas em outras unidades prisionais geridas por ela e que amenizam a condição de cárcere do detento”.

[2] Ver:

Além do CONPAJ, verificou-se uma revolta na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP), em Manaus, no mesmo dia, da qual resultaram 4 mortos.

Cf. REDAÇÃO, “Mais 4 Presos Mortos em Massacre no AM são Identificados, Diz Governo”, Globo – Amazonas, s. l. [Manaus], 5 de janeiro de 2017.

Disponível online:

http://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2017/01/mais-4-presos-mortos-em-massacre-no-am-sao-identificados-diz-governo.html

[3]Ver:

Gn. 4: 10-11; Ex. 21: 23-25.

 

Entrevista com o Presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia sobre a Situação Política Turca

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Marli Barros Dias

“As práticas nos últimos três anos dão uma ideia do nível do retrocesso dos valores da democracia e dos direitos fundamentais que a Turquia sofreu. Erdoğan é o único poder em vigor no país, todos os outros poderes estão subordinados a ele, inclusive o Judiciário”, Mustafa Göktepe

Mustafa Göktepe, cidadão turco-brasileiro, é o fundador e presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia. Empresário nas áreas do turismo e da alimentação, foi professor de Língua e Cultura Turca na Universidade de São Paulo (2010-2013), de Língua e Cultura Turca e Civilização Turco-Islâmica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2009-2013) e de Língua e Cultura Turca na Universidade de Brasília (2013 a 2014).

Entre 2011 e 2014, Mustafa Göktepe serviu como assessor do representante do jornal Zaman, da Turquia, no Brasil. Ele é tradutor juramentado – turco e português –, sendo tradutor simultâneo do turco e português e, ainda, tradutor e revisor de livros.

Pergunta: Como define a política atual da Turquia?

Resposta: Como uma política no caminho da formação de uma ditadura. As práticas nos últimos três anos dão uma ideia do nível do retrocesso dos valores da democracia e dos direitos fundamentais que a Turquia sofreu. Erdoğan é o único poder em vigor no país, todos os outros poderes estão subordinados a ele, inclusive o Judiciário.

 Pergunta: Qual foi o objetivo da tentativa de Golpe na Turquia? Quem, de fato, esteve por detrás?

Resposta: A Turquia sofreu quatro golpes militares na sua história, em 1960, 1971, 1980 e 1997, além de várias outras tentativas. Por isso, sabemos muito bem como acontecem os golpes. O que foi em 15 de julho de 2016 não era um golpe comum, embora no início parecesse assim. Um golpe militar não acontece em apenas duas cidades, envolvendo apenas 2% dos militares, sem prender nenhum político, sem tomar o controle da mídia e jamais acontece na sexta-feira às 22h00 num dia de Verão, quando todo mundo está acordado. Juntando todas essas estranhezas com o expurgo que vem acontecendo desde então, eu chamaria de “teatro do golpe” ou até “autogolpe”. Essa tentativa de golpe beneficiou apenas Erdoğan no seu caminho ao sistema presidencialista.

Não se sabe exatamente quem fez o golpe, talvez seja um grupo de militares incomodados com as práticas do Erdoğan que desviou a Turquia do caminho da democracia. Mas de uma coisa tenho certeza: Erdoğan sabia dessa tentativa e deixou acontecer, sentindo-se tranquilo por ter o controle absoluto da Inteligência, da Polícia e da Justiça. Sabia que o golpe não iria dar certo, mas que ele iria se beneficiar dessa tentativa para acabar com todos os críticos ao seu autoritarismo.

Isso foi confessado por ele mesmo, numa entrevista ao vivo que deu à CNN Turk durante os momentos do golpe. Parece piada, o presidente de um país que está sofrendo um golpe militar dando entrevista ao vivo com a localização anunciada. Mas não era piada, era parte do teatro. Naquela primeira entrevista Erdoğan já nomeou o Movimento Hizmet e seu inspirador Fethullah Gülen como sendo os autores do golpe e disse que “essa tentativa de golpe foi uma benção de Deus, pois agora poderemos fazer uma limpeza generalizada, começando com as Forças Armadas”.

Ele está fazendo o que disse: limpeza geral em todas as instituições públicas e privadas. Algumas horas depois do início da tentativa de golpe, começaram a divulgar listas com os nomes de milhares de pessoas como golpistas, todos previamente fichados. Trabalho tão malfeito que divulgaram nomes de pessoas que já haviam morrido ou mudado de cidade ou até de país. Em seguida foi decretado o “estado de emergência” e os “direitos humanos” foram suspensos, assim qualquer ação anticonstitucional se tornou possível com o decreto presidencial, ou seja, de Erdoğan.

Começaram a prender pessoas, sem prova, sem inquérito, sem processo judicial.. simplesmente por ser crítico ao autoritarismo do Erdoğan. O número de pessoas presas e detidas já supera as cento e vinte mil e o número de instituições fechadas e tomadas passa de três mil e quinhentas.

Pergunta: Por que o Governo quer criminalizar o Movimento Gülen (Hizmet)?

Resposta: O Movimento Hizmet, inspirado no erudito Fethullah Gülen, é um movimento da sociedade civil que surgiu na Turquia que hoje está presente em mais de 170 países, com trabalhos educacionais, culturais, empresariais e sociais. É um movimento apolítico, a favor da democracia e dos direitos fundamentais. Por isso, os membros do Hizmet votaram em diferentes partidos e candidatos, levando em consideração a promessa deles.

O partido de Erdoğan também atraiu os votos dos simpatizantes do Hizmet nos primeiros dois mandatos, por causa das promessas (e inclusive práticas no início) em favor de melhorar a democracia e as liberdades na Turquia, da adesão à União Europeia e da mudança da Constituição atual, que é militar, cheia de restrições, por uma civil e mais democrática.

Tanto o Hizmet quanto outros a favor da democracia, começaram a criticar Erdoğan a partir de 2011, quando ele condicionou a mudança da Constituição à mudança do sistema no país, do parlamentarismo para o presidencialismo, e começou a ter um discurso autoritário, demonstrando as ambições da liderança regional e religiosa, inclusive cogitando a volta do Califado.

Mas o principal marco entre o Erdoğan anterior e o de hoje foram as operações de corrupção ocorridas em 17 e 25 de dezembro de 2013, que envolviam o gabinete de Erdoğan, então primeiro-ministro, chegando até ao seu filho, Bilal Erdoğan. Tudo indicava que ele, com a sua família e alguns ministros de seu Governo, faziam parte de um esquema de corrupção que durava há anos, que desviava 10 a 20% de todas as licitações. As gravações de áudio e vídeo das investigações foram divulgadas no YouTube e no Twitter, o que motivou o fechamento dessas redes sociais.

Alguns “colunistas” e “religiosos” tentaram justificar esse roubo de 20% com pareceres religiosos, dizendo que o Califa teria direito a um quinto (1/5) de todo ganho para atender as necessidades de toda comunidade muçulmana mundial. Um deles (Ahmet Akgündüz) chegou a dizer que os Governos anteriores roubavam 80%, esses roubam apenas 20%.

As pessoas e as instituições inspiradas no Movimento Hizmet, como o jornal Zaman e Samanyolu TV, não fizeram vista-grossa a essas operações, como desejava Erdoğan.

Ainda naqueles dias da operação, Erdoğan começou a sua caça às bruxas contra o Hizmet chamando-o de Estado paralelo. Ele tentou tudo para criminalizar o Hizmet, chamando-o de grupo terrorista. Mas não tinha como fazer isso porque não tinha nenhuma prova e por o Hizmet ser conhecido como um movimento pacífico. Ele precisava de algo para poder chamar de terrorista, para fazer uma perseguição generalizada, o que vem fazendo desde essa tentativa de golpe.

Pergunta: Como o Governo turco tem conseguido apoio da população?

 Resposta: De várias formas. Listando apenas as principais:

  • As políticas sociais, que não procuram dar um empurrãozinho para as pessoas começarem a ter um emprego, um ganho digno, mas que tornam as pessoas dependentes dos programas sociais do Governo. As pessoas não querem correr o risco de perder os benefícios, por isso votam no Governo atual, sem se importarem do que Erdoğan faz de errado.
  • Medo generalizado. Isto faz com que as pessoas não se arrisquem denunciando os erros, ou criticando as ações ilegais do Governo e das autoridades. Há um círculo de espiões voluntários na sociedade, em geral, que qualquer um que aparenta ser um crítico ao Governo é perseguido, o seu negócio é fechado ou tomado, excluído de serviços públicos (educacionais, saúde, transporte, segurança, etc.). As pessoas são destituídas, demitidas, presas por serem críticas. Não só de funções públicas, mas também das entidades privadas.
  • Discurso islamista, que usa o sentimento religioso das pessoas. Erdoğan e os membros de seu Governo são mestres nisso. São dezenas as vezes em que Erdoğan participou dos comícios com o Alcorão na mão, balançando-o na frente das pessoas, recitando versículos, fazendo orações diante do público, para criar uma imagem de um líder religioso. Os muçulmanos praticantes na Turquia sofreram muito com os golpes militares que restringiam a prática da religião. Por exemplo, as mulheres eram proibidas de usufruir de serviços públicos se usassem o lenço/véu. Muitas deixaram de estudar no Ensino Superior, por terem que tirar o lenço para estudar. Algumas práticas boas de Erdoğan (sim, ele teve muitas práticas boas nos primeiros dois mandatos de seu Governo, por isso fui uma das pessoas que votou nele) aliviaram não só os muçulmanos, mas também outros religiosos de outras religiões. Ele continua usando a religião para alcançar seus interesses políticos. O discurso religioso não significa que ele seja Eu até diria que 90% de tudo o que ele vem fazendo não é justificável no Islã.
  • Uso de mídia e política polarizadora. Hoje 99% dos órgãos de mídias (seja jornal, seja televisão e rádio) são pró-Governo. Para entender o efeito disso, basta imaginar que os jornais, as emissoras de televisão e de rádio de todos os grandes grupos no Brasil (Globo, Bandeirantes, Record, etc.) pertencessem ao Governo ou aos seus simpatizantes e fizessem notícias 100% a favor do Governo.

Pergunta: Quais são os riscos de a Turquia se tornar uma ditadura?

Resposta: Não considero mais um risco, eu diria que a formação de uma ditadura está em curso na Turquia.

Pergunta: Qual o interesse da Turquia na Guerra na Síria?

Resposta: Eu fui tradutor de Erdoğan quando ele esteve no Brasil, em 2010, e fui tradutor de Dilma quando ela viajou para a Turquia, em 2011. Testemunhei as conversas nesse nível. Naqueles anos, no início dos conflitos na Síria, a Turquia parecia ser um articulador com al-Assad, orientando para que ele mesmo liderasse a mudança desejada pelo povo no seu país. Mas, depois ficou claro que Erdoğan apoiava os rebeldes desde o início, com a intenção de fazer al-Assad cair o mais rápido possível. Assim, a Turquia se tornaria o único país com estabilidade política e social na região, além de chegar até Damasco e rezar na imponente e importante mesquita dos Omíadas. Isso tem um significado religioso e dá sinais sobre o novo Califa dos muçulmanos.

Esse apoio ilegal, com armas e financiamento, foi divulgado por jornais turcos, alemães, britânicos e americanos. O jornalista turco (Can Dündar), que divulgou as fotos das armas nos caminhões da Inteligência turca a caminho da Síria, foi preso e a operação foi encoberta imediatamente. Uma parte dos rebeldes hoje faz parte do ISIS, conhecido também como Estado Islâmico (EI) ou DAESH.

A Turquia usou como crédito a sua localização e o fato de ser um importante membro da OTAN para não receber críticas duras da União Europeia e dos EUA. A Europa toda está com medo de mais de três milhões de refugiados sírios invadirem seus países. Por isso mantém uma política hipócrita, criticando Erdoğan um dia aqui, outro dia ali, mas não fazendo nenhuma sanção significativa. Os EUA não querem perder o espaço da OTAN em Incirlik, uma localização muito estratégica para ter controle na região.

 Pergunta: Quais as possibilidades de solucionar o problema entre o atual Governo da Turquia e a minoria curda?

 Resposta: Os curdos na Turquia, bem como outras minorias (armênios, gregos, árabes, alauitas, xiitas, judeus, ortodoxos, católicos, etc.) não tiveram muitos de seus direitos garantidos durante toda a República até que fossem feitas reformas pelo Governo de Erdoğan nos primeiros dois mandatos, como parte das exigências da União Europeia. Por exemplo, eles não podiam ter escolas, televisões, rádios, jornais em curdo.

O grupo terrorista PKK, foi considerado como representante dos curdos por muitos Governos, embora isso esteja muito longe da realidade. Por isso deixaram a região sudeste do país, onde está a maior concentração de curdos, sem investimento e sem serviços públicos, como escolas, hospitais, fábricas, etc.

Quando começou o “processo de paz”, os curdos começaram a ter voz no Parlamento com mais de oitenta deputados, pela primeira vez na história da República. Até 2014, a relação do Governo com os curdos em geral parecia estar muito bem. Quando Erdoğan anunciou que queria mudar o sistema no país (de parlamentarista para presidencialista a la turca) e ele queria se tornar presidente, o líder do partido curdo (Selahattin Demirtaş) disse abertamente que jamais iria deixar isso acontecer.

Sem o apoio de 2/3 do Parlamento é impossível mudar o sistema do país. E sem o apoio dos parlamentares curdos é impossível chegar a este número. Aí começou a briga de Erdoğan contra os curdos. Tirou a imunidade dos parlamentares e está prendendo eles, junto com centenas de prefeitos curdos.

 Pergunta: A Turquia corre o risco de uma Guerra Civil? Por quê?

Resposta: Sim, o risco de uma guerra civil é real. Acho que o que disse acima como resposta as perguntas anteriores, dá uma ideia sobre esse risco.

Tudo indica que, pelas razões apontadas acima, as coisas não vão mudar rápido na Turquia e na região. Ainda mais depois da eleição de Trump como presidente dos EUA, a intenção da aproximação dele com Putin, da Rússia, torna muito difícil comentar sobre o futuro da região.

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Publicado em: http://www.jornal.ceiri.com.br/

O Papel da União Soviética na Origem da Teologia da Libertação

teologia-da-libertacaoJ. M. de Barros Dias

Ion Mihai Pacepa servia como tenente-general da Securitate, o serviço de Inteligência do regime marxista-leninista de Nicolae Ceaușescu, e, também, como assessor do presidente romeno quando, em julho de 1978, desertou para os Estados Unidos. Desde então, Pacepa colaborou com a Agência Central de Inteligência, a CIA, em diversas operações contra os países do bloco soviético, tendo seu trabalho sido descrito como “uma contribuição importante e única para os Estados Unidos”. Em 2013, em parceria com Ronald J. Rychlak, professor de Direito da Universidade do Mississippi, Pacepa publicou o livro Desinformação. Antigo Espião Chefe Revela Estratégias Secretas Para Minar a Liberdade, Atacando a Religião, Promovendo o Terrorismo[1]. Mais recentemente, em maio de 2015, em entrevista divulgada pela Agência Católica de Notícias, o antigo espião voltou a reafirmar as teses expostas em seu último livro, tendo declarado: “Nós criámos a Teologia da Libertação”.

Após a URSS ter divulgado, em todo o mundo, a ideia de que o papa Pio XII tivera apreço em relação ao nazismo[2], em 1959, o então secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Nikita Khrushchev, desenvolveu esforços no sentido de fortalecer a presença de seu país na América Latina. Ao divulgar a versão amigável do catolicismo em relação à doutrina marxista, Pacepa recorda, numa entrevista concedida em 2015: “Eu aprendi os aspectos essenciais do envolvimento do KGB com a Teologia da Libertação com o General soviético Aleksandr Sakharovsky[3], assessor do chefe da razvedka (Inteligência exterior) – e, de facto, meu patrão até 1956 quando ele se tornou o dirigente do serviço soviético de espionagem, o PGU[4]”. Se, na versão oficial, a Teologia da Libertação nasceu na América Latina, na sequência do aggiornamento promovido pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e, também, da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, celebrada em Medellín, entre 24 de agosto e 6 de setembro de 1968, que pretendia encarar o Evangelho a partir da opção fundamental pelos pobres, fazendo uso das Ciências Humanas e Sociais como instrumento explicativo da realidade teológico-eclesial, tal não corresponde à verdade, segundo a versão narrada por Ion Pacepa. Cabe sublinhar, neste contexto, que, “em 26 de Outubro de 1959, Sakharovsky e seu novo patrão, Nikita Khrushchev, chegaram à Romênia para aquilo que ficaria conhecido como os ‘seis dias de férias de Khrushchev’”. Contudo, a estadia do líder soviético e de sua comitiva em território romeno não se destinou a atividades de repouso, ou de turismo. O sucessor de Josef Stalin desejava “entrar na História como o líder soviético que exportara o comunismo para a América do Sul e Central. A Romênia era o único país latino do bloco soviético e Khrushchev queria envolver seus ‘líderes latinos’ em sua nova guerra de ‘libertação’”.

Segundo Pacepa, a Teologia da Libertação deve o seu nome ao próprio KGB que, nos anos de 1960, “tinha uma propensão pelos movimentos de ‘libertação’. O Exército Nacional de Libertação da Colômbia (FARC), criado pelo KGB com a ajuda de Fidel Castro; o Exército Nacional de Libertação da Bolívia, criado pelo KGB com a ajuda de ‘Che’ Guevara; e a Organização para a Libertação da Palestina, criado pelo KBG com a ajuda de Yasser Arafat[5]. Por outro lado, assinala Pacepa, o nascimento da Teologia da Libertação teve lugar no âmbito do Programa de Dezinformatsiya[6], aprovado por Aleksandr Shelepin, responsável máximo do KGB, e Aleksey Kirichenko, membro do Politburo que, à época, coordenava as políticas internacionais do PCUS. Os objetivos do Programa consistiam em “assumir o controle secreto do Conselho Mundial das Igrejas (WCC), baseado em Genebra, Suíça, usando-o como cobertura para converter a Teologia da Libertação numa ferramenta revolucionária sul-americana”. Na altura, “o WCC era a maior organização internacional ecumênica depois do Vaticano, representando 550 milhões de cristãos de várias denominações em 120 países” dos cinco continentes. Por outro lado, salienta Pacepa, “a nova Conferência Cristã pela Paz foi dirigida pelo KGB e estava subordinada ao respeitável Conselho Mundial da Paz, outra criação do KGB, fundado em 1949, com seu quartel-general  também em Praga”. Ao especificar seu conhecimento acerca da tessitura das diferentes organizações da “sociedade civil” pró-soviética, o ex-general romeno asseverou: “Durante meus anos na liderança da comunidade de Inteligência do bloco soviético, eu dirigi as operações romenas do Conselho Mundial da Paz (CMP). Ele era estritamente KGB. A maioria dos empregados do CMP eram oficiais de Inteligência soviéticos acobertados. Suas duas publicações em francês, Nouvelles Perspectives e Courier de la Paix, estavam também dirigidas pelos membros infiltrados do KGB – e da romena DIE”.

Um dos criadores da Teologia da Libertação, o sacerdote dominicano Gustavo Gutiérrez negou, há algum tempo, a origem marxista daquela corrente teológica, tendo afirmado que, entre aqueles que enveredaram pela adaptação das teorias de Karl Marx e seus seguidores à realidade política e social da América Latina, “muitos deles eram gente muito generosa, o que não significa que eles tivessem razão”. No entanto, em sua obra mais conhecida, Teologia da Libertação. Perspectivas, originalmente publicada em 1971 – uma deriva de Os Pobres, Jesus e a Igreja[7] –, lemos que, se a missão da teologia consiste em “descobrir o significado dos acontecimentos históricos, é para fazer com que o compromisso libertador dos cristãos neles seja mais radical e mais lúcido. Somente o exercício da função profética, assim entendida, fará do teólogo aquele que, tomando uma expressão de A. Gramsci, pode se chamar um novo tipo de ‘intelectual orgânico’”[8]. Deste modo, prossegue Gutiérrez, o teólogo tem que ser, sempre, “alguém, desta vez comprometido pessoal e vitalmente com os fatos históricos, datados e situados, através dos quais países, classes sociais, homens pugnam por se libertar da dominação e opressão a que têm submetidos outros países, classes e homens. Em última instância, com efeito, a verdadeira interpretação do sentido desvelado pela teologia se dá na práxis histórica”[9]. Em 28 de janeiro de 1979, durante sua visita ao México, intervindo na Sessão Solene de Abertura da III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Puebla de los Ángeles, São João Paulo II foi claro quanto à incompatibilidade existente entre o Cristo revelado e sua redução à dimensão histórico-social: a “concepção de Cristo como político, revolucionário, ou como o subversivo de Nazaré, não se compagina com a catequese da Igreja. Confundindo o insidioso pretexto dos acusadores de Jesus com a atitude do próprio Jesus – coisas bem diferentes – aduz-se como causa da sua morte o desenlace de um conflito político e cala-se a vontade de entrega do Senhor e ainda a consciência da sua missão redentora. Os Evangelhos mostram claramente que para Jesus era uma tentação aquilo que porventura alterasse a sua missão de Servo de Yahvé”. Por outro lado, o pontífice polonês sublinhou, igualmente, que Cristo “não aceita a posição daqueles que misturavam as coisas de Deus com atitudes meramente políticas; rechaça inequivocamente o recurso à violência; e patenteia a todos a sua mensagem de conversão, sem excluir os próprios Publicanos”. Mais recentemente, em 1984, o então cardeal Joseph Ratzinger, à época prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, publicou o documento intitulado Instrução sobre Alguns Aspectos da ‘Teologia da Libertação’. A Instrução é, sobretudo, uma advertência séria à promiscuidade ideológica existente, no Novo Mundo, entre alguns sacerdotes, os  movimentos sociais católicos e o marxismo-leninismo. De acordo com Ratzinger, a Teologia da Libertação que, em ruptura com as declarações de João Paulo II proferidas na III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano[10], desconsidera a juventude para se centrar unicamente nos pobres, não é senão “uma interpretação inovadora do conteúdo da fé e da existência cristã, interpretação que se afasta gravemente da fé da Igreja, mais ainda, constitui uma negação prática dessa fé”. Se, para a Teologia da Libertação, a Doutrina Social da Igreja[11] é desdenhosamente rejeitada, para aquele que seria o futuro papa Bento XVI, a Teoria Materialista da História, da autoria de Karl Marx, aplicada à fé católica, é um processo de intenções concebido por teólogos que partem do princípio “de que o ponto de vista da classe oprimida e revolucionária, […] constitui o único ponto de vista da verdade. Os critérios teológicos da verdade, veem-se, deste modo, relativizados e subordinados aos imperativos da luta de classes. Nesta perspectiva substitui-se a ortodoxia como regra correta da fé pela ideia da ortopráxis, como critério de verdade”. Deste modo, advertiu o Cardeal Ratzinger a partir das consequências da Teologia da Libertação para os fins últimos do catolicismo, “é preciso não confundir a orientação prática, própria à teologia tradicional, do mesmo modo e pelo mesmo título que lhe é própria também a orientação especulativa, com um primado privilegiado, conferido a um determinado tipo de praxis. Na realidade esta última é a praxis revolucionária que se tornaria assim critério supremo da verdade teológica. Uma metodologia teológica sadia toma em consideração, sem dúvida, a praxis da Igreja e nela encontra um de seus fundamentos, mas isto porque essa praxis é decorrência da fé e constitui uma expressão vivenciada dessa fé”.

Ion Mihai Pacepa foi o militar pró-soviético de mais elevada patente a desertar para o Ocidente. Desde então, suas obras e suas denúncias foram alvo de campanhas persistentes de dezinformatsiya. Suas declarações acerca das origens da Teologia da Libertação não têm sido exceção, no Brasil e no estrangeiro. Há alguns meses atrás, inquirido acerca da veracidade das declarações de Ion Pacepa a respeito desta tendência contemporânea da Igreja Católica, o padre Gustavo Gutiérrez “simplesmente apontou o dedo para a sua cabeça e o girou, indicando o quanto considera malucos tais dizeres. ‘Isso não merece dois minutos de atenção’, disse ele”. Contudo, a suspeita ante a eventual promiscuidade entre a religião, a política e os serviços de Inteligência permanece no ar, lançando dúvidas sobre o comportamento prático e a obra teórica de sacerdotes que construíram suas reputações com base no combate à alienação e à exploração de milhões de oprimidos da América Latina. Ou seja, tal como escreveu Alejandro Bermúdez, em artigo publicado pela Agência Católica de Notícias, “se o bloco soviético não foi a mãe da Teologia da Libertação, ele foi certamente uma madrasta sinistra, que alistou os católicos numa causa geopolítica, convidando-os a vender suas almas para financiamento e apoio”.

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Imagem:

A Teologia da Libertação defende, desde sua origem, um Cristo histórico-social, imerso na realidade das lutas políticas e econômicas da América Latina.

(Fonte):

http://www.portalfidei.com.br/v1/images/Noticias/2015/05/Teologia-da-Libertao.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

ION MIHAI PACEPA & RONALD J. RYCHLAK, Disinformation. Former Spy Chief Reveals Secret Strategies for Undermining Freedom, Attaking Religion, and Promoting Terrorism, Washington, DC, WND Books, 2013, (VIII) 428 págs.

[2] Ver:

Em entrevista concedida a Ryan Mauro, Ronald J. Rychlak declarou: “Os soviéticos compreenderam que Pio XII era uma ameaça mortal para a sua ideologia, ao desprezar o comunismo, tal como ele fizera com o nazismo. Assim, eles embarcaram numa cruzada para destruir o Papa e sua reputação, para escandalizar o seu rebanho e fomentar a divisão entre as religiões”.

Cf. ION MIHAI PACEPA, “Moscow’s Assault on the Vatican”, National Review, Nova Iorque, 25 de janeiro de 2007 [Disponível online: http://www.nationalreview.com/article/219739/moscows-assault-vatican-ion-mihai-pacepa]; ION MIHAI PACEPA & RONALD J. RYCHLAK, Disinformation. Former Spy Chief Reveals Secret Strategies for Undermining Freedom, Attaking Religion, and Promoting Terrorism, op. cit., págs. 59-203.

[3] Ver:

Aleksandr Mikhailovich Sakharovsky (Kostroma Oblast, Império Russo, 3 de setembro de 1909 – Moscou, URSS, 12 de novembro de 1983) foi um coronel-general soviético que dirigiu a Primeira Direção Principal entre 1955 e 1970. Ele também era conhecido pelo nome operacional Aleksandr Sakharov.

Sakharovsky supervisionou a Inteligência soviética nos momentos-chave da Guerra Fria: o levante húngaro, em 1956, a expansão, e consolidação, do marxismo-leninismo em Cuba, entre 1958 e 1961, a crise de Berlim, entre 1958 e 1961, que esteve na origem do Muro de Berlim, a crise dos mísseis, em Cuba, em 1962, e a invasão da Checoslováquia, em 1968.

ION MIHAI PACEPA & RONALD J. RYCHLAK, Disinformation. Former Spy Chief Reveals Secret Strategies for Undermining Freedom, Attaking Religion, and Promoting Terrorism, op. cit., págs. 115 e 325.

[4] Ver:

Na URSS, em 1947, o Comitê de Informação (KI) foi criado como órgão responsável pela política externa e as informações militares, junto do Conselho de Ministros. Tendo passado para a alçada do Ministério das Relações Exteriores, em 1949, ele foi integrado no Ministério da Segurança do Estado (MGB), em janeiro de 1952, como Primeira Direção Principal (PGU) – ou Primeira Diretoria Principal.

Em 7 de março de 1953, o Ministério da Segurança de Estado (MGB) foi fundido com o Ministério dos Assuntos Internos, adoptando a designação deste último (MVD). No dia  13 de março de 1954, foi criado, junto do Conselho de Ministros da URSS, o Comitê de Segurança do Estado (KGB), que seria extinto em 22 de outubro de 1991. No âmbito das suas atribuições e competências incluíam-se, entre outros, os órgãos de Segurança do Estado, as tropas fronteiriças, os órgãos de Contra-inteligência, estabelecimentos de ensino e de investigação científica.

https://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/o/orgaos_seguranca.htm

[5] Ver:

Num artigo publicado em 2009, Ion Pacepa adiantara: “Khrushchev chamou à nova religião inventada pelo KGB Teologia da Libertação. Sua propensão para a ‘libertação’ foi herdada pelo KGB que, mais tarde, criou a Organização para a Libertação da Palestina, o Exército Nacional para a Libertação da Colômbia e o Exército Nacional para a Libertação da Bolívia. A Romênia era um país latino e Khrushchev queria nossa ‘visão latina’ acerca de sua nova guerra religiosa de ‘libertação’. Ele também queria que nós enviássemos alguns Padres que foram cooptados, ou oficiais de cobertura profunda, para a América Latina, para ver como ‘nós’ poderíamos tornar sua nova Teologia de Libertação palatável nessa parte do mundo.”, ION MIHAI PACEPA, “The Kremlin’s Religious Crusade”, FrontPageMagazine.com, 30 de junho de 2009.

Disponível online:

http://archive.frontpagemag.com/readArticle.aspx?ARTID=35388

[6] Ver:

John Barron, jornalista e escritor norte-americano, autor de vários livros sobre as peculiaridades da espionagem na ex-União Soviética, anotou em 1974: “Os russos definem desinformação como ‘a disseminação da informação falsa e provocante’. Tal como é praticada pelo KGB, a desinformação é muito mais complexa do que a definição faz supor. Ela implica a distribuição de documentos forjados ou fabricados, cartas e fotografias: a propagação de rumores enganosos ou maliciosos e a Inteligência errônea por agentes; o engano dos turistas na União Soviética e os atos físicos cometidos para terem efeito psicológico. Estas técnicas são usadas de modo variável para influenciar as políticas de governos estrangeiros, perturbar as relações entre outras nações, minar a confiança das populações estrangeiras nos seus líderes e instituições, desacreditar os indivíduos e grupos que se opõem às políticas soviéticas, enganar os estrangeiros acerca das intenções soviéticas e as condições na União Soviética e, às vezes, simplesmente para obscurecer as depredações e erros do próprio KGB.

As operações de desinformação diferem da propaganda convencional na medida em que suas verdadeiras origens são escondidas e, geralmente, elas envolvem alguma forma de ação clandestina. Por esta razão, as autoridades soviéticas sempre incumbiram o seu aparelho clandestino da responsabilidade pela desinformação”.

JOHN BARRON, “Dezinformatsiya”, KGB, Londres, Hodder & Stoughton, 1974, in The Penguin Book of Lies, págs. 420-423.

Disponível online:

http://www.polskawalczaca.com/library/hereticpress_Dezinformatsiya%20%20The%20KGB’s%20Disinformation%20Activities.pdf

Por outro lado, o estudo da aplicação da dezinformatsiya na Rússia atual pode ser analisado em: VERA ZAKEM, PAUL SAUNDERS & DANIEL ANTOUN, Mobilizing Compatriots: Russia’s Strategy, Tactics, and Influence in the Former Soviet Union, Arlington, VA, CNA – Analysis & Solutions, novembro de 2015, págs. ii, 40 e 41.

Disponível online:

https://www.cna.org/CNA_files/PDF/DOP-2015-U-011689-1Rev.pdf

[7] Ver:

PAUL GAUTHIER, Les Pauvres, Jésus et l’Église, Paris, Éditions Universitaires, 1962, 141 págs.

[8] Ver:

GUSTAVO GUTIÉRREZ, Teología de la Liberación. Perspectivas, 7.ª ed., Salamanca, Ediciones Sígueme, 1975, pág. 37 [tradução de nossa responsabilidade].

[9] Ver:

Id., ib., pág. 38 [tradução de nossa responsabilidade].

[10] Ver:

Quando um Pastor da Igreja, portanto, anuncia com clareza e sem ambiguidades a Verdade sobre o homem, revelada por Aquele mesmo que sabia o que havia no homem, deve animá-lo a segurança de estar a prestar o melhor serviço ao ser humano.

Esta verdade sobre o ser humano constitui o fundamento da doutrina social da Igreja, como também é a base da verdadeira libertação. À luz desta verdade, o homem não é um ser submetido aos processos económicos ou políticos, mas são estes processos que estão ordenados para o homem e a ele submetidos”.

[11] Ver:

PAPA LEÃO XIII, Carta Encíclica Rerum Novarum, 15 de maio de 1891.

Disponível online:

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_15051891_rerum-novarum.html

A Provação Derradeira da Igreja

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AAVV

Antes do advento de Cristo, a Igreja deve passar por uma provação final que abalará a fé de muitos  crentes. A perseguição que acompanha a peregrinação dela na terra desvendará o ‘mistério de iniquidade’, sob a forma de uma impostura religiosa que há de trazer aos homens uma solução aparente a seus problemas, à custa da apostasia da verdade. A impostura religiosa suprema é a do Anticristo, isto é, a de um pseudomessianismo em que o homem glorifica a si mesmo em lugar de Deus e de seu Messias que veio na carne.

Esta impostura anticrística já se esboça no mundo toda vez que se pretende realizar na história a esperança messiânica que só pode realizar-se para além dela, por meio do juízo escatológico: mesmo em sua forma mitigada, a Igreja rejeitou esta falsificação do Reino vindouro sob o nome de milenarismo, sobretudo sob a forma política de um messianismo secularizado, ‘intrinsecamente perverso’.

(Catecismo da Igreja Católica, § 575 e 676)

Sacerdotes Brasileiros Reprovam Padres Cantores

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J. M. de Barros Dias

Uma frase, atribuída a Santo Agostinho, iluminou, desde a época dos Padres da Igreja, o papel da música nas atividades eclesiais: “quem ama canta, e quem canta reza duas vezes”. Que música era, então, essa que, durante muito tempo, deu, aos fiéis e aos gentios, público testemunho de sua fé? Tanto no Antigo Testamento quanto na Igreja Primitiva, a música sacra, entendida como súplica e louvor, esteve presente nas celebrações litúrgicas – Moisés cantou ao som dos tímpanos, acompanhado pelo canto do povo (Ex 15, 1-20); Davi e “toda a casa de Israel dançavam diante de Iahweh ao som de todos os instrumentos de madeira de cipreste, das cítaras, das harpas, dos tamborins, dos pandeiros e dos címbalos” (2Sm 6, 5). Nos primeiros tempos da Igreja de Roma, o canto dos Salmos já estava presente nas assembleias dos cristãos, tendo por origem a música judaica, especialmente a salmodia, praticada nas sinagogas. Sob o ponto de vista cronológico seguiu-se o canto gregoriano, organizado por São Gregório Magno e popularizado nos círculos católicos europeus entre os séculos VIII e IX, e, mais tarde, nos séculos XV e XVI, a polifonia[1]. Em inícios do século XX, o Papa São Pio X, por intermédio do Motu Proprio Tra le Sollecitudini, publicado em 22 de novembro de 1903, concedia novo esplendor ao canto gregoriano, enquadrando, naquele documento, o papel da música sacra no âmbito dos ofícios religiosos. O sumo pontífice enfatizou: “Uma composição religiosa será tanto mais sacra e litúrgica quanto mais se aproxima no andamento, inspiração e sabor da melodia gregoriana, e será tanto menos digna do templo quanto mais se afastar daquele modelo supremo”.

Entre 1962 e 1965, na sequência da convocação do papa São João XXIII, o Concílio Vaticano II pretendeu renovar a missão espiritual da Igreja, dando aos leigos um maior protagonismo, nomeadamente através de sua inserção nas Pastorais sociais, Movimentos e Novas Comunidades. No âmbito da popularização da música religiosa, no Brasil, logo em inícios da década de 1960, “uma irmandade do interior de São Paulo[,] as ‘Missionárias de Jesus Crucificado’[,] lançavam em 1963 o seu primeiro LP, intitulado ‘Missionárias em LP’ com selo da própria irmandade, com músicas compostas pelas próprias irmãs e feito sob encomenda pela Cia Industrial de Discos no RJ”. Anos mais tarde, em 1967, o padre José Fernandes de Oliveira – o Padre Zezinho –, “depois de ter sido ordenado em 1966 nos EUA, vem para o Brasil e muda completamente a forma de se conduzir uma missa, compondo e introduzindo instrumentos elétricos, atraindo multidões… principalmente os jovens, pois falava a linguagem que os jovens da época entendiam”. Mais recentemente, graças ao impulso dado pela Renovação Carismática Católica, sem que se confundissem a música sacra, a música popular religiosa e as variantes musicais, ao gosto das multidões, sob o ponto de vista nominal denominadas como católicas[2], emergiu o primeiro dos muitos padres cantores com dimensão midiática: o padre Marcelo Rossi[3] que, desde 1997, recorre ao canto, à dança e às coreografias em missas lotadas e programas de televisão. Hoje em dia, os padres Jonas Abib, Fábio de Melo, Antônio Maria, Reginaldo Mazotti, Hewaldo Trevisan, Alessandro Campos, Marcos Roberto Pires – o Padre Elvis –, assim como, até há pouco tempo, o ex-padre Zeca[4], de entre outros, atraem anualmente, com seus espetáculos musicais que, por vezes, se aproximam da indústria cultural[5], no país e no estrangeiro, milhões de espectadores. Por outro lado, as obras literárias destes sacerdotes, um misto de popularização do Sagrado e um esforço de auto-ajuda, têm vindo a conquistar, de maneira crescente, a atenção das editoras livreiras, tanto as católicas, quanto as estritamente comerciais.

A atividade dos chamados padres cantores, ou padres artistas, captou o interesse das grandes produtoras discográficas, mundiais e nacionais[6]. A mundanidade de algumas daquelas vocações tem suscitado críticas por parte de sacerdotes brasileiros. Em 2010, Aldo Di Cillo Pagotto, arcebispo da Paraíba, declarou: “Eu critico o ato de se fazer do evangelho um show. Há tempos, a igreja tinha entrado em temáticas sociais e com um viés um tanto esquerdista. De um tempo para cá, a igreja entrou nessa questão de padres cantores, artistas”. Dom Aldo adiantou ainda que, com este tipo de prática, misto de religiosidade e de show multitudinário, “corremos o risco de ficar no emotivo-show e no ‘oba-oba’. Como atrelar a emotividade? E depois? Esse ganho de um compromisso sistemático, do itinerário de obras… a fé sem obras é morta”. Por seu turno, indo mais longe, Frei Betto situou a problemática dos padres cantores no âmbito do processo mundial de globalização. Deste modo, ele escreveu: “A globalização nada mais é do que a redução do mundo a um mercado, onde investem os donos do capital e no qual a condição de cidadão importa menos que a de consumidor”. A Igreja light, que tem, como representantes maiores, os padres que transformam a fé em relação mediada pelo divertimento, levou Frei Betto a referir que, atualmente, “nem a religião escapa. Criada para elevar as pessoas a outro nível de consciência, para que vivenciem a comunhão com Deus e entre si, e fundada em valores derivados de revelação transcendente, aos poucos perde sua dimensão profética, de denúncia e anúncio”. Afastada do plano dos deveres e reduzida à esfera festival da existência, a Igreja, tal como é promovida pelos astros da canção católica, “brilha sob as luzes da ribalta, trocando o silêncio pela histeria pública, a meditação pela emoção truncada, a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera católica, torna o produto mais palatável, destituindo-o de três fatores fundamentais na constituição da Igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção dos fiéis em comunidades; a reflexão bíblico-teológica; e o compromisso pastoral no serviço à justiça”. De acordo com Frei Betto, se Jesus Cristo, em seus dias terrenos, “tivesse adotado estilo semelhante, […] não teria sofrido perseguição, nem sido preso, torturado e assassinado na cruz. A multidão teria clamado por ele, e não por Barrabás. Na entrada de Jerusalém, o burrinho cederia lugar ao cavalo branco dos imperadores”.

O padre Leonardo Holtz Peixoto é um sacerdote tradicionalista, membro da Fraternidade de São Pio X. Repudiando o modernismo[7], dominante em círculos significativos do clero brasileiro, ele escreveu, em janeiro de 2011, uma carta a Orani João Tempesta, arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro. Nela, o padre Leonardo inquiriu: “Por que nossas paróquias e santuários estão repletos de fiéis nas missas (especialmente nas missas-show), mas as pastorais estão vazias? Por que nossos fiéis não sabem mais o catecismo? Por que as quadras de samba e as praias estão muito mais bem frequentadas do que nossas paróquias? Creio que muitos saibam as respostas dessas perguntas, mas muito poucos tem a CORAGEM de admitir, pois é muito mais confortável colocar remendos do que derrubar tudo e reconstruir”. Prosseguindo sua missiva, em tom duro, o padre Leonardo, contrapondo sua opção vital e religiosa aos vícios presentes na prática de membros do sacerdócio, desde o aggiornamento promovido pelo Concílio Vaticano II[8], assinala: “Hoje temos de tudo: padres cantores, psicólogos, jornalistas, artistas, mas temos poucos padres PADRES! Encontramos padres em todos os ambientes hoje, mas, se bobearmos, só não os achamos nas paróquias. Soube que existe um padre que não rezava a Missa da primeira sexta-feira do mês em sua paróquia; as senhoras do Apostolado da Oração para obrigá-lo a rezar a Missa, fazem uma ‘vaquinha’ todo mês e lhe dão uma espórtula. Isso porque ele afirma que só celebra durante a semana se houver intenções marcadas. Mas, mediante uma espórtula, abre-se uma exceção”.

Em 12 de Abril de 2014, véspera de Domingo de Ramos, o padre Fábio de Melo participou no programa televisivo “Altas Horas”, da TV Globo. A Associação dos Devotos de Fátima, com sede em São Paulo, indignada com o fato de o sacerdote se ter apresentado sem estar paramentado, em plena Quaresma, manifestou sua indignação nos seguintes termos: “Enquanto ele se apresentava na madrugada de sábado, em Roma o Papa Francisco preparava-se para celebrar a Missa do Domingo de Ramos e dar início às cerimônias da Semana Santa que precedem a Páscoa”. Deste modo, segundo a Associação, não “é normal ver um padre exercendo seu papel sacerdotal sem as devidas preocupações com seus votos e com sua imagem que deve ser, antes de tudo, a imagem da Santa Igreja”. Na sequência, em abaixo-assinado dirigido à hierarquia católica, no qual se pedia o “direcionamento” dos padres cantores, a Associação dos Devotos de Fátima salientou: “Com frequência temos que lutar com a perplexidade de ver esses religiosos participando de programas totalmente inadequados, tanto para sua condição quanto para o bom exemplo e formação espiritual dos fiéis”. Por outro lado, em 18 de  agosto de 2015, o cardeal João Braz de Aviz, arcebispo emérito de Brasília e atual prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada  e as Sociedades de Vida Apostólica, em visita ao Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, situado em São José dos Campos (SP), teve a oportunidade de se referir aos padres cantores. Em entrevista ao G1, sem citar nomes, ele teceu as seguintes considerações: “Nem tudo nos nossos padres cantores está claro, basta olhar. É preciso voltar ao essencial, questionar o porque se está ali cantando aquela música na televisão. Qual a razão que me faz estar aqui? É Jesus Cristo? Minha fama? O dinheiro?”. Prosseguindo, Dom Braz de Aviz sublinhou que “não é bom deixar estragar tudo para depois mexer. Eu não cito nomes, mas tem coisas chatas aí”. Em contrapartida, o prelado, que é grande admirador da obra do Padre Zezinho, considerou o fato de que aquele sacerdote “não se apegou à imagem e ao dinheiro. O que sobressai nele é Jesus Cristo. Se o que conta é o dinheiro, a fama e o poder, mesmo que você tenha uma bela voz e fale bonito, está errado”. Ao terminar a entrevista, o cardeal se referiu ao celibato dos consagrados mas, implicitamente, também ao primado dos valores práticos e hedonísticos em detrimento do primado da espiritualidade entre alguns dos religiosos do país: “Precisamos pautar nossa vida em um testemunho simples e direto, convicto. Se uma pessoa consagrada vive infeliz e carrancuda, pode ir para outro lado, buscar outro caminho ou ela deve mudar[9].

Os caminhos, por vezes transviados, de determinados membros da Igreja Católica, percorridos contemporaneamente em práticas que indicam a ostentação materialista, nos levam a relembrar a validade da recomendação feita por S. Paulo em sua Epístola aos Efésios: “Falai uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso coração” (Ef 5, 19). Em 1985, advertindo os católicos para os tempos que, já naquela época, se intuíam em sua plenitude, o então cardeal Joseph Ratzinger – o futuro papa emérito Bento XVI –, em diálogo mantido com Vittorio Messori, estabeleceu um divisor de águas entre a espiritualidade e o entendimento da fé como teatro do mundo. Ratzinger foi peremptório: “A liturgia não é um show, um espetáculo que necessite de diretores geniais e de atores de talento. A liturgia não vive de surpresas ‘simpáticas’, de invenções ‘cativantes’, mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e o seu efêmero, mas o mistério do Sagrado. Muitos pensaram e disseram que a liturgia deve ser feita por toda comunidade, para ser realmente sua. É um modo de ver que levou a avaliar o seu sucesso em termos de eficácia espetacular, de entretenimento”, à semelhança dos êxitos musicais feitos para conquistar espectadores e mercados[10]. Com efeito, se cada um de nós – e também os padres cantores – pode fazer tudo aquilo que quer, convém ter presente aquilo que, em cada momento de nossas vidas, nós devemos fazer. No caso específico dos sacerdotes, que devem constituir fontes irradiadoras de espiritualidade, isto é tanto mais relevante. Por isso, “a Prudência ensina a cuidar tanto, ou mais, no que se deve omitir, como no que se há-de dizer”[11] e se há-de levar a cabo.

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Imagem:

Padre Alessandro Campos, um dos ícones dos padres cantores brasileiros.

(Fonte):

https://gouvim.files.wordpress.com/2016/02/5e67f-padre2balessandro.jpg

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Fontes bibliográficas:

Na Carta Encíclica Musicæ Sacræ Disciplina (1955), o papa Pio XII anotou: “A Igreja também teve sempre em grande honra este canto polifônico, e de bom grado admitiu-o para maior decoro dos ritos sagrados nas próprias basílicas romanas e nas cerimônias pontifícias. Com isso se lhe aumentaram a eficácia e o esplendor, porque à voz dos cantores se aditou, além do órgão, o som de outros instrumentos musicais”.

[2] Ver:

Pio XII, em 1955, encarando as práticas religiosas como uma disposição e uma realidade holísticas, adianta, relativamente à música de índole religiosa, executada fora das igrejas: “Em grande estima se deve ter também a música que, embora não sendo destinada principalmente ao serviço da sagrada liturgia, todavia, pelo seu conteúdo e pelas suas finalidades, importa muitas vantagens à religião, e por isso com toda razão é chamada música ‘religiosa’. Na verdade, também este gênero de música sacra – que teve origem no seio da Igreja, e que sob os auspícios desta pôde felizmente desenvolver-se está, como o demonstra a experiência, no caso de exercer nas almas dos fiéis uma grande e salutar influência, quer seja usada nas igrejas durante as funções e as sagradas cerimônias não-litúrgicas, quer fora de igreja, nas várias solenidades e celebrações. De fato, as melodias desses cantos, compostos as mais das vezes em língua vulgar, fixam-se na memória quase sem esforço e sem trabalho, e, ao mesmo tempo também, as palavras e os conceitos se imprimem na mente, são frequentemente repetidos e mais profundamente compreendidos”.

[3] Ver:

Estabelecendo as analogias e as diferenças entre as práticas do padre Marcelo Rossi e do bispo Edir Macedo, Fernando de Barros e Silva escreveu, no jornal Folha de S. Paulo: “O padre Marcelo Rossi é uma versão light, asséptica, socialmente aceitável e esteticamente palatável da Igreja Universal; o transe coletivo que ele mobiliza é por assim dizer epidérmico, se resolve com musiquinhas infantis e coreografias de auditório; não há, como no caso da Universal, demônio para ser enfrentado, não há necessidade de provação nem praticamente introspecção por parte dos fiéis engajados na sua fé aeróbica. As freirinhas que pulavam histéricas no Terço Bizantino são algo como a versão Disneylândia dos pastores com ar de capangas da fé da Igreja Universal”.

[4] Ver:

ISABEL DE LUCA, “Zeca de Mello, Confissões de Um Ex-padre que se Reinventa Seis Anos Após Deixar a Batina”, O Globo, Rio de Janeiro, 11.08.2013.

Disponível online:

http://oglobo.globo.com/rio/zeca-de-mello-confissoes-de-um-ex-padre-que-se-reinventa-seis-anos-apos-deixar-batina-9467685

[5] Ver:

De acordo com o teólogo Leonardo Boff, o “padre Marcelo Rossi está imitando as [igrejas] pentecostais. Há um vazio de evangelização, é a relação pessoa e Deus. É melhor escutar o padre Rossi do que escutar a Xuxa, mas é a mesma coisa. Eles são animadores de auditório. Isso não leva ninguém à transformação. É um Lexotan. Depois volta a lógica dura da vida. É uma evangelização desgarrada da vida concreta.”, LEOPOLDO MATEUS, “Leonardo Boff: ‘João Paulo II e Bento XVI Afastaram a Igreja do Mundo’”, Época, São Paulo, 18.09.2010.

Disponível online:

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI172828-15227,00-LEONARDO+BOFF+JOAO+PAULO+II+E+BENTO+XVI+AFASTARAM+A+IGREJA+DO+MUNDO.html

[6] Ver:

São de referir, a título de exemplo, as seguintes gravadoras globais que mantêm, ou mantiveram, contratos com padres cantores: Canção Nova (Fábio de Melo); Comunidade Canção Nova (Jonas Abib); LGK Music (Fábio de Melo); Paulinas – COMEP (Fábio de Melo; Jonas Abib; Padre Zezinho); Som Livre (Alessandro Campos; Fábio de Melo; Reginaldo Manzotti); Sony Music (Fábio de Melo; Marcelo Rossi); Universal Music (Marcelo Rossi).

[7] Ver:

Em 1907, o Santo papa Pio X, no Decreto Lamentabili Sane Exitu e na Carta Encíclica Pascendi Dominici Gregis, condenou o modernismo, tendo tornado obrigatório, para todos os membros do clero, pastores, confessores, pregadores, superiores religiosos e professores em Seminários de filosofia e teologia, o Juramento Anti-Modernista. O Juramento seria revogado em 1967, pelo papa Paulo VI, que considerava o conceito de modernismo ambíguo, podendo se confundir com o modernismo, utilizado em sentido estético. Deste modo, a partir da decisão tomada por aquele pontífice, o modernismo ficou restrito aos católicos tradicionalistas, passando os erros modernistas a ser referidos por seus próprios nomes: secularismo, laicismo, liberalismo, relativismo, subjetivismo e cientificismo.

[8] Ver:

Referindo sua oposição às disposições do Concílio Vaticano II, o padre Leonardo Holtz Peixoto escreve: “Como católico, eu não estou obrigado a aceitar o Concílio Vaticano II, uma vez que este foi um concílio pastoral e não um concílio dogmático”.

Quanto ao rito da missa nova, seguido pelos padres pós-conciliares, o padre Leonardo manifesta deste modo sua rejeição total: “Quanto à Missa, não nego a validade da nova missa, contudo afirmo que ela é ambígua e não expressa, como a de S. Pio V, os principais dogmas católicos. Confesso que celebro com muita relutância a missa segundo o Novus Ordo (de Paulo VI). Não posso aceitar o ofertório do Novus Ordo que é uma berakah judaica. É claramente uma ceia e não um sacrifício! Há muito tempo que eu o substituo pelo Ofertório Tradicional. Faço esta e outras modificações para que a missa nova seja o mais suportável possível para mim e possa expressar o mais possível os nossos dogmas de fé. Contudo isso me incomoda muitíssimo, pois sei que não tenho a graça de estado para modificar um rito”.

[9] Ver:

Ilustram a desorientação das vocações de alguns religiosos brasileiros as declarações que passamos a referir:

Dalcides Biscalquin, um ex-padre cantor ligado à Canção Nova, em entrevista a Gabriel Chalita, conta com naturalidade como decidiu abandonar “a vida eclesiástica para viver um grande amor, um amor divinamente humano”. Para o ex-salesiano, ““não era possível para mim repousar somente nos braços do sagrado, negando meu lado humano”.

Zeca de Mello, o ex-padre Zeca, confessa, em sua primeira entrevista após ter deixado o sacerdócio: “A gente se apaixonou – confessa. – Mas nunca deixaria o ministério por uma mulher. Quando a gente se conheceu eu já estava em crise. Sempre pensei que, se deixasse o ministério, essa responsabilidade deveria ser só minha. Então a vida nos separou, e só fui reencontrá-la anos depois: ela tinha terminado um relacionamento; eu não era mais padre e tinha acabado um namoro também (ele diz que teve ‘algumas namoradas, uma mais séria’, depois de largar a batina)”. Entrementes, evocando os tempos relativos à frequência do curso de Crisma, Zeca de Mello adiantou: “Achava missa uma coisa chata, uma celebração muito distante”.

[10] Ver:

“Muitos compositores da música popular compõem primeiro a música e depois a letra. Para quem coloca em primeiro plano a letra, como no canto gregoriano, é impensável compor antes a música e depois a letra. Seria colocar o carro à frente dos bois.

O primeiro plano para o compositor gregoriano é a letra, a Palavra de Deus, e não pode ser diferente; a música vem em segundo plano; ela nasce do texto e de sua prosódia. A forma da música e a sua estrutura são o resultado da forma e da estrutura do texto: o texto inspira a música.

O mesmo se diga de qualquer outra peça de canto atual destinado à liturgia. O compositor de música litúrgica sente-se inspirado quando tem diante dos olhos um bom texto baseado na Bíblia: lendo o texto, o compositor já vai planejando a parte musical. Pois, na liturgia, a música é inspirada na Palavra de Deus. A música é servidora da Palavra à semelhança do canto gregoriano.”, JOSÉ W. WEBER, Introdução ao Canto Gregoriano, São Paulo, Paulus, 2013, págs. 19-20.

[11] Ver:

UM RELIGIOSO DA ORDEM TERCEIRA [FREI MANUEL DO CENÁCULO], Memórias Históricas do Ministério do Púlpito, Lisboa, Na Régia Oficina Tipográfica, 1776, pág. 264.